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sexta-feira, 31 de maio de 2024

[CONTO] A profecia

 Serra do Lago, 2007.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 



                                      O braço putrefato que Helena arrancara de Agnes, é mergulhado em um aquário pelo padre Francisco, enquanto Jonathan o observa: — Senhor, isso é correto? — perguntou o bandido. 

— Serra do Lago tem mudado bastante — explicou o padre. —, por anos o que travou essa podridão foram às oito famílias, Marjourie era a nata de todas elas, mas agora ela está morta. 

O homem de fé percebeu a hesitação de seu subordinado: — Nenhum bruxo deste século voltou dos mortos, quando acontecer ela unirá as oito famílias de uma vez por todas. 

— Achei que o senhor odiasse os fundadores. 

— Odeio — respondeu Francisco. — do jeito que estão. Agnes foi um ótimo testa de ferro, as coisas vão se acalmar por aqui, então iremos a fase dois sem pressa. 

                                 Enquanto isso, na escola dos fundadores, Helena observa a bizarra decoração digna de um dia das bruxas com seus brilhantes olhos azuis. 

— O dia da profecia? — a loura deixou sua leitura escapar em forma de palavras, ao parar em frente a uma faixa. 

                              — Nunca ouviu sobre? — Sete perguntou e Helena acenou negativamente com a cabeça. — As oito famílias em uma bela noite presenciaram o embate de um anjo e um demônio. 

— E vocês fizeram um pseudo-dia das bruxas em cima dessa lenda? 

Helena perguntou fazendo força para não rir: — Acredite se quiser, bem eu vou ao banheiro. Até depois. — disse o garoto entrando em uma porta. 

— Helena! — Marisa vinda na direção da irmã. — Recebi a ligação dos pais do pessoal, todos eles sumiram! 

— Calma, acabei de falar com o Sete. — explicou à loura, recebendo o abraço da morena como se fosse puramente saudade. 

                            — Mas os outros sumiram, procurei por toda a escola! 

Helena olhou para a feição preocupada de Marisa e olhou para a porta do banheiro masculino: — Faz o seguinte, espera o Sete, eu tenho uma pista de quem sabe onde eles estão. 

— Espera! — Marisa ordenou ao ver sua irmã correr. — Para onde vai?

Helena correu sem dar atenção para Marisa, ninguém percebeu, mas a loura chorava e seu rosto ficava com um tom avermelhado, enquanto aumentava sua velocidade rumo à parte marginal da escola. 

Por lá, havia um grupo de cinco adolescentes reunidos em frente a um latão de lixo, em completo silêncio. 

                            — Estão me esperando? — Helena perguntou chamando a atenção para si. — Isso foi estúpido, é claro que estão. Olha para vocês, quietos e tensos, nunca fizeram isso? 

— Do que essa maluca está falando...

As gargalhadas fantasmagóricas de Helena interromperam uma menina de completar a pergunta: — Eu ameacei o líder de vocês e raptaram meus amigos e depois, me esperaram em uma área isolada da escola, vocês acham que eu sou idiota?! 

— Para falar a verdade. — Helena balbuciou evocando sua espada da luz. — Eu vou gostar do que vou fazer e vou gostar muito. 

 O garoto loiro precisou segurar o gordinho pela camisa, para que ele não fugisse, enquanto Helena partia para o ataque. 

      — Tiago! — brigava ele. — Precisamos lutar aqui, faça o que combinamos! Agora! — o gordinho juntou as mãos e evocou uma magia poderosa, um campo de força protegeu todos os seus amigos. 

— Perfeito, Ana, comece o encantamento! — o loiro ordenou vendo Helena desferir inúmeras espadadas na redoma que o protegia. 

— Vai demorar de dois a três minutos, da pra confiar na barreira? 

— Vou dar o máximo! — Tiago afirmou e assim, a amiga começou a cantar com palavras impronunciáveis. 

— Seus merdas! — Helena gritava. — Tudo que os separa de mim é essa coisa! — ela cuspiu na barreira e voltou a golpear a redoma. 

                                 Quer dizer que você acha história chata? — quem se lembrava era Tiago, do dia em que conheceu Helena. — Eu acho que quem não sabe a história, está fadado a repeti-la. 

— Ela está atacando o campo de força em um único ponto. — outro comentou vendo a loura incansável para entrar. 

— Vou dar tempo para a Ana! — O líder loiro exclamou mexendo em seu colar de pedras vulcânicas e fazendo o movimento de puxão para baixo, com uma força considerável. 

— Ficou maluco?! — Tiago gritou olhando o céu. — Vai nos acertar! 

— E daí? Estamos protegidos. — Helena ouvia-o, enquanto observava três bolas de fogo despencarem do céu e o por isso, ela teve que se afastar da redoma que seu colega de escola criou, rapidamente. 

A magia de Tiago estremeceu com o impacto, porém assim que as esferas tocaram o chão, Helena estava bem mais afastada e arfante. 

— Você viu aqueles saltos? — outra amiga perguntava. — Foi acima da equipe de ginástica, ela é mesmo humana? 

— Claro que é, vocês estão com med...

O líder se interrompeu ao ver Helena segurar a espada da luz em uma posição peculiar: — Tem como ela saber essa magia? — perguntou Tiago vendo-a sorrir. 

— Impossível, é um blefe e de onde ela tiraria forças? — o loiro indagava-se, tentando relaxar seu grupo. 

                                   — Lanterna de Wake! — Helena gritou e instantaneamente, disparou sua espada de luz como um projétil, na direção da redoma que Tiago conjurou. 

O campo de força estava enfraquecido devido ao impacto dos meteoros e se despedaçou jogando seus protegidos ao chão, como se eles tivessem sido levados por uma forte onda. 

— Que magia poderosa. — Ana parou de cantar, para reclamar. 

Helena buscava muito ar para respirar e curvava seu tronco para frente: — São preciso cinco de vocês, para me fazer suar. Geis...

                                              Uma esfera de luz trombou com as costas da loura e a jogou no chão, antes que ela pudesse concluir e depois a esfera se transformou em Jonathan.

— Seria problemático se ela falasse algo. — o bandido falava verificando que a bruxa estava desmaiada. — Fizeram um bom trabalho, eu nunca conseguiria vencer esse monstro. 

Quem tinha presenciado a luta e seu desfecho, era Renan um garoto com quem Helena saia, agora estava escondido. 

— Até mais crianças. — saudou Jonathan. — Foi um prazer. — ele se transformou em esfera junto da loura desacordada e saiu voando da escola, como se nada tivesse acontecido, enquanto os garotos comemoravam a vitória contra uma inimiga formidável. 

                                                                                Continua...


quinta-feira, 30 de maio de 2024

[CONTO] O Cotidiano de Breen - II

Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 15 de Maio de 2006, 16:00.

O som da chuva batendo nas janelas era como um relógio em contagem regressiva. Era a típica tarde fria em que a pluviosidade se concentrava exclusivamente na região do Bosque dos Alves, enquanto o resto da cidade via céu limpo e nevoeiro. Monica Breen observava a tempestade se intensificar do conforto frio de sua sala de comando. A escolha de Serra do Lago, no Espírito Santo, havia sido estratégica. Após os escândalos de Guantánamo, ela sabia que precisava de um lugar discreto, pequeno, longe dos olhos da mídia americana. Ali, se algo falhasse, seria menos notado. Mas ultimamente, a preocupação tinha se transformado em um medo palpável. A situação com Arthur Brooklet e os karpovitas estava se aproximando de um limite perigoso.

A sala estava repleta de monitores, todos mostrando dados críticos. Em um deles, a transmissão ao vivo da cela esférica de Brooklet. Ele estava deitado, o olhar sereno, quase confiante. Uma dúvida perfurou a mente de Breen. "Seria tudo isso uma encenação?"

As palavras de Brooklet ecoavam na sua cabeça, como um espectro assombrando seus pensamentos: "Se você estivesse tão certa de sua vitória, não teria se dado ao trabalho de vir até aqui. Você não está me contando alguma coisa. E certamente isso te preocupa de algum modo."

Um arrepio subiu pela espinha de Breen. Determinada a confrontar seus medos, ela pegou o telefone e ligou para o Dr. Richard Montalban, um dos cientistas mais respeitados do departamento. "Encontre-me na sala de contenção da Hamington," disse, sua voz fria e resoluta.

Na Sala de Contenção da Hamington

A sala de contenção estava mergulhada em um silêncio quase reverente. O Dr. Montalban estava lá, ajustando os controles da máquina de escrever Hamington. O brilho pálido das telas criava sombras que dançavam nas paredes. "Doutora Breen," ele começou, hesitante, "não fizemos testes suficientes com a máquina. Ela só parece responder a um talento verdadeiro."

Breen respirou fundo, sentindo o peso do momento. "Ganhei o concurso de contos inspirados em Francis Scott Fitzgerald quando estava na faculdade," revelou, sua voz firme, mas carregada de memórias distantes.

Montalban olhou para ela, os olhos cheios de dúvida. "Muito bem," disse ele finalmente, "mas lembre-se, a máquina reage de maneira imprevisível. Se algo der errado, poderemos ter um problema ainda maior."

O último mover de peça:

Breen sentou-se diante da Hamington, a máquina de escrever que poderia ser sua salvação ou ruína. A intuição dizia que um avanço dos karpovitas contra a base seria uma armadilha. Chaya Sándor confiava em Ivan Petrov, mas o que ela não sabia era que ele era insano, paranoico, com uma mania de perseguição e traição. Esse era o ponto fraco que Breen precisava explorar.

Cada palavra que escrevia parecia ter um peso maior do que as anteriores. A luz azul fraca começou a emanar da Hamington, pulsando como um coração desesperado. As frases fluíam, tecendo uma narrativa que poderia mudar o curso dos eventos.

A luz azul da Hamington pulsava, iluminando o rosto de Breen enquanto ela digitava as últimas palavras. Sentia a tensão em cada músculo, mas também uma determinação feroz. Levantou-se lentamente, a luz diminuindo até desaparecer. As palavras no papel eram agora uma nova realidade, uma nova esperança.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

[CONTO] Duzentos anos antes, três anos antes.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 

Serra do Lago, 2007.



                       Um cemitério com muita lama e uma fina camada de chuva surgiu. Ao redor estavam inúmeras pessoas carregando tochas e no centro, o que seria um padre, com as mãos e pés pregados em um caixão que estava de pé.

— Jesuíta Agnes! — um dos homens lia uma carta. — Como se defende dos crimes de pedofilia e assassinato de vinte crianças, por beber seu sangue?

— Eu vou expurgar os fundadores de Serra do Lago e me deleitarei em cada gota de sangue deles que caminhar sobre a terra, até o fim dos tempos! — gritou Agnes encarando seus julgadores, com muito ódio.

O carrasco fechou o caixão e depois empurrou ao buraco, para que sete palmos de terra fossem despejados, sobre ele. Só depois de ler isso, Giulia fechou o livro da biblioteca de Guilhermina e saiu correndo.

     — Gente! — a garota abriu a porta do quarto de Marisa, onde estavam à própria, Helena e Alexandra. — Eu descobri quem ele é?

— Ele quem? — perguntou Helena, ainda penteando o cabelo.

— O vampiro que você lutou contra, viveu aqui, uns duzentos anos atrás. — enquanto Giulia contava, Marisa olhava fixamente para as suas próprias mãos, como que se buscasse uma solução.

                                              Se vocês tivessem se manifestado um pouco antes, eu não...

— Tem alguém ai? — Alexandra perguntou entrando no campo de visão de Marisa e a fazendo interromper seus próprios pensamentos.

— Eu sei que falar de vampiros é legal, mas vamos perder a festa. Será que só por uma noite podemos relaxar? — agora a ginasta perguntava a todas as presentes naquele quarto.

Quase não tem água benta, acho que dá para mais uma.

— Agora é a outra irmã! — Alexandra reclamava de Helena perdida nos pensamentos. — Vamos nos atrasar, por favor.

                                 Enquanto isso, nos fundos da igreja de Serra do Lago, o padre e seus três comparsas faziam uma espécie de ritual sombrio com sacrifício de três animais e uma mulher.

— Que a verdadeira herdeira dos Costa nos fale, por este cadáver.

— Um padre? — a voz de Majourie ecoou pela boca ensanguentada da morta e os três quase hesitaram. — Profanando sua igreja?

— O que está profanado são as famílias fundadoras, a começar pela sua. Sua mãe adotou uma criança e revelou seus segredos.  

Afirmou o homem de fé, até que a entidade perguntou com certa raiva na voz: — Quem é você, bastardo?

— Um padre. Que quer ver as elites, puras, como devem ser.

                                         Música alta e luzes brilhantes refletiam nos rostos de Helena, Alexandra, Marisa, Giulia e inúmeros convidados da festa. Até que o corpo de uma adolescente tombou pelas escadas.

A menina estava morta e ao terminar de cair uma correria e gritaria começaram: — Esperem. — pediu Helena segurando sua irmã e amigas.

As quatro se viram sozinhas e acima da escada, um homem descalço flutuava enquanto as olhava, era Agnes, o vampiro  que desta vez esbanjava uma invejável vitalidade.

                              — Giulia e Alexandra. — Helena chamava ao mesmo tempo em que evocava sua espada da luz e esvaziava um cantil. — Liguem as lanternas de todos os carros custe o que custar.

— Ta preocupada...

— Marisa! — gritou a irmã. — Desliga as luzes da festa.

— Eu me lembro de você, desta vez essa magia não conseguirá te salvar das minhas presas. — afirmou o vampiro ao ver as garotas se dispersarem e instintivamente, ele jogou Helena contra uma porta de vidro, com telecinese.

Espero que saiba o que está fazendo. — pensou Marisa com um pedaço de papel na mão. — Geist. — proferiu e todas as luzes da festa se apagaram, mas o vampiro gargalhou.

             — Não adianta! — gritou Agnes. — Essa coisa espalhafatosa te ilumina, como um lampião. — ele flutuava lentamente na direção da loura, que ainda se levantava.

— Para quem ficou duzentos anos em uma caixa, você é bem arrogante. O mundo mudou bastante, sabia? — Helena perguntava sorrindo para o monstro em sua frente.

— Do que você está falando? — indagou o vampiro percebendo a confiança da lourinha e pela primeira vez hesitando.

Helena diabolicamente gargalhou para irritar seu adversário, antes de responder: — Existe uma época do ano em que o sol nasce antes da hora, um conhecimento que você desconhece. O horário de verão!

                             Com a magia Geist, de Giulia e Alexandra os faróis de sete carros foram ligados diretamente na direção de onde Agnes estava e enquanto Helena gargalhava igual uma bruxa, o vampiro recolhia-se da luz temendo o fim de sua existência.

— Você é mesmo um gênio! — Marisa elogiava a irmã, colocando os óculos escuros sobre os olhos para se proteger de toda a claridade.

Helena corria na direção do vampiro, aquela era a brecha que ela estava esperando e empunhando sua espada de luz branca, armou um derradeiro golpe que precisaria ser certeiro.

                  Essa luz! — pensou o vampiro. — Não queima! — gritou conseguindo desviar do ataque da loura, mas ainda assim, seu braço esquerdo foi cortado pela metade e tombou a esquerda de Helena.

— Merda! — praguejou a bruxa quando se virava para trás e tinha a visão prejudicada pela luz das lanternas dos carros. — Geis...

Com a mão que ainda lhe restava, Agnes segurou a boca de Helena e a pressionou contra a parede com uma força considerável.

— Foi um belo truque — elogiava o vampiro. —, mas se não puder falar essa palavra, nada irá acontecer e aquelas outras já usaram esse mesmo poder! Acabou pequena!

— Irmã... — Marisa hesitava ao ver a espada de luz no chão e os caninos pronunciados de Agnes se aproximando do pescoço de Helena.

                              Não precisa terminar assim... — a voz da falecida irmã de Marisa, ecoava em sua mente, enquanto a vida da adotiva estava prestes a ser ceifada. — Com estes poderes, você poderia tê-lo salvado, assim como pode agora. Apenas liberte o seu poder.

Marisa ergueu as mãos na direção do vampiro e berrou como nunca antes na vida, no momento que lágrimas, decorriam por baixo dos seus óculos. A telecinese foi tão poderosa que Agnes largou Helena e começou a flutuar contra a sua vontade.

                       — Essa magia bruta... — assim que Marisa deu outro grito imoral, Agnes foi interrompido, já que seu corpo explodiu por conta da pressão que o poder da bruxa exerceu.

Helena arregalou os seus olhos azuis ao ver a irmã tombar exausta, depois do inimigo ter sido completamente aniquilado. Agnes, não passava de uma poça de sangue no assoalho daquela casa.
      

                                                        Continua...


segunda-feira, 27 de maio de 2024

[CONTO] Reunião familiar.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".  

Serra do Lago, 2007.

                                                Os olhos de Guilhermina brilham ao ver Marisa levitar uma rocha de uns trezentos quilos, com Helena sentada, há uns dois metros do chão. Usando apenas seus poderes.

— Isso é incrível! — a loura elogiava. — Falando de magia bruta, é a mais forte que eu já vi! — concluía para a irmã.

Não acredito que seus poderes se manifestaram tão tarde, olhando assim até parece a Marjoure, não. Acho que a sua essência é completamente diferente dela. — Guilhermina pensava olhando a filha.

— Ta pesada! — Marisa reclamava. — Sai de cima!

Helena saltou de cima da rocha e quando a irmã foi tentar colocar o pedregulho no chão, apenas o deixou de forma truculenta. A grama afundou um pouco, já Marisa, buscava ar para respirar.

                                      — Pode-se dizer que nossos poderes são tanto uma extensão física, como emocional. A melhor coisa que você tem a fazer é estudar, na verdade, isso serve para as duas. — avaliou a mãe.

— Espera um pouco. — Marisa pedia. — Hoje nós temos uma festa.

— Temos? — Helena indagou-se quase como se não se importasse.

— A equipe de ginástica vai comemorar a classificação para o estadual, até a Alexandra vai. Que tal a minha irmã me acompanhar?

 Guilhermina ouvindo a pergunta de Marisa sorriu e disse: — Podem ir e aproveitem a sexta, mas voltem antes da meia noite.

                          Francisco, o atual padre de Serra do Lago, incomoda-se ao ouvir o choro de um bebê no meio da noite. O homem de fé levanta-se e vai até o barulho, onde de relance, vê a nefasta criatura prestes a se alimentar.

— Agnes, é você? — o vampiro hesita depois de ouvir seu nome de batismo. — Eu estava esperando a sua volta. — comentou o padre.

— Como sabe quem eu sou? — perguntou Agnes.

— Você tem a sua cruz e eu a minha, mas essa criança é uma inocente, não precisa matá-la. — Francisco aconselhava.

 — Ela é uma descendente das famílias fundadoras, cada fibra do seu ser carrega o fardo da culpa. — Agnes rebatia deixando transparecer todo o seu ódio.

              — Ficar trancado em uma caixa, por duzentos anos só poderia te transformar nisso, mas que tal nós nos ajudarmos? — perguntou o padre, fazendo o vampiro hesitar.

— O que você poderia ter que eu queira? — Agnes rebateu com outra pergunta, quase como se confrontasse o homem de fé.

— Eu batizei todas as pessoas de Serra do Lago, então até as famílias fundadoras tem fichas aqui. Pode pegar a informação que quiser em troca de um pequeno favor. — o padre sorriu maliciosamente.

            — A filha adotiva de uma oligarca da região, me chamou muita atenção e eu gostaria de estudá-la, não me importa que esteja viva.

— E como eu vou saber quem é essa? — perguntou o vampiro, ainda com o bebê em suas mãos.

— Porque é a primeira família a quem lhe darei informações, mas saiba que ao destruí-las irá libertar uma calamidade sobre este lugar.

— Padre — chamou o vampiro. —, eu não me importo, me dê o nome da pessoa que quer que eu te traga.

O padre sorriu e disse: — Helena Costa, filha adotiva de Guilhermina e irmã de Marisa. Eu acho que nós vamos nos dar muito bem. 

sexta-feira, 24 de maio de 2024

[CONTA] O Sopro

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 


Serra do Lago, 2007.

                                      Marjourie observa o reflexo do rosto da irmã que possuiu, enquanto ainda está de frente para o espelho e pensa:

Irmãzinha, eu sinto que no âmago de sua essência, ainda não desistiu, mas você não era assim. O que aconteceu com aquela garota fraca?

— Filha! — dona Guilhermina entrou pela porta do banheiro. — Viu a sua irmã? Ela sumiu.

Marjourie hesitou ao ver sua mãe, uns anos, mais velha e no fim respondeu: — Dormindo, já ela acorda.

— Deixa ela descansar salvar aquelas pessoas do vampiro, deve ter sido cansativo demais. — afirmou a anciã, fazendo carinho no cabelo da filha, mas sem bagunçar sequer um fio de cabelo.

Vampiro? — Marjourie pensou sem entender nada. — Isso não importa tanto, ainda não controlo o corpo da Marisa completamente, preciso esmagar a consciência dela.

                             — Mãe eu vou meditar um pouco, não deixa ninguém me atrapalhar. — disse a pequena correndo para a biblioteca.

— Desde quando você medita? — dona Guilhermina se perguntou, mas não fez tanta questão de indagar a filha.

                            Marjourie praticamente se escondeu na biblioteca, ela era tão experiente em magia, que apenas com sua meditação conseguia acessar o Oníron, mais precisamente onde Helena estava.

— Que coisa lamentável — a bruxa balbuciava enquanto que naquela dimensão, voltava a ter seu corpo, olhava para a loura presa em uma maca por cordas grossas. —, você é apenas um animal adestrado.

Helena gritava na direção de Marjourie, no instante em que médicos alemães furavam algumas de suas veias.

— Se não consegue sair disso, não devia nem se considerar uma bruxa, se me der licença. Vou visitar minha irmã.

                                A chorosa Marisa, ao longe vê uma adolescente que se parece em parte com a mesma: — O que foi irmã? — perguntou para a filha mais nova de dona Guilhermina. — Por que não desiste?

— Você sabe o que a mamãe sempre quis, não sabe? Que eu nunca tivesse morrido nem você nem aquela aberração em forma de criança podem sanar essa demanda, mas eu consigo. Apenas durma.

— Mamãe? — Marisa se lembrava de Guilhermina. — Ela não sabe o que aconteceu aqui...

— Faz diferença? — Marjourie interrompeu a irmã, sem remorso algum, enquanto sorria.

— Nossa mãe, sempre vai preferir a mim, não importa o quanto me imite. Você nunca saberá magia e nunca, será eu.

           Marisa, Marisa? — a irmã menor lembrava-se da voz de Helena. — Você não precisa se diminuir para caber em lugares pequenos, sabia? — era uma conversa que elas tinham tido no carro da família.

— O que é isso Marisa? Você ousa ficar de pé diante da minha presença? — Marjourie perguntou-a, com certa irritação.

Você pode ser uma bruxa baseando-se em runas! — Marisa sorriu ao lembrar-se do conselho da irmã adotiva e disse para a mais velha: — Eu não sou a filha que ela quer, mas a que ela tem!

— Ora sua garota desaforada! — Marjourie se transformou em adulta para encarar a irmã. — Nem aquela coisa presa em um corpo de criança pôde comigo, o que te faz pensar que conseguirá? 

                             — Helena é uma irmã melhor do que você jamais tentou ser, a mamãe ficou muito feliz e sinceramente, eu também. Sabia que ela me ensinou um feitiço? Lembra que as palavras tem poder?

— Só para quem sente magia e não é o seu caso. — Marjourie acusou.

— Vou te ensinar uma palavra nova! — Marisa exclamou. — Geist!

Marjourie arregalou os olhos ao ver que sua irmã menor se afastava rapidamente, depois de soprar na direção dela: — Que magia é essa?

Já Marisa, definitivamente despertava na biblioteca de sua casa e gritou aos quatro ventos: — Eu venci! — ela brandia os braços para cima.

— Derrotei a minha irmã? — perguntou-se. — Essa empolgação e sensação de poder. Por acaso, é magia?! — Marisa indagou-se.  

quarta-feira, 22 de maio de 2024

[CONTO] Lembranças do Oníron

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 


Serra do Lago, 2007.

                                          Marisa e Helena observam um descampado, inundado por uma série de bolhas com um castelo medieval ao fundo e ambas as irmãs, sorriam uma para a outra.

— Deu certo! — exclamou Marisa animadamente.

— Claro que deu — afirmou Helena. —, assim como no meu primeiro dia aqui. Vamos treinar tudo bem?

— O que? Aqui? — Marisa perguntou quase que sem entender nada.

— Eu percebi que nessa dimensão tudo fica aflorado, então enquanto dormimos você talvez desperte poderes.

Marisa fechou os olhos, até que as irmãs ouviram outra voz: — O conceito é muito bom, você se parece muito com a Dani, mas ainda é ingênua. — completou se referindo a Helena.

              Uma morena de cabelos curtos sorria para ambas, até que Marisa se escondeu atrás de Helena e balbuciou: — Marjourie?

— Incrível não é? — a falecida filha de dona Guilhermina perguntava enquanto abria os braços. — Parte da minha consciência estava aqui, só esperando pela minha irmã mais nova.

— O que você quer com a Marisa? — Helena perguntou invocando sua espada de luz, instintivamente.

                   — Eu quero o corpo dela, saia da frente. — Marjourie ordenou criando quatro espectros estranhamentes ondulantes e escuros. Todas aquelas sombras atacaram Helena, desodernadamente.

A loura cortou todos os espectros com simples golpes, mas cheios de maestria: — É como olhar para uma versão pequena da Dani.

Marjourie balbuciou no momento que seus espectros se curavam e voltavam a atacar Helena que por sua vez gritava e uma batalha de dez, intermináveis minutos, começava.

                                        — Irmã! — Marisa gritou para a ocupada Helena, que a viu ser agarrada pelo pescoço por Marjourie, enquanto a loura era socada por uma sombra.

— Irmã? — perguntou-se a falecida. — quem ela é? — a bruxa, com o seu poder transportaram-as para as lembranças de Helena.

O Oníron se tornava em algum momento histórico da Alemanha nazista, com guardas da juventude hitlerista segurando Helena.

— Que tipo de aberração você é? — ainda segurando Marisa, Marjourie se perguntava. — Bem, não importa. Adeus, Chaya.

A bruxa olhou dentro dos olhos da sua irmã menor e vislumbrou o teto de seu quarto, para depois erguer a palma das mãos do corpo de Marisa.

— Consegui — balbuciou sentando-se na cama e ao olhar para o lado, viu Helena, dormindo, ainda presa no Oníron. —, poderia te matar agora mesmo, só que chamaria muita atenção.

                      A bruxa reencarnada saltou da cama para o chão, enquanto refletia: — Não tenho tanto tempo e essa daí vai demorar a acordar. A Marisa ainda é uma adolescente, mas deve ser o suficiente, para eu terminar o que comecei.

— Dessa vez — balbuciava se olhando no espelho. —, não levantarei suspeitas, talvez eu só mate aquele maldito atirador de flechas.

Enquanto isso, de frente para outro espelho, Rodrigo tirou seu uniforme policial para vestir a antiga roupa do vigilante conhecido como: O Observador.

— Coube direitinho! — exclamava tateando seu tórax e depois fazendo poses de halterofilistas, casualmente.

                              — Falavam que esse cara era um herói, aposto que teve um bom motivo para se esconder atrás de uma máscara.

— Tem Tanta coisa aqui. — afirmou o policial com certa tristeza ao saber que iria apreender todo o material do vigilante de Serra do Lago.

— E se eu for o Observador por uma noite, afinal tem aquele vampiro solto por ai, posso achá-lo com as câmeras!

Rodrigo exclamou animadamente.

                                                                        Continua...

segunda-feira, 20 de maio de 2024

[CONTO] Heróis em Serra do Lago.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".

Serra do Lago, 2007.



                                    — Crianças apagam incêndio em ginásio na escola dos Pioneiros. — Rodrigo lia um exemplar de jornal, enquanto outro policial fumava um charuto.

— Essas não são as crianças que ajudaram a...

— Sim. — Rodrigo interrompeu o amigo, sem tirar os olhos da foto do jornal. — Incêndio coisa nenhuma, aposto que foi mais uma esquisitice dessas famílias fundadoras. 

O policial amassou o jornal e o arremessou na lixeira, como se fosse uma bola de basquete: — Souza! — outro o chamava. — A delegada Jordan quer que você vá a um endereço, recebemos uma denúncia. 

                                       Rodrigo guiou a viatura até uma antiga vila de Serra do Lago e ao vislumbrar o endereço, balbuciou: — Ponto de venda de droga coisa nenhuma, só tem velho aqui.

O policial precisou saltar um grande muro de concreto e ao cair percebeu a grama até sua canela, mas estranhamente a porta central da casa estava aberta, por isso ele sacou sua pistola. 

Rodrigo ao andar descobria que a casa estava vazia, mas conforme investigava percebia vários computadores espalhados pela casa e aos ligar arregalou os olhos: — Um sistema de câmeras? 

                                — Esse lugar, só pode ser à base daquele tal de Observador! — deduziu sacando o rádio comunicador da policia, mas hesitando ao dar outra olhada nas telas dos computadores. 

Praças, escolas, igreja, campos de futebol, inúmeras pessoas e até a delegacia aparecia diante de seus olhos, então, Rodrigo sorriu antes de guardar o aparelho: — O que mais tem nessa casa? 

                               Neste período de tempo, os três bandidos da escola, se reuniam na antiga biblioteca da igreja de Serra do Lago, à mesa estava sentado o reverendo que mexia em seu crucifixo. 

— Então essas crianças impediram vocês, mesmo com os poderes em que eu os abençoei? — o homem de fé perguntava.

— Senhor todas elas sabiam magia e nosso tempo de uso estava acabando. — André contou sobre a luta. 

— Magia? — o reverendo perguntou-se curioso. — De qual tipo? 

— Geist! Elas falavam essa palavra e algo acontecia. — Jonathan respondeu em tom de praguejo, dando um soco na mesa. 

— Nunca ouvi falar disso. — disse o homem de fé. — Eu irei pesquisar, mas enquanto isso. A igreja precisa ser limpa.

— Mas reverendo? — Carlos parecia reclamar. 

— Não podemos chamar atenção e esse trabalho voluntário de vocês irá nos ajudar a manter as aparências, além disso. Crianças fazendo magia, de certa forma me incomodam. — admitiu o ancião. 

                                        — Daí a Alexandra gritou Geist e chutou a cara de um deles, como se fosse um saco de batata! — Marisa contava e recontava a aventura que teve na escola, para sua irmã Helena. 

— Que péssimo dia para eu ficar em casa. — balbuciou a loura, sendo abraçada pela irmã de óculos, fortemente. 

— Podemos ser uma grande dupla — afirmou Marisa. —, você a bruxa e eu a assistente de cadeira. 

— O que? — Helena perguntou quase rindo. 

— Eu posso ficar te passando...

— Que tal desbloquearmos seus poderes? — Helena interrompeu a irmã, com um sorriso. 

                                 — Já te expliquei que não tem como, não nasci com esse dom. — Marisa reafirmava, cruzando os braços. 

— Quem disse isso? — Helena perguntou para ela. — Você parece conformada com uma condição, mas eu acho que tem um lugar onde encontraremos respostas. 

— E onde seria? Sua sabe tudo. — Marisa estava incomodada, porém arregalaria os olhos ao ouvir a loura. 

— No Oníron.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

[CONTO] Vendeta, doce Vendeta

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".



Serra do Lago, 2007.

                            Helena desperta com o amistoso sorriso de Guilhermina, bem à sua frente: — Bom dia. — saudou a anciã, enquanto a menina conferia as horas.

— A aula, eu vou...

— Não se preocupe, afinal, não é como se realmente precisasse ir. Acho que precisa descansar hoje, está usando várias magias poderosas sem ter um corpo preparado.

— Mas mãe — contrariou-a, a pequena. —, e o vampiro?

— Aquele policial disse que vai cuidar de tudo, por que não dorme mais? A sua irmã já vai chegar da aula. — aconselhou Guilhermina.

                            Enquanto isso, do lado de fora do Colégio dos Pioneiros, um furgão estaciona rente a um dos muros que justamente tinha um ponto cego entre as câmeras.

— Jonathan, vamos mesmo roubar uma escola? —um dos homens perguntou para seu líder.

— Fica de boa, Carlos. — Jonathan o aconselhava. — Você, o André e eu. Teremos um estoque inteiro dessas coisas, só precisamos esperar.

Neste momento, Marisa, Rian, Sete, Mariana e Alexandra estão super concentrados em uma prova de história sobre suas respectivas cadeiras.

                               De uma hora para a outra, o alarme de incêndio começa a tocar e a professora grita: — Vamos evacuar! — disse abrindo a porta rapidamente.

Marisa ao passear os olhos sobre o movimentado corredor agarrou seus amigos pela mochila, inclusive Giulia e os pediu: — Esperem aí.

— A escola ta pegando fogo! — exclamou Sete, querendo se desvencilhar da garota.

— E cadê o fogo? — balbuciou Marisa. — Vamos até o diretor!

Com a ausência de sua irmã, instintivamente, Marisa os guiava em um ato de liderança, mas todos pararam ao ver o escritório do diretor arrombado por três homens misteriosos.

                                    A secretária estava morta, com o tórax afundado na parede e, sem perceber as crianças escondidas em sua volta, Jonathan disse: — O segredo das oito famílias e suas magias, tudo nessa pasta. Nossa missão foi um sucesso, vamos volta...

O homem se interrompeu, porque Marisa pegou o documento que ele segurava e saiu pela porta junto de seus amigos.

— André! — gritou o bandido, para o comparsa e o outro soprou fogo, mas nenhuma criança foi atingida.

— Por aqui! — guiou-os, Alexandra. — Vamos para o ginásio!

OS adolescentes desceram quatro jogos de escapas, até alcançarem as arquibancadas, esbaforidos, sem exceção.

                                      — Eles querem o segredo das famílias, a minha, também está inclusa... — Marisa balbuciou com as mãos, nos joelhos arcados.

Três esferas de luz do tamanho de bolas de basquete saltaram sobre eles, e ao quicarem nas arquibancadas se transformaram nos três bandidos que estavam no escritório.

— Crianças — balbuciava Jonathan, arrogantemente. — Eu, André e o Carlos somos seres poderosos nos entreguem essa pasta e deixamos vocês irem sem nenhum arranhão, é uma promessa.

— Geist! — Giulia gritou estendendo as mãos na direção dos criminosos e Carlos percebeu seus comparsas serem arremessados arquibancada a baixo.

                      — Pessoal! O que houve? — perguntou tão preocupado que quando percebeu Alexandra fazendo saltos ornamentais na sua direção, ativou seu poder de forma ineficiente.

— Geist! — gritou à loira, acertando um chute giratório no rosto de Carlos, era como uma coluna de concreto o acertasse e por isso, ele tombou pelas arquibancadas.

Alexandra percebeu sua perna dolorida e parte da arquibancada destruída, por onde Carlos havia escorregado.

— Não podemos continuar com isso, vamos embora! — Jonathan tocou nos ombros de seus dois comparsas e eles, voltaram a virar esferas luminosas, que saltariam para fora da escola, antes de serem percebidos. Já os adolescentes comemoravam a vitória e recuperação da pasta com os documentos.

— Espera só eu contar para a minha irmã! — gritou uma Marisa eufórica. — Somos invencíveis!

                                                                                          Continua...

quarta-feira, 15 de maio de 2024

[CONTO] O policial e a bruxa

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".



 Serra do Lago, 2007.

       Uma viatura estaciona diante dos olhos curiosos de Helena, enquanto o homem da lei abria a porta para pisar na lama: — Alguém da minha estatura, procurando um ladrão de galinhas.

— Senhor, senhor, na noite passada até nosso gado foi atacado.

— Calma — pedia Rodrigo. —, me levem até os animais.

Os moradores obedeceram ao policial e depois de andarem por uns bons dois minutos, chegaram até uma vaca que fora mordida no pescoço e estava em estado raquítico.

— Eu já ouvi histórias como essa. Aposto que é o Chupa Cabra.

Os ouvidos de Rodrigo escutavam o comentário de uma mulher, até que antes que ele pudesse colocar as mãos no bovino, uma criança ao longe gritou horrorizada.

                           Helena chegou à frente, ao lado da filha do fazendeiro que estava com as duas mãos na boca enquanto olhava para as costas de uma criatura vestida com trapos.

— Deita no chão, agora! — Rodrigo ordenou apontando a pistola para as costas do homem.

                     O calvo não obedeceu, mas se voltou para Rodrigo, gruindo feito um animal e deixando-o perceber seus caninos avantajados e a boca, imunda com o sangue da cabra.

Antes que o policial pudesse pensar em fazer algo relevante, viu seu alvo se transformar em duas dezenas de morcegos que saíram voando na sua direção: — Se abaixa! — gritou se jogando por cima de Helena e da filha do fazendeiro, para escapar do ataque.

O trio conseguiu desviar, mas viram o vampiro se materializar bem perto deles, com os pés descalços sobre a lama, enquanto gruía ameaçadoramente e saltava sobre eles.

Helena em um ato de coragem ergueu-se invocando sua espada de luz e obrigando a criatura a se desfazer em vários morcegos para escapar do golpe, por um triz: — Merda. — balbuciou a lourinha.

                                         Os morcegos voaram em direção a lua cheia e a espada da bruxa se desfez completamente, antes que ela desmaiasse por uma completa falta de energia.

Já Rodrigo quando percebeu que a magia da filha de Guilhermina se desfez, soltou a cabeça da filha do fazendeiro: — Filha! — gritou a mulher, vindo correndo.

— Senhor o que aconteceu? — perguntou o homem do campo, para Rodrigo, enquanto o ajudava a se levantar.

— Aqui não é seguro. — respondeu o policial. — Todos para a viatura.

            Enquanto isso, ao longe, os vários morcegos se materializavam em cima de uma árvore que tem uma visão periférica da cidade: — Serra do Lago? — perguntou-se com as luzes refletidas em seus olhos.

— Aquilo são tochas? — o vampiro parecia um tanto confuso.

— Não importa — balbuciou. —, preciso me alimentar se eu quiser alguma chance contra os fundadores.

                                                                                      Continua...

segunda-feira, 13 de maio de 2024

[CONTO] A irmã errada


Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".

Serra do Lago, 2007.

                              — Não estou entendendo — falava um homem olhando para uma adolescente loura, que estava amarrada dos pés, até os ombros. —, se a Guilhermina só tem uma filha viva, quem é você?

— A filha dela. — Helena respondia, com certo tom de sarcasmo, enquanto seus olhos azuis passeavam pelo interior da ambulância que os bandidos roubaram despercebidamente.

— Essa cachorra está tirando comigo! — ele reclamava, para os seus dois comparsas que estavam na frente, enquanto o veículo rumava para fora de Serra do Lago.

Preciso descobrir o que eles querem com a Marisa. — Helena pensava observando tudo a sua volta.

                          — Se ela está falando que é filha, vamos só pedir o resgate e ficar ricos, se não desovamos ela em algum lugar.  

— Ouviu? — perguntou o sequestrador que estava na parte de trás, com a herdeira de Guilhermina. — Você vai nos deixar rica!

— Geist. — em um alemão perfeito, a loura balbuciou ativando uma magia que simplesmente afrouxou suas amarras de tal forma que ela fosse liberta e se levantasse.

                               O bandido estava incrédulo, mas arregalou os olhos ao vê-la abrir um cantil de água e simplesmente, criar uma espada de luz incandescente, que até mesmo emitia calor.

Helena aproveitou a hesitação do homem e o decapitou com um único golpe, foi então que o motorista e o carona viram-na pelo retrovisor central: — Que porra é essa?! — gritou girando o volante.

A ambulância derrapou, porém a garotinha conseguiu com certa dificuldade dar estocadas com a sua arma de luz nas nucas dos seqüestradores, enquanto transpassava os acentos do carona e motorista.

— Merda! — Helena exclamou agarrando-se a uma maca, que saiu porta a fora, enquanto o veículo despencava por um desfiladeiro.

                                     A menina rolou pela grama, o gosto de terra molhada se misturava com o salgado de seu próprio sangue em sua boca, depois de morder a língua e enfim. Helena desmaiou.

Estas eram as últimas lembranças, antes de despertar em uma cama humilde, dentro de um quarto de paredes imundas e com um cão lambendo seu rosto.

Amistosamente, ela afastou o cachorro de si, ergueu-se e mesmo descalça passou por uma cortina que estava no lugar da porta.

— Mamãe, ela acordou! — uma menina, menor que a própria Helena, puxava a longa saia de uma mulher gorda.

                            — Querida, está com fome? — Helena assentiu com a cabeça depois de ouvir e ela apenas devorava o que aquela pobre mulher lhe oferecia, com a maior felicidade do mundo.

— Meu marido te achou desmaiada na floresta — contava a dona da casa. —, falando nele. — um homem de um vasto bigode, adentrou o recinto, com uma espingarda em mãos.

— Aquele Chupa cabra matou outra vaca, se continuar assim, vamos perder tudo. — reclamou ele, sequer notando Helena.

— Senhor. — Helena o chamou. — Obrigada por me ajudar, eu conheço uma pessoa que pode fazer algo por você e ela, vai me levar para casa, também.

                   — Me ajudar? Quem seria? — a menina estranhou o sarcasmo, afinal aquele era definitivamente um homem rústico.

— Um policial, só preciso de...

As gargalhadas do homem interromperam a sugestão de Helena, até que ele disse: — Agradeço sua boa vontade, mas os guardinhas de Serra do Lago nunca fazem ronda por aqui e já vai anoitecer.

— Confia em mim — pediu a menina. —, este virá.

                                                                                 Continua...

Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...