segunda-feira, 13 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - O Sacrifício do novo Arconte: História dentro da História

Serra do Lago, ES - 3:00 da manhã


Monty e Mari finalmente atravessaram o bosque do Colégio, desceram a ribanceira arborizada até cruzar o canal dos eucaliptos, um córrego cuja água bate nas coxas, subiram novamente a ribanceira até o guardrail, e saltando por ele, chegaram ao posto de gasolina. Mari congelou ao ver o cadáver de um cinzento morto, ele parecia ter tido a cabeça explodida por algo. Havia um cadáver humano ainda, o do frentista, e marcas de sangue respingado por todos os lados.

Monty respirou fundo, suas esteriotipias atacando conforme ele recitava os valores das constantes fundamentais do universo. Mari gemia de medo, mas ainda assim seguiram, cruzaram a rodovia, uma fina parede de eucaliptos à margem da rodovia, e logo chegaram a um pasto úmido, longo pasto pelo qual caminharam marchando até a antiga linha férrea. Ali novamente viram uma cena aterradora, o que deixou Monty - que carregava a Hamington na mochila -  ainda mais nervoso, agora ele apertava a alça da mochila nervosamente, as mãos suadas, diante do cadáver de um policial que tivera a traquéia arrancada a dentadas.

— Monty... Esse acampamento... A viatura parada mais adiante... Estamos indo pra lugar perigoso... Veja a fumaça! — A voz de Mari tremia.

Monty sabia que era perigoso... Mas era o caminho pro único lugar seguro próximo fora a casa dele que ficava muito mais longe. Ele nada respondeu, apenas recurvou a cabeça pra baixo, sussurrando equações e seguiu.

— Monty! Tem que ter outro caminho! — Mari protestou.

— Não tem. - O novo arconte respondeu de bate-pronto. Terminal.

— Tudo bem, eu vou confiar em você... - Mari falando esfregando os braços... Em dado momento, porém, Mari simplesmente começou a correr. Ela se deu conta do que havia acontecido.

— Meu Deus! Papai! Mamãe! Meu Irmãozinho!

Ela passou a frente de Monty que continuou marchando a velocidade regular, constante como C na equação da relatividade geral. Mari ao deparar-se com sua casa em ruínas consumida pelas chamas, que ainda deixavam marcas laranjas e rubras de calor na noite, ela caiu de joelhos em lágrimas!

— NÃO! PAPAI! - O choro dela era doloroso.

Monty não sabia o que fazer. Ele ficou de pé. Olhar perdido. O máximo que fez, dentro de suas limitações, foi se aproximar e colocar a mão no ombro dela. Eles ficaram ali longos minutos, quase meia hora, enquanto Mari chorava copiosamente. A mão de Monty ainda no ombro dela, era uma forma tímida, atrapalhada quase não-empática, do savante mostrar sua empatia, mesmo com a barreira de seu autismo.

Um som interrompeu os soluços...

— OUÇO VOZESSS HUMANASSS

Vinha do sul.

— Mari... - Monty falou - Não temos tempo.

— Eu quero morrer... - Ela soluçava ainda.

— Eles fugiram... - Monty falou com voz pausada — O arconte garantiu a fuga.

Mari sem entender, se agarrou àquele fio de esperança com vacilo.

— Não está falando isso pra me agradar, né?

Monty continuou olhando para o horizonte sul. Os galhos já se remexiam.

— SINTO O CHEIRO, SÃO DOIIIS... VAMOS ENCURRALÁ-LOS!

Mari ouviu, ficou preocupada... Olhou pra Monty com seu olhar frio, sempre distante, sempre impessoal. 

— Não faz seu estilo, né? - Ela se ergueu preocupada - Vamos! - E logo pôs-se a andar secando as lágrimas.

Monty e ela apertaram o passo, de forma tal que passaram pela casa em ruínas com Mari fechando os olhos com medo de ver algum cadáver quando passava por onde ficavam os cômodos onde seus entes queridos mais costumavam ficar. A voz dos ghouls ainda se ouvia.

— PERDEMOS O RASTROOO... AS CINZAS E O CHEIRO DE QUEIMADOOO OCUPAM O AR TOO!

Eles seguiram mais alguns minutos até que chegaram a propriedades dos Penzias-Costa... Ramona derramava sal ao redor do lugar com um saco enorme que Imogen ajudava a segurar. Uma vela era acendida no meio, perto da porta, quando ambos se apresentaram à vista deles como sombras a contra-luz na chuva.

— Serão ghouls? - Indagou Lorraine apontando a arma.

— ABAIXA ESSA CARALHA! - Nanna deu um tapa para baixo no cano da arma, fazendo o dedo deslizar e disparar no chão. O som deixou Monty assustado e irritado, ele deu meia-volta e começou a andar em semi-círculos.

— NÃO ATIRA! - Gritou Mari! — Sou eu, Mari... E aqui está o Monty!

Nanna olhou pra Lorraine com desaprovação e saiu correndo ao encontro deles.

Mari tentava nesse entretempo convencer Monty a entrar.

— Vamos Monty! Só estão com medo, como a gente!

Quatro elevado a vinte cinco, sobre trinta e três elevado a menos quarenta e dois, mais ou menos, raiz de beta. - A voz e Monty soava trêmula.

— Monty! Vamos, aqui é perigoso! - Falou Mari mais uma vez, sem retorno de Monty. Nesse momento, Nanna chegou.

— Deixa comigo! Entra na casa. Agora!

Mari aceitou a ordem como se viesse de uma autoridade.

Nanna abraçou Monty e sussurrou em seu ouvido.

— Sou eu Monty... Nanna, lembra? A gente adorava conversar sobre feitiços e os reinos do ser...

Dezessete sobre zero vírgula trinta e dois dividido por gama sobre dez a... - Monty vacilou a voz - dez a...

Nanna percebeu e insistiu.

— Você me apresentou o hipermandelbulbo, lembra? - Ela ergueu a mão virada de costas — A tatuagem que me deu.

— Nanna... - Monty a abraçou. — Não posso entrar... Eu tenho que... Lutar por eles.

Nanna não entendeu.

— Lutar? Por quem Monty?

— Pelos agentes... Tudo depende deles. - Ele falou, e percebeu que Nanna não entendia, mas não havia tempo pra explicar.

— Deixarei uma porta-voz ele disse.

— Monty... É perigoso... Que tipo de ameaça acha que poderá conter? Se assustando assim e entrando em crise com o disparo de uma arma?

— Marjourie. - Ela falou, e com ele, o assombro tomou conta da voz e do rosto de Nanna.

— Marj... Está viva?

Monty respondeu com um aceno na cabeça... A surpresa foi tamanha que Nanna se afastou pelo susto. Monty começou a se afastar.

— Monty... Onde vai? - A voz era de Mari mais distante perto de Ramona e de seus pais que estavam ao lado dela e saíram ao encontro dela.

— Proteja-os. - Monty falou e saiu correndo rumo a leste. Nanna sem entender sentiu que havia algo estranho em Monty... era como garoto que lhe deu a tatuagem àquele dia... De alguma forma, ela confiou.

Monty caminhou em direção à região da antiga propriedade dos De Rollo, longínqua, quase no forte, correu e depois caminhou por quase 40 minutos, até encontrar um chalé abandonada, parte de um antigo hotel fazenda que abriu nos anos 50 e encerrou as atividades nos anos 80. Pôs a Hamington sobre o balcão e pôs-se a digitar furiosamente. A luz azul iluminava o rosto dele conforme as teclas eram apertadas.

"Marjourie, como uma succubus, havia alcançado a primeira etapa de sua conversão em lich, precisava agora criar os depositários de logos. Monty sabia o que ela faria... Um dos logos que a mim vieram pertence a minha discípula maior! - A succubus exclamou como um trovão... Volte, o três de espadas, a carta dada a menor de vós!". As teclas clicavam e cintilavam liberando fagulhas de energia mágica no ar. Cada fagulha tocava o balcão e reverberava em todas as direções como ondulações metafísicas alterando o tecido da realidade.

"Monty, por fim escolheu, se o Arconte da Máquina de Escreveu sacrificou-se para que ele salvasse tudo, era porque o sacrifício era parte do cargo, era parte do trono de solidão. O conto que se desvela é um conto de terror" - Monty parou. Processou. Voltou a escrever.

"O terror tem dois mecanismos clássicos, o sacrifício do herói e a retribuição, que serve de gancho a continuação da história. Não podendo sacrificar mais os agentes, Monty compreendeu que era preciso lutar por eles, então escolheu ser o herói, sacrificando a si mesmo, e a retribuição é a mergulhadora, Catarina, trazendo-a como expressão do logos que lhe havia sido confiado pelo Arconte, para que fizesse o que bem lhe aprouvesse, e assim o vínculo de Monty e Catarina foi selado e mantido. Trazida do fundo do lago, uma fagulha de sua própria história... E com o poder da Hamington, Monty evocou então, o seu sacrifício trancafiando-se com a succubus no mundo devastado pelas LERs, antes que seu logos se aprisionasse em depositários, e mediante um raio foram juntos ao plano onde as LERs drenaram a ruach, os recursos e a própria humanidade".

Um raio devastou a cabana, um raio lambeu o céu arrastando consigo um demônio alado.

A succubus se viu num mundo drenado de ruach.

— Quem é você, pequeno mortal!? Como ousa?

Monty nervosamente recuou, olhando pra baixo, o corpo era o de Marcela, dois furos no pescoço, a pele cinza, olhos amarelos, chifres, azas, o olhar era o de Marjourie.

— Eu não sinto a realidade! —  Marjourie sibilou e esmurrou uma parede percebendo que estava preso num mundo totalmente drenado de ruach.

Monty tomou coragem, assentou-se com seu logos no trono da solidão pela primeira vez.

— Você não sairá daqui. Somente alguém de fora, usando a Hamington, poderá tirar.

— Hamington? —  Marjourie olhou preocupada. — A lendária máquina de Andrew B. Hamington que reproduziu os poderes da Pena de Amenófis?

A succubus se aproximou e menosprezou.

— Não é possível que um feiticeiro do seu tamanho seja capaz de fazê-la.

—  Não sou feiticeiro. Nunca usei magia —  Monty agora falava com autoridade, mesmo que seu autismo ainda fosse perceptível nas mãos se apertando contra a calça 

— Quem você pens que é, então, seu "de fora?" —  A voz dela era como um trovão. — Sabe que eu posso matá-lo, mesmo sem meus poderes arcanos... Tenho um força sobrehumana agora!

—  Eu sou o Arconte da Máquina de Escrever. —  Ao ouvir essas palavras Marjourie estremeceu e se deu conta de sua insignificância, — Mesmo sem a Hamington eu e ela somos um, e se eu morrer... — A voz do autista era cada vez menos autista.

—Ninguém nos tirará daqui... — A succubus completou e recuou um passo.

Monty se aproximou, Marjourie recuou outro passo.

— Por que? — Marjourie indagou.

— Pela Marcela... Ela não merece isso. — Não havia sombra mais do garoto autista em Monty. Agora ele estava, de fato, assentado no trono da solidão.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - O Arconte

Serra do Lago (ES), 23 de Julho de 2009, 23:45 - Bosque do Colégio.


Mari caminhava atrás de Monty. Achava-o engraçado em seu jeito de ser, mas, ao mesmo tempo, um pouco assustador — nada, porém, comparável ao que havia presenciado naquela noite.

Ela estudava em um colégio de feiticeiros. Segundo os amuletos descarregados de Planaltina, manufaturados artesanalmente por Dona Magnólia Ribeiro, possuía o arquétipo junguiano do mago. Ainda assim, considerava a magia profundamente desinteressante — quase como retirar o sabor da vida. Para ela, era como jogar GTA San Andreas com cheat code: não tinha graça.

Claro, não rejeitava a magia por completo. Sabia que podia fazer muito bem às pessoas, se bem utilizada. Mas via tanto esnobismo e elitismo em torno daquele saber que acabou desenvolvendo certo ranço.

Ainda assim… fora salva por magia. Ou algo muito próximo disso.

Quando os funcionários foram subitamente tomados por um ódio irracional e faminto — tão grotesco quanto suas peles acinzentadas — foi Monty, que ela acreditava ter ido embora, quem retornou para salvá-la. A imagem dele escrevendo em uma folha de papel, aprisionando o monstro na sacada das galerias, revelou a ela um tipo de magia completamente diferente.

— Ei, Monty… pra onde estamos indo?

Monty marchava à frente, olhar fixo, sem responder.

— Monty! A gente acabou de escapar por pouco… Eu preciso te agradecer, mas — puta merda — me fala pra onde estamos indo!

Ele parou abruptamente. Mari trombou contra suas costas, e seus óculos caíram no chão.

— Droga!

Ela se agachou no escuro, tateando o solo até encontrá-los.

Monty permanecia imóvel. Silencioso.

— Monty? Eu deixei minha pistola com a Natália… Se você não disser nada, podemos estar indo direto pra outro perigo.

Nenhuma resposta.

Quando colocou os óculos, Mari percebeu: os olhos dele emitiam uma suave luz azul.

— Monty…?


Na mente de Monty, a realidade era outra.

Ele estava diante de um equipamento de medição de frequências de rádio e um telescópio caseiro — instrumentos que havia construído na juventude.

— Monty.

A voz era sua… mas mais grave.

Ele se virou. À sua frente, estava ele mesmo — mais velho.

— Arconte — disse Monty.

— Sim.

O homem, vestindo um hobby de linho vinho, estava sentado diante de uma máquina de escrever em um espaço branco infinito.

— Alguém — ou algo — bloqueou minhas memórias… e as suas. Com isso, parte dos nossos poderes também foi selada. Estou operando no limite. Não consigo proteger esta realidade com a mente fragmentada. Sei que você entende minha linguagem.

Monty desviou o olhar.

— Entendo.

— Não podemos ter nossas memórias completas ao mesmo tempo. Mas posso sacrificar meu logos em três fragmentos. Eles ficarão com você.

— Eu não estou pronto.

Monty demonstrava nervosismo: piscava rápido, apertava o tecido da calça, andava em semicírculos — uma estereotipia para se acalmar.

— Monty… você não pode se dar ao luxo de entrar em colapso agora. Somos a mesma pessoa, em momentos diferentes da vida. Eu tentei habitar sua mente… para ter uma chance de ser feliz. Mas percebo agora que isso não é possível. Sacrificar vidas por essa tentativa vazia não faz sentido.

O Arconte se inclinou levemente.

— Mas você pode salvá-los. E, se proteger bem os fragmentos do logos, talvez tenha a chance de alcançar a felicidade que eu nunca tive.

— Tipo… ter amigos?

— Você já tem. Denver, Mari, Ramona, Nanna… pessoas que se importam com você.

— Tipo… a menina mergulhadora ou a Elizabeth?

O Arconte sorriu, quase imperceptivelmente.

— Seu coração está acelerado, Monty. Eu consigo ver.

— Bobagem!

O nervosismo aumentou. Ele se sentou e começou a sussurrar valores da constante de Planck.

O Arconte se agachou diante dele.

— Calma. Eu sou você.

— Mas você não é neuroatípico! Você era normal…

— Isso nunca te impediu de ser extraordinário. Não fui eu quem salvou a Mari… foi você. Quando a viu em perigo, o que eu disse?

— Mandou eu fugir.

— E você fez algo muito mais corajoso. Com uma fração mínima do meu poder, escreveu a salvação dela.

Monty travou por um instante — e, pela primeira vez, sustentou o olhar.

— Qual é o plano?

— Minha percepção está turva. Minha mente está dividida entre duas realidades. Somos dois logos incompatíveis no mesmo corpo… mas e se eu usar o que resta do meu poder para tornar você inteiro?

Silêncio.

— Você vai se sacrificar… para que eu possa salvar todos.

Não era uma pergunta.

— Sim. Três fragmentos. Um para restaurar suas memórias. Um para te dar a ferramenta necessária — sem que você precise carregar o poder em si. E, ao final, entregue a Hamington ao XBI… depois que todos estiverem seguros. Isso garantirá a você a chance de uma vida normal... Por sua vez, o terceiro fragmento…

— Pra quê?

— Para o que você quiser.

Monty assentiu.

— Justo.

— Agora volte. Leve Mari em segurança até a casa dos Penzias-Costa. Você sabe o caminho.


Monty piscou — e estava de volta.

Mari estava muito próxima, observando-o com uma mistura de medo, curiosidade e fascínio.

— Já sei pra onde ir!

Ela se assustou e caiu sentada.

— CARALHO, MONTY! Assim você me mata do coração! Achei que você tinha apagado de novo!

Monty a ignorou e voltou a caminhar rigidamente.

— Me siga. Vamos para a casa da Ramona.

Mari se levantou, confusa, mas o acompanhou.

— Lá é seguro?

— É.


No plano espectral, o Arconte enfrentava aquilo que acreditava ser uma ameaça.

Ferido, quase dissipando, encarava a presença diante de si.

— Você…

Sua voz era fraca.

A persona o observava, curiosa.


De volta à floresta, um brilho dourado surgiu entre as árvores.

Mari também viu.

— Aquilo é… um monstro?

— Não. É o último presente do Servo da Luz Primordial.

Monty acelerou o passo.

À sua frente, materializou-se uma máquina de escrever: teclas pretas, letras brancas, envolta em luz dourada. A tinta brilhava em azul.

— Luz Primordial? Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de taumatologia…

Monty se agachou, pegou o objeto e continuou andando.

— Vamos.

Mari o seguiu — ainda sem entender quase nada do que estava acontecendo.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - A cidade, a história dentro da história


Serra do Lago (ES), 24 de Julho de 2009 - 00:05

Imogen agora caminhava à frente, enquanto Lorraine e Renato seguiam logo atrás. Nenhum dos dois saberia explicar exatamente por quê — apenas aconteceu.

Ela os havia curado. À custa de si mesma.

Lorraine aceitava aquilo com uma palavra só: magia.

Renato não.

Para ele, a coisa não encaixava.

Antes, Imogen era apenas linda — inalcançável, sim, mas dentro de um mundo compreensível. Agora, não. Agora havia algo a mais. Algo que escapava completamente da lógica dele.

Não era medo exatamente.

Era outra coisa.

Ela não era apenas melhor que ele. Era de outra ordem.

E isso o fazia se sentir pequeno. Ridiculamente pequeno.

— Então quer dizer que você vem de uma família com feiticeiros de origem? — Lorraine parecia fascinada, quase infantil no entusiasmo.

— Não deveria se impressionar tanto... — respondeu Imogen, com calma. — Ramona provavelmente é mais habilidosa que eu. Eu só sei alguns feitiços de cura.

— Você tem que me ensinar, Imogen! Tem que me ensinar! — Lorraine falava quase sem sentir o próprio rosto, como se o arranhão já não existisse.

Renato permaneceu em silêncio.

Abriu a garrafa de absinto. Bebeu um gole. Fechou.

Imogen percebeu.

— Está tudo bem?

— Estou... — a voz dele saiu esvaziada. — Só estou tentando digerir.

— Releva. Ele só tá percebendo que é um inútil — Lorraine disparou.

— Ele não é inútil. — Imogen respondeu, com um leve sorriso. — Eu estaria morta se ele não tivesse segurado um ghoul.

Renato ergueu os olhos, surpreso.

— Ok... isso eu não acredito... — Lorraine estreitou os olhos. — Você não tá falando isso só pra deixar ele melhor, né?

— Não. — Imogen respondeu, simples. — Eu estava no chão. Ele tinha arrancado um pedaço da minha barriga. Eu teria morrido.

Ela virou de costas e continuou caminhando, liderando o grupo pela rodovia úmida.

Renato ficou em silêncio.

E esse silêncio incomodou Lorraine.

— E não tenta entender... — disse Imogen, sem olhar para trás. — Não é pra fazer sentido. As coisas só... são assim.

Depois de alguns passos, Renato perguntou:

— Como essas criaturas chegaram aqui?

— Existem dois tipos de ghouls... — respondeu ela. — Os criados por rituais ligados à tradição de Rytyuu, o filho de Lilith... e os criados por vampiros. Eu... não estudei o suficiente pra distinguir.

— Espera... vampiros? — Lorraine parou, incrédula.

— Lorraine... — Renato respondeu, com irritação contida. — A gente acabou de ver um ghoul. Você viu ela curar a gente. Isso ainda é difícil de acreditar?

Ela respirou fundo.

— Tá... você tem razão. — olhou para ele. — Desculpa. Eu tô sendo escrota contigo desde ontem.

— Tá de boa... — Renato respondeu, com um meio sorriso. — Você só tá com ciúmes.

Imogen sorriu de canto.

— Eu? Com ciúmes de você? — Lorraine riu, falso. — Parece que aquele ghoul arrancou seu cérebro numa dentada.

— É bem óbvio... — ele provocou.

— Ah, claro! — ela se irritou de verdade. — Quer ver como é fácil terminar o que ele começou?

— Gente... — Imogen interrompeu.

Ela apontava à frente.

O Bosque dos Alves.

A propriedade dos Vargas e Souza estava em chamas em meio a ele.

O fogo subia pelas estruturas como algo vivo, consumindo madeira, telhado, memória.

— Vamos ter que pegar a balsa... — disse Lorraine, mas a frase morreu ao ver o píer destruído, parcialmente submerso.

— Vai nadar com ela no lombo? — ironizou Renato.

Imogen observava.

— Ghouls são semirracionais... — disse ela. — Falam, andam, planejam. Mas comem carne crua. Não cozinham. Não fazem fogo.

Lorraine olhou para as chamas de novo.

— Então isso aqui...

— Não foi obra deles.

— E o que mais você sabe?

— Que obedecem a um mestre. Geralmente um demiurgista... ou um vampiro.

— Eu até perguntaria o que é demiurgia... — Renato disse, apertando a tora ainda suja de sangue roxo — ...mas temos companhia.

Quatro figuras surgiam.

Cinzentas.

Movendo-se de forma errada.

— Vamos fugir... —  Falou Imogen — Ghouls são resistentes... Não temos munição pra isso tudo e temos que chegar até a casa do Edward.... A propriedade foi bloqueada pela magia de um antepassado nosso... Estaremos seguros lá.

— O QUE TEMOS AQUIIII??? — uma das criaturas gritou.

— MAIS COMIDA! — outra respondeu.

— A MESTRA PRECISA DA NOSSA AJUDAAA...

— ENCURRALEM ELES!

Os três correram direto para o fogo.

— Por que estamos indo pro incêndio?! — gritou Renato.

— Porque eles são inflamáveis! — respondeu Imogen. — O metano da putrefação!

Lorraine olhou para trás.

Depois para frente.

E entendeu.

— Então... Por que eu acho que os ghouls estão contando com isso?

— Isso o que? — Perguntou Imogen correndo atrás de Renato.

— Com a gente correr pra propriedade em chamas? — Lorraine continuou.


Renato logo entendeu... A propriedade em chamas estava desabando e depositando entulhos flamejantes em todo o caminho de escape para a mata atrás...

— Que merda! O caminho tá bloqueado por entulho pegando fogo! — Ao redor apenas muros altíssimos.

— Estamos encurralados! - Imogen se deu conta.

Os ghouls se aproximaram andando, calmamente. Um deles lambia os lábios ainda sujos do sangue da última vítima.

— O que faremos? - Indagou Renato.

— ATIRAR NESSES FELASDAPUTA! - Gritou Lorraine apontando a espingarda e atirando em um deles. O cano subiu como se fosse pra lua devido ao recuo, mas a bala acertou o braço de um deles que se espalhou como carne moída... Mas a criatura mostrou pouco incômodo.

— CERQUEM O JANTAR! - Gritou o quarto com meio-braço apenas e os três demais correram para esquerda, direita e centro.

— PUTA MERDA! - Gritou Renato ele correu pra interceptar o que foi pra esquerda antes que ele chegasse a té Lorraine.

O ghoul saltou sobre o rapaz encravando suas unhas nos ombros dele e tentando uma mordida, mas os dentes dele encravaram-se no tronco de eucalipto. Renato fez força desprendendo ele de seus ombros, e após forçar a soltura dos dentes do tronco acertou-lhe uma paulada no rosto fazendo um dos caninos quebrar. Mas isso foi inútil, a criatura voltou a avançar contra ele.

Imogen sem saída se viu na necessidade de apelar a um arkanum naturalis.

GHOST! - Ela exclamou, e uma viga de madeira em chamas se desprendeu amarrada a um cabo de aço, e num efeito gongo, a viga se balançou pelo galho acertando dois juntos e os derrubando.

Virando-se disparou a pistola contra o que perseguia Renato, fazendo com que ele se desequilibrasse um pouco, conquistando espaço pra Renato correr.

— Veja! a viga criou um caminho com menos chamas! — Lorraine apontou e conferiu a munição. Só tinha mais um disparo. Renato olhou para eles e falou.

— Sigam, eu sustento aqui!

— Tá louco? — Gritou Imogen — Eles vão matar você.

— Eu sou mais rápido que vocês, meninas... Assim ganho um tempo.

— Até parece que um pançudo como você é rápido! — Lorraine protestou mas a preocupação nos olhos a traía.

— Vão logo! — Ele insistiu.

Imogen puxou Lorraine e passaram em meio ao vão de chamas, as madeiras antes em brasas se apagavam de forma contraintuitiva, simplesmente errada, como se a entropia funcionasse ao contrário.

— Que esquisito... — Observou Lorraine, não tem poquê não estar pegando fogo aqui...

— De fato... — Comentou Imogen ao ver a madeira chamuscada apagando-se numa trilha por fazer na frente de seu caminho a medida em que caminhavam. — É quase como se alguém quisesse que passássemos por esse caminho.

Na entrada das ruínas da casa dos Vargas e Souza, Renato jogou absinto na sua clava improvisada e acendeu no fogo.

— Agora é só eu e vocês! — Ele gritou com raiva.

O primeiro ghoul avançou e tomou uma porretada bem dada na cabeça, que logo se inflamou em chamas.

— O RAPAZ É ESPEEERRTOOO - Um deles sibilou como ima serpente.

Os outros dois atacaram em conjunto, a clava flamejante improvisada acertou um deles que também se incandesceu, mas o outro conseguiu derrubá-lo e mordê-lo no peito, arrancando parte de seu peito. O grito de desespero e dor. O outro avançou para morder seu pescoço, não havia o que fazer, dessa vez era o fim. E quando o dente já tocava a a jugular de Renato uma seta negra gigantesca atravessou a cabeça do ghoul que desferiria o dano letal.

Uma garota de roupa de couro negra surgia vindo da estrada atrás dos ghouls!

— UMA FEITICEIRAAA - O com o braço destruído sibilou.

— SIMMM CARNE DELICIOSA! - O segundo que subsistiu concordou, e ambos se levantaram de cima do corpo de Renato ensanguentado, e começaram a correr na direção da moça.

— A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO É DELICIOSAAA - O primeiro gemeu.

Ao se ver livre dos seus algozes, Renato só gemia de dor quando uma mão vindo de trás dele entre as chamas, segurou a dele.

— Levanta, seu gordo machista do caralho! — a voz era áspera como a de uma fumante.

— Ra-ramona?? O que? Como? - A voz dele soava um misto de dor e surpresa.

— Cala a boca seu tetudo jogador de Lineage, custou até eu e a Nanna conseguirmos abrir caminho pra vocês. Só anda! — Ela envolveu o braço dele ao redor dela.

— Eu consigo andar! — Ele murmurou.

— Bom mesmo! Você pesa umas 30 arrobas seu comedor de bacon do caralho! 

— Nunca tive tão feliz em ser tão ofendido... — Ele riu. Ramona também.

Na entrada da propriedade em chamas Nanna murmurou...

— Isso, venham pra mim, seus burros! — Ela com um sorriso sádico deixou sua planaltina brilhar em azul luminoso como um raio em meio a chuva.

A morte de um vivo é como viver a noite de um morto, o dia de uma alma no purgatório de Saklas, o deus cego, EXSECRATIO! — Nanna murmurou antes de gritar, e ao fim das palavras compromisso, uma nuvem negra envolveu os ghouls como uma névoa de escuridão enquanto uma esfera de energia escura explodia emergindo do chão sob os pés deles, pedaços de carne podre encandeceram ao cair no meio das chamas.

Nanna sorriu. "Nada como atrair um monte de idiotas pro mesmo lugar e explodir tudo numa maldição em área". Ela pensou.

Ramona levou Renato muito ferido em seu caminho em meio as chamas atravessando a propriedade destruída, até encontrar Imogen e Lorraine.

— Como fez esse caminho? Bem engenhoso. — Indagou Imogen ao ver ela chegando com Renato ensanguentado.

Arkanum naturalis.  Ela respondeu.

— Seu gordão burro! Fiquei com medo de perder você! — Lorraine abraçou Renato mesmo ferido e sujo de sangue, o que gerou um gemido de dor nele.
— Vamos pra propriedade dos Penzias-Costa... — Falou Nanna que surgia dentre as chamas que se fechavam conforme ela passava, os Vargas e Souza estão lá com a Maia Penzias-Costa.

— Caralho! Como essa farma aura! — Assoviou em admiração, Lorraine.

Nanna apenas sorriu.

— Como acharam a gente? — Indagou Imogen olhando pra Ramona.

— Primeiro, eu moro aqui... A casa dos Penzias-Costa fica entre a Velha Garimpagem e o Bosque dos Alves. Segundo, recebi uma carta esquisitíssima escrita em azul... Basicamente descrevendo eu vendo a coluna de fogo emergindo do píer e da casa da Mari... Como a Nanna já tava aqui falando com a Maia, bastou ir lá, a Maia conseguiu tirar os Vargas e Souza das chamas... Foi por um triz.

[ACSdL] CONTO - Ghouls, a história dentro da história.

Serra do Lago (ES), 23 de Julho de 2009, 21:40

— Quem é que teve a brilhante ideia de acampar à margem da linha férrea abandonada com previsão de chuva, mesmo? — ironizava Lorraine.

— Foi o Renato. — Imogen apontava com indiferença, enquanto torcia os próprios cabelos loiros.

— Achei que seria divertido... — Renato, com a camisa molhada, ficava ainda mais engraçado, já que ostentava uma barriga notória. — Além do mais, Lorraine... você é quem curte essas paradas... Achei que a Imogen ia reclamar muito mais...

— Ah, seu gordo barriga de bosta... — Lorraine se irritava. — Acha que eu não sei por que você insistiu tanto nesse acampamento idiota, né? Espera só que eu falo em voz alta.

— Coé? Vai jogar baixo assim? — Renato reclamou, visivelmente amedrontado.

Imogen pareceu não perceber...

— Tá tudo bem, gente... Se não fosse esse programa maluco, provavelmente eu estaria em casa sem fazer nada mesmo.

— Tá vendo? — Renato apontou. — A Imogen não tá achando ruim.

Lorraine ajeitou a mecha verde molhada sobre seus inúmeros piercings.

— Dessa vez eu vou deixar passar.

— Você não é normalmente tão nervosa assim, Lorraine. Pelo menos não com a Ramona.

— É que pelo menos a Ramona eu conheço bem... sem querer ofender. Eu imaginei que você fosse o tipo dondoca. Porque você é... — Lorraine procurou as palavras.

— Loira, da família Montgomery-Brooklet? Recém-emigrada da Inglaterra? — Imogen ironizou, em seu português quase sem sotaque.

— É... tipo isso. — Lorraine respondeu.

— Se me permite o elogio — interpelou Renato —, vocês são mais legais que a Ramona, que chama tudo de fascismo ou machismo... ou os dois.

Imogen pareceu ficar curiosa.

— Essa Ramona... qual é a dela? Ela estuda no mesmo Colégio que eu, mas preferiu me apresentar à vocês da escola pública.

— Ela é da única das famílias que bem acessível em geral, diferente dos outros mauricinhos.

— Diferente daquele mongoloide do teu primo — Renato pontuou.

— Quem? — Imogen se fez de desentendida. — O Monty?

— É. — Ele respondeu, rindo.

Irritada, Lorraine bateu palmas.

— Isso, Renato. Você ganha muitos pontos com ela esculachando o primo dela.

— Foi mal... — ele se emendou, percebendo a idiotice que fez.

— Tá tudo bem. Eu mal o conheço. — falou Imogen. — Mas não faça isso de novo. Ele não tem culpa de ser assim.


Renato chegou a um ponto com dois eucaliptos mais frondosos e falou:

— É aqui. Lugar perfeito pra acampar.

— Que se foda. — A voz de Lorraine saiu como um bufo de frustração.

Imogen deu de ombros.

Renato começou a montar o acampamento. Abriu a barraca com facilidade e então decidiu iniciar a fogueira — e foi aí que deu problema.

— Madeira muito úmida... — ele cochichou mais para si do que para as meninas.

— Claro, porque um gênio ignorou a previsão do tempo! — Lorraine bufou. — Espera, acho que eu trouxe álcool.

— Quem traz álcool pra um acampamento? — Imogen indagou. — É o meu primeiro acampamento... afinal, sei nem do que estou falando. — Se emendou.

— Quem disse que é álcool etílico? — Lorraine sacou absinto da bolsa. — É álcool de curtir.

— Pinguça... — murmurou Renato.

— Até parece que você não bebe. — Ela ironizou.

Imogen riu.

— Mas tem álcool o bastante aí pra acender?

— 65% de álcool. — Ela sacudiu a garrafa.

— Bem, eu vou procurar lenha seca. — falou Renato. — Talvez tenha no posto velho. — Ele apontou para a ES-481.


Ambas ficaram em silêncio, olhando a luz alaranjada do colégio além da neblina, na colina cheia de eucaliptos, além do posto, da rodovia e do córrego.

— Se importaria de vir comigo, Imogen? — perguntou Renato.

— Não. — ela respondeu, meio aérea, ainda achando a paisagem familiar e um tanto etérea.

— É sério? Não tem como ficar mais na cara? — A voz de Lorraine saiu carregada de ironia.

— Qual é a tua, Lorraine? Tá bem? — Renato indagou, insatisfeito.

Imogen se adiantou, caminhando na escuridão.

— Nada... vai lá... Só tenta não estragar tudo com sua musa dos peitão. — Lorraine falou com desdém, tirando proveito do afastamento da gringa.

— Coé?!

— Ah, o que ela tem demais, Renato? Vai me dizer que é só por causa dos peitos grandes?

Renato ficou em silêncio.

— Eu não acredito nisso... É só por isso. Eu não sei por que eu espero muito mais dos homens... — ela arfou com indignação.

— Eu vou indo... não posso deixar a Imogen na escuridão.

Ele se afastou rapidamente para acompanhá-la.

— Até parece que essa cheerleader vai olhar pra um pançudinho como você do jeito que você merece... — a voz de Lorraine soou para si mesma como um desabafo, com Renato e Imogen já longe.


Ambos caminhavam pela pastagem ao redor do trilho, em silêncio, com Renato tentando pensar em algo para puxar conversa. Imogen esfregava os braços pelo frio e pela umidade.

— Aceita um casaco? — ofereceu Renato.

— Não. Tô de boa. — Ela respondeu, desinteressada.

— Desculpa te trazer pra cá... A ideia era enturmar você. Devia ter ouvido a Lorraine.

— Tá de boa. E não é a primeira vez que tentam ficar a sós comigo porque estão interessados em mim.

Renato ficou vermelho.

— Eu... não... sa-sabia... que...

— Tranquilo. Não tô interessada, mas eu não tinha amigos em Malmesbury... então vir pra cá foi uma forma de tentar recomeçar... E vocês são legais.

— Uau... tomei um fora sem nem chegar a dar uma cantada... Acho que essa é a humilhação definitiva... — ele suspirou, aborrecido.

Imogen riu.

— Você é engraçado. Devia olhar mais pra Lorraine. Ela claramente gosta de você.

— A Lorraine? Aquela punk maluca? Coé... — Renato sorriu, achando que era brincadeira. Mas logo percebeu que Imogen falava sério. — Espera... você acha mesmo?

— Sim. O jeito que ela fica irritadiça e abrasiva quando eu tô perto... é inegável.

— Uau... eu nunca notei... ma-mas eu gosto de você, Imogen.

Imogen riu de novo.

— Você me conhece há 36 horas... não tem como gostar de mim. Você gostou dos meus peitos. E tá tudo bem. Sério.

— Caralho... eu não fazia ideia de que eu era tão transparente... sério.

— É... muito. Não é um “não” definitivo. É só que eu não me envolvo de cara com ninguém sem conhecer... a não ser que eu encha a cara de absinto. — Ela ironizou.

Ele riu.

— Então eu acho que vou achar as lenhas mais secas que puder achar... — ele riu — assim economiza bebida.

Imogen balançou a cabeça, achando graça.

— Eu... — Renato ia dizer algo quando Imogen interrompeu:

— Espera... ouviu isso?

Renato assentiu negativamente. Eles já estavam na entrada do posto. Ele estava fechado — ou melhor, abandonado de forma lenta, como tudo ali. O lugar parecia suspenso no tempo: placas apagadas, vidro embaçado por dentro, uma luz âmbar pulsando fraca em um dos postes. O cheiro era estranho — uma mistura de combustível velho, ferrugem e algo orgânico demais para ser ignorado.

— Não deve ser nada... — Renato falou, tentando soar confiante, mais para si do que para ela. — ...E parece ter umas toras de eucalipto ali perto daquele caminhão. Parecem secas.

Imogen hesitou por um instante. O som que ouvira — se é que ouvira — ainda ecoava na cabeça dela, como uma memória que se recusa a se formar por completo. Mesmo assim, seguiu.

O cascalho estalava sob os pés. Cada passo parecia alto demais.

Ao chegarem perto da van, o ar ficou mais pesado. Não era só cheiro — era densidade. Como se o espaço ali estivesse saturado de algo invisível.

— Estão secas... maravilha! — exclamou Renato, forçando entusiasmo. — A única coisa ruim é esse cheiro de metano...

Imogen não respondeu. Seus olhos estavam fixos no chão.

— Aquilo é... sangue? — sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.

Renato olhou.

— Segura que eu vou dar uma olhada. — Renato ainda não havia desistido, na cabeça dele, ia demonstrar seu valor pela coragem, mesmo estando certo de que provavelmente não era nada. Desde as mortes de 2004, quando ainda era criança pré-puber, nada acontecia na cidade. Era pacata e tranquila. — Não deve ser... - Ele falou confiante. — ... Nada. — A voz na última palavra saiu tensa.

Era um impulso burro. Mas hormônios, não é?

Ele deu um passo.

Depois outro.

— Renato? — Imogen chamou.

Ele não respondeu.

Seus olhos estavam presos na escuridão sob a van.

Algo se moveu.

Não como um animal, mas como uma coisa entre um e outro.

Então veio o som.

Um grunhido úmido, profundo — como carne sendo puxada.

E antes que qualquer pensamento se completasse—

O impacto.

Um vulto cinza explodiu da sombra, rasgando o espaço entre um segundo e outro. Não houve transição — só presença.

— COMIIIDAAAAA!

A criatura caiu sobre Renato com um peso brutal. O ar foi arrancado dos pulmões dele. As unhas — longas, irregulares — cravaram na pele como ganchos.

O primeiro grito saiu automático.

O segundo já veio carregado de dor.

O som da carne sendo rasgada não era alto — era íntimo. Próximo demais.

Quente.

O sangue espirrou em arco, pegando a luz âmbar e transformando-a em algo grotescamente bonito por um segundo antes de cair.

Imogen congelou.

Seu corpo travou.

O mundo se estreitou ao ponto de caber apenas naquilo: Renato no chão, a coisa sobre ele, o som — o som — o som— Ela virou. Correu.

Dois passos.

Parou.

Algo quebrou dentro dela.

Não lógica. Não coragem.

Algo mais antigo.

Ela olhou para trás.

E viu.

Viu o momento exato em que os dentes da criatura afundaram no antebraço de Renato — profundos, serrilhados, puxando — não apenas carne, mas algo mais. Um pedaço dele.

Renato gritou de um jeito que não parecia humano.

Imogen voltou.

Não pensou.

Correu direto.

As toras caíram — três delas — rolando no cascalho.

Ela ergueu a última.

Golpeou.

O impacto seco reverberou pelo braço dela. Um som oco — como madeira contra algo duro demais para ser apenas osso. A criatura caiu para o lado.

Mas não parou.

Ela se mexia. Lenta. Um grunhido ou gemido, não era possível dizer.

Renato tentou levantar.

"NÃO ME IMPEDIRÃO" A voz saiu da criatura.

Cambaleou.

O braço esquerdo... estava errado. Aberto. Incompleto. A pele rasgada revelava algo que não deveria ver a luz.

Os olhos dele estavam arregalados, mas não focavam.

Imogen o empurrou.

— Corre!

A palavra saiu com urgência, mas distante — como se viesse de fora do corpo dela.

A criatura se ergueu de novo.

Rápida.

Rápida demais.

Avançou.

O impacto agora foi em Imogen.

Os dentes entraram na lateral da barriga com uma precisão brutal. Não foi um rasgo — foi uma penetração.

A dor não veio de imediato.

Veio como atraso.

Um segundo vazio.

E então—

Explosão.

Um calor absurdo se espalhou pelo corpo dela. O ar desapareceu. O mundo girou.

— OBRIGADA, MESTRAAA... — a criatura gemia, a voz vibrando de um jeito impossível.

Ela puxou.

Imogen sentiu.

Sentiu o próprio corpo cedendo.

Sentiu algo sendo arrancado de dentro.

Mas a criatura não terminou.

Um tranco.

Renato.

Ele a agarrou por trás, braços tremendo, sangue escorrendo, mas firme o suficiente para travar a coisa.

— CORRE, IMOGEN! EU SEGURO!

A voz dele estava quebrada.

Mas estava lá.

Imogen caiu de joelhos.

O som estava abafado.

O mundo parecia distante.

Mas ela viu.

Viu Renato segurando.

Viu a criatura lutando.

Viu o próprio sangue.

Algo dentro dela decidiu.

Ela levantou.

Pegou a tora.

Bateu.

Com tudo.

Sem técnica.

Sem hesitação.

A madeira encontrou a cabeça da criatura.

Uma vez.

Duas.

Três.

Até parar de contar.

A coisa caiu.

Dessa vez, não se moveu.

Renato soltou.

Respirou.

Ou tentou.

Imogen deu um passo.

Dois.

E o corpo desligou.

Ela caiu.

Renato a segurou por reflexo.

Mas o corpo dele também estava acabando.

A pressão caiu. A visão escureceu.

Eles desabaram juntos no chão frio do posto.

Silêncio.

Por um instante.

Então, um movimento.

Lento.

A criatura ainda se mexia, o sangue — agora roxo — escorria pelas têmporas dela.

Ela se levantou de novo.

Quebrada.

Mas viva.

— DELICIOSO... — a voz saiu arrastada, cheia de fome. — A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO...

Renato não conseguia se mover.

Imogen também não.

Era o fim.

A criatura avançou.

Um passo. Outro.

Então—

O disparo.

Seco.

A cabeça da criatura simplesmente deixou de existir. Não foi uma ruptura limpa — foi uma explosão. Um jorro de matéria, sangue roxo e fragmentos que evaporaram na luz âmbar.

O corpo caiu como um saco vazio.

Passos úmidos atritando areia no posto se ouviram.

Os olhos de Renato e Imogen, quase apagando, focaram na escuridão além. Lorraine. Respirando pesado.

Um arranhão atravessando o rosto. Segurando uma espingarda ainda fumegante.

— Vamos, levantem, seus mongolóides! — ela gritou. — Essas aberrações me cercaram! Fugi até achar um policial — o idiota tentou conversar com o cinzento e teve a garganta arrancada! Peguei uma das armas no carro e fugi!

A voz dela tremia. Mas não falhava.

— Que porra era aquela!? - Renato falou. Mas Imogen olhava fixa para a carcaça que a criatura estava devorando antes de tentar contra eles. Era um frentista do posto.
— Sei lá! Um zumbi! Tipo nos filmes? - Falou Lorraine entregando uma pistola na mão de Imogen.
— Era do policial. — Ela falou olhando pra Imogen ainda assuatada.
— Zumbis? Droga? Vou virar um Zumbi? - Renato estava assustado.

Imogen então cortou o silêncio.

— Não são Zumbis. São Ghouls... Não imaginei que encontraria desses aqui nos trópicos.
— Por que você falou como se soubesse o que é? — Indagou Renato.

Imogen olhou para eles, olhos agora determinados, uma luz rósea é emitida pela sua mão sobre seu ferimento, que se fechava iluminado pela mão. Os tendões e o tecido adiposo se refazendo.

— Porque eu sei. — Falou Imogen — Relaxem, não vão virar ghouls.
— Eu sabia! Sabia que era verdade! — Lorraine exultou como se desconfiasse de algo antigo — As histórias de bruxa! Eu sabia!
— Bruxa! Ghoul!? —  Renato reclamou de dor e da informação —  Minha cabeça está rodando.
— Vou curar vocês. —  Falou Imogen.

domingo, 15 de março de 2026

[REALITATE 2.0] Depleção de Dano e de Armadura

Depleção de Armadura [1 ou mais slot]

É uma peculiaridade que algumas armas possui que é de causar dano específico na armadura reduzindo a eficiência dela. Para fins de construção de armas usando equipamento especial ou arma natural, conta como um poder. E é dividido em níveis de depleção.

  • Mínima - 1 slot: Reduz a RD em 1 para fins de cálculo de dano. Em outras palavras, um alvo usando uma armadura com RD 5, ao ser atingido por uma arma com depleção mínima, defenderá apenas com RD4 a todos esses ataques.
  • Leve - 2 slots: Reduz a RD em 2.
  • Média - 3 slots: Reduz a RD em 4
  • Grave - 4 slots: Reduz a RD em 6
  • Gravíssima - 5 slots: Reduz a RD em 8
  • Máxima - 6 slots: Reduz a RD em 10.

Só pode ser acoplado a Ataque Energético, Arma Natural ou Equipamento Especial. Não pode ser utilizada como poder singular.

Depleção de Dano [2 ou mais slots]

Um tipo específico de dano ou um grupo de danos não causam a totalidade do dano ao seu corpo por alguma razão, funciona como uma espécie de resistência natural àqueles tipos de danos ou uma RD natural. É um poder heróico que precisa de uma boa justificativa em matéria de lore, mas basicamente seu custo varia conforme o nível de depleção e o tipo de dano que resiste. Em outras palavras, para cada tipo de dano (contundente, cortante, perfurante, queimadura, etc), o custo sobe em 1 slot. E cada nível de depleção, aumenta em 1 também.

  • Mínima - 2 slot: Reduz a o dano em 1.
  • Leve - 3 slots: Reduz a o dano em 2.
  • Média - 3 slots: Reduz o dano em 4
  • Grave - 5 slots: Reduz o dano em 6
  • Gravíssima - 6 slots: Reduz o dano em 8
  • Máxima - 7 slots: Reduz o dano em 10.
Um exemplo de bom uso desse poder são nos Zumbis de Resident Evil, eles são lentos, mas precisamo de muito dano pra cair, eles possivelmente tem entre depleção de dano Média no caso dos zumbis comuns a Máxima dependendo dos BOW.

Um personagem com Depleção de Dano Grave para golpes cortantes e perfurantes, veria esse poder custar 7 slots. 5 por grave, 2 por dois tipos de dano.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Eddie Koemann [Wiki]

Informação Biográfica
Detalhes
Nome Completo
Edward Koemann
Alias(es)
Eddie
Local de Nascimento
Kinsale, Irlanda.
Data de Nascimento
4 de Abril de 2048
Afiliação (Família)
Solo, Entre 2065 e 2073 fez um duo com a Netrunner Susan Haki
Afiliação (Amigos/Aliados)
Snake Skulls
Ocupação
Solo
Estilo de Vestimenta
Techwear.

Eddie Koemann (Kinsale, 04 de Abril de 2048)  nasceu na Irlanda, filho de Aoife van Dalen Koemann, uma engenheira holandesa, e de Seamus Koemann, técnico elétrico irlandês. Viveu no país até os 11 anos, crescendo entre vilarejos chuvosos, paisagens verdes e a música indie folk e pop folk dos anos 2020, que aprendeu a tocar no banjo com seu pai — som que até hoje associa à ideia de lar.

A infância terminou quando o pai foi contratado pela EBM para trabalhar em Cascadia Town, uma cidade média do Estado Livre da Cascádia, violenta e decadente, semelhante a Night City. Isso foi causado pela morte de Meghan, irmã mais nova dele, que tinha uma doença genética. O pai foi pra América com a família na esperança de achar uma cura. Pouco tempo depois, Meghan morreu, e e alguns anos ainda depois, Seamus morreu em um incêndio industrial ligado à corporação. O caso foi abafado, e a família ficou sem respostas.

A perda destruiu Aoife, que mergulhou em depressão, delírios e acabou louca. Eddie paga sua permanência num asilo local aceitando gigs como Solo, trabalhando como mercenário freelancer nas zonas mais perigosas da cidade.

Em um mundo dominado por implantes, Eddie escolheu permanecer totalmente gânico: não possui neuroporta, usa celular comum e cartões físicos. Essa limitação o tornou mais lento, porém mais atento, disciplinado e difícil de prever.

De personalidade estóica e melancólica, Eddie é movido pela nostalgia de uma Irlanda que não existe mais. Seu banjo, modificado para se transformar em uma arma repleta de lâminas, simboliza quem ele é: música antes da violência, memória antes do chrome.

Em 2080 fez uma bela e profunda amizade com as irmãs Haznak, em especial com Pam Haznak a quem lembrava sua irmã Meghan.

No ano de 2082, Eddie Koemann segue sobrevivendo em Cascadia Town — um homem fora do tempo, pagando dívidas emocionais com sangue, carregando a música do passado em meio ao ruído do futuro. Ele se corresponde eventualmente com o irmão Eogh que mora em Kabuki (Night City) e leva uma vida equilibrada na medida em que sua vida perigosa permite com Jessi Levine, sua namorada desde os 22 anos e atualmente noiva. Jessi é enfermeira do Trauma Team.

Anos referência do Cenário:

2076- Enquanto David Martínez morria em Night City, Eddie estava preso.

2077- Enquanto V derrubava a Arasaka, Eddie teve um ano tranquilo, sem muitas missões, mas com bons serviços feitos (clean jobs).

2080- Novamente, um ano tranquilo para Eddie enquanto o patógeno da Star Rock era liberado no Galpão 13 de Vista Del Rey (NC).

2082- Salvou Pam Haznak no Ataque ao Helmut Plaza juntamente como Eliott Dohl, McLovin McLovin, Harald Sigurdson, Cypher, Frank Russell e Dominika Kuznets.

Relacionamentos:

  • Relacionamento péssimo com James Parker, que já o traiu em missão, fez ele ficar preso três meses (2076), e ainda dedurou para uma pequena corp de segurança, onde Aofie estava morando. Ele foi obrigado a tirar a mãe da casa e colocar num asilo com o nome falso de Edith. Ele paga o asilo, mas forjou a própria morte pra ela;
  • Eogh Koemann, irmão mais velho que mora em Night City e o considera um herói.
  • Jessi Levine, noiva a dois anos, mas namoram desde 2067. Ela é ciumenta ao extremo, mas ela e ele se amam e se entendem aos trancos e barrancos. Susan Haki, que depois se casou com o agiota Dom, foi causa de muitas brigas. Apesar de Susan dar em cima de Eddie, ele nunca ultrapassou a barreira do estritamente profissional.
  • Susan Haki, fez alguns trabalhos com ela, o que gerou ciúmes em Jessi.
  • É amigo dos Snake Skulls e de Roksana Yarin.
  • Amigo de Frank Russell.

sábado, 20 de dezembro de 2025

LICENÇA

 LICENÇA DE JOGO ABERTO

(Inspirada na Open Game License – OGL)

1. Definições

1.1 Sistema refere-se ao conjunto de regras, mecânicas e estruturas de jogo do sistema de RPG desenvolvido pelo Licenciante, excluindo cenários, ambientações, narrativas, personagens e elementos de mundo.

1.2 Versão Licenciada refere-se exclusivamente à versão do sistema identificada como:

REALITATE – Versão 1.5.

1.3 Licenciante é o criador original do Sistema, detentor de todos os direitos autorais não explicitamente concedidos nesta licença.

1.4 Licenciado é qualquer pessoa que utilize, modifique ou distribua a Versão Licenciada sob os termos desta licença.

2. Concessão de Licença

2.1 O Licenciante concede ao Licenciado uma licença perpétua, irrevogável, gratuita e não exclusiva para:

Usar o Sistema Realitate – Versão 1.5;

Modificar, adaptar, expandir ou reduzir suas regras e mecânicas;

Criar obras derivadas baseadas exclusivamente no sistema de regras;

Distribuir gratuitamente ou comercialmente versões modificadas do sistema;

Reescrever parcial ou totalmente as regras do sistema.

2.2 O Licenciado tem liberdade total para alterar regras, mecânicas e estruturas do Sistema Realitate 1.5, sem necessidade de aprovação do Licenciante.

3. Limitação da Licença

3.1 Esta licença se aplica única e exclusivamente ao Sistema Realitate – Versão 1.5.

3.2 A versão Realitate 2.0, bem como qualquer versão posterior, revisão, reescrita, expansão ou atualização do sistema, pertence integralmente ao Licenciante e não está coberta por esta licença, salvo autorização expressa e por escrito.

3.3 O uso, adaptação ou redistribuição de qualquer conteúdo pertencente à versão 2.0 ou posteriores sem autorização explícita do Licenciante é expressamente proibido.

4. Identidade Criativa e Cenários

4.1 Todos os cenários, ambientações, mundos fictícios, narrativas, personagens, facções, linhas temporais, conceitos narrativos e elementos de lore associados ao Sistema Realitate são de propriedade exclusiva do Licenciante, independentemente da versão do sistema.

4.2 Nenhum cenário ou elemento narrativo é considerado parte do Sistema Aberto, mesmo quando utilizado em conjunto com o Sistema Realitate 1.5.

4.3 O uso, reprodução, adaptação ou redistribuição de cenários e ambientações do Licenciante não é permitido sem autorização expressa, ainda que o sistema de regras esteja sob Licença de Jogo Aberto.

5. Atribuição (Opcional, mas recomendada)

5.1 O Licenciado não é obrigado, mas é fortemente encorajado, a incluir a seguinte atribuição:

“Este material utiliza o Sistema Realitate – Versão 1.5, criado por Arthur R. Ribeiro.”

6. Ausência de Garantias

6.1 O Sistema Realitate – Versão 1.5 é fornecido “como está”, sem qualquer garantia de funcionamento, balanceamento ou adequação a qualquer finalidade.

6.2 O Licenciante não se responsabiliza por qualquer dano, perda ou problema decorrente do uso do sistema.

7. Aceitação da Licença

7.1 Ao utilizar, modificar ou distribuir o Sistema Realitate – Versão 1.5, o Licenciado declara que leu, compreendeu e aceitou integralmente os termos desta licença.

8. Encerramento

8.1 Esta licença não pode ser revogada para o Sistema Realitate – Versão 1.5, desde que os termos aqui descritos sejam respeitados.

[ACSdL] CONTO - O Sacrifício do novo Arconte: História dentro da História

Serra do Lago, ES - 3:00 da manhã Monty e Mari finalmente atravessaram o bosque do Colégio, desceram a ribanceira arborizada até cruzar o ca...