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segunda-feira, 26 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 4.2

 Ivan passou por um mendigo cabisbaixo encostado na mureta do chafariz em construção e perguntou:

- Opa, firmeza?

O mendigo olhou para ele como se visse uma parede em branco, sem qualquer emoção. Não respondeu.

- Então, é cedo ou a cidade é bem paradona assim mesmo?

O mendigo sorriu com a boca meio torta (ou pelo menos pareceu, pois estava parte dela embaixo de uma barba suja e desgrenhada) e disse:

- Esse lugar não tem muita vida, se é que me entende.

- Então, estou vendendo uns cigarros e vejo que o senhor tem aí 10 reais. Te faço esse pacote aqui por 10, o que acha? - Ivan queria ver o quão maleáveis eram os citadinos.

O mendigo coçou a barba e pensou que fumar daria um bom alívio naquele que seria mais um dia de cão.

- Tá, tá! Me vê o pacote aí. - Disse o mesmo apontando para o chapéu.

Ivan se abaixou, pegou o dinheiro e deixou o pacote. O mendigo desembalou um maço, retirou um cigarro e perguntou: - Tem isqueiro?

Ivan acenou com a cabeça positivamente, pegou o isqueiro no bolso e deu ao  mendigo. 

- Cortesia. - finalizou.

O mendigo agradeceu com olhar meio insano.

- Você é gente boa, é melhor ir embora antes de arranjar problemas. - Disse ele entre uma tragada e outra - Conselho de quem conhece a vizinhança.

Ivan franziu o cenho curioso.

- Como assim?  - Perguntou.

- Acredite em mim. Você não vai querer saber. Se quiser dar uma olhada, fique a vontade, mas não fique muito tempo e evite ficar de prosa. 

Ivan achou aquilo estranho. Havia achado o local perfeito para se instalar e recomeçar o império do crime de sua família, mas um estranho mendigo no meio de uma praça semi-deserta o havia recomendado o contrário. Ivan já havia trocado tiros com milicianos, traficantes e policiais. O que um bando de caipiras que falam de bombacha e que falam "tchê" poderiam fazer de mal? nem na rua punham as caras!

- Obrigado pelo conselho... - Ivan falaria algo mais mas o mendigo, com cortesia zero o interrompeu.

- Cala a boca. Evite ficar zanzando nas bordas da cidade. Coisas ruins acontecem por lá e, se possível, vá embora antes de anoitecer.

Ok, o cara me mandou calar a boca - pensou Ivan - agora esse cara está me aborrecendo.

- O que poderia acontecer de ruim? 

O mendigo olhou para Ivan com olhar ensandecido após uma tragada e começou a rir com tom de voz fraco, mas sem cessar.

Ivan se aborreceu mais ainda, mas preferiu sair e tentar um diálogo com alguém menos louco. Já estava se sentindo patético de perder tempo com um mendigo. Só Deus sabe que tóxicos essa cara já deve ter usado, pensou. Ivan acenou ironicamente, como quem dava adeus e foi saindo em direção a um banco atrás em diagonal. O mendigo pareceu achar ainda mais graça do gesto.

Ivan fez isso pois viu uma jovem magra mas de belo rosto sentada num banco mais atrás olhando para a praça distraída, e quando se aproximou quase não percebeu o olhar de pânico que ela fez.

- Er... Olá, jovem. Está tudo bem?

A moça engoliu o soluço que estava prestes a soltar e acenou positivamente com a cabeça.

- Você sabe onde tem um mercado aqui? Eu não sou daqui estou de passagem vendendo algumas quinquilharias. - Disse ele ainda desconfiado.

A moça, pálida, ficou uns dois segundos olhando para ele inerte antes de responder.

- A.. Aqui atrás tem um. - E apontou o polegar direito para a porta do estabelecimento.

Ivan achou o comportamento bizarro. Essa gauchada roceira, gente esquisita, pensou ele.

A moça pareceu desinchar e corar de novo, como quem soltasse um ar aliviado.

- Tem certeza que está tudo bem? - Ivan tornou a perguntar.

- Sim, sim. Peço desculpas. Achei que fosse outra pessoa. - Disse a moça.

- Qual seu nome?

- Jéssica - respondeu ela.

- Prazer, Ivan - disse ele estendendo a mão como quem esperasse um cumprimento igual - Você é daqui?

Jéssica estendeu a mão e quase se arrependeu com o aperto de mão forte a ponto de estalar os ossos que Ivan deu.

- Não, não. Estou só de passagem também. - Respondeu.

- Fuma?

- Já fumei quando mais jovem. Hoje não, preciso do meu corpo saudável para trabalhar... Mas nada contra - Disse ela.

Ivan achou a justificativa estranha. Pensou que a moça era prostituta, mas não falou nada. Apenas remoeu a informação e pensou: Ótimo, Ivan. Com o mendigo e a moça você já pode montar um camelódromo e um puteiro na cidade.

- Bem, eu vou entrando. Obrigado pela atenção. - Disse encaminhando-se para a porta do mercado. Se não fosse pela indicação de Jéssica, Ivan não teria notado tamanha a degradação da tintura do letreiro na parede. Entrou, viu o mesmo cenário que Jéssica. Um caixa que parecia estar dormindo de olhos abertos e um arrumador de prateleiras tão sem vida quanto. Ao se aproximar percebeu que ambos tinham um tom de pele acinzentados, chegou a levantar os óculos para confirmar e ao confirmar, começou a temer que o mendigo tivesse razão. Porém, achando-se ridículo, afastou os maus pensamentos com uma hipótese mais prosaica. 

Esse povo não deve tomar sol, carência de Vitamina D eu acho. - pensou.

- Olá, em que posso servi-lo, senhor? - Perguntou o caixa.

- Sou Ivan, vendo cigarros e outros produtos. Vocês estão comprando algo? Tenho cigarros e aparelhos de IPTV. 

O caixa pegou uns papéis debaixo do caixa registrador antigo (um modelo que devia datar da década de 70) e olhou. Pareceu fazer contas e respondeu com voz lenta e monótona:

- Sim, senhor. Compramos sim.

Ivan deu um preço cinco vezes maior que o que deu ao mendigo na esperança do vai que cola e, sem pensar duas vezes, o caixa retirou os 50 reais e pagou-o. Ivan deixou o pacote de cigarros sobre o balcão, pegou o dinheiro, conferiu para ver se era verdadeiro e, confirmando, pôs na carteira.

- Obrigado. - disse Ivan ainda incrédulo - Vocês sabem quem compra eletrodomésticos na cidade? - Complementou.

O caixa continuou olhando para Ivan sem nada responder.

- Sabe? - Insistiu.

...

Silêncio apenas.

- Olá, em que posso servi-lo, senhor? - Perguntou o caixa com voz idêntica a que falou da primeira vez.

Ivan já estava se sentindo estranho na cidade e o sujeito ficar encarando-o sem responder e depois repetir tal qual um gravador a fórmula mais que decorada de "em que posso servi-lo" o fazia se sentir mais estranho ainda. Ivan, por fim, acenou com a cabeça e se despediu.

- Err... Obrigado.  - falou saindo.

- Volte sempre - disse o caixa com olhar inerte.

Ivan ao voltar seus olhos novamente para a praça viu que a moça já se havia levantado do banco e estava conversando com duas outras pessoas do outro lado da praça. O mendigo por sua vez olhava para ele rindo as gargalhadas e fumando animadamente o cigarro.

Ivan teve um mau presságio.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 2

Ivan estava tendo um dia difícil. Mas a expectativa até que era boa, pois, afinal, se tudo desse errado, ainda tinha seu sobrenome que era muito importante. Andrade, não que isso seja uma vantagem real mas, até que as pessoas tenham a big picture, o nome Andrade no mundo das ilegalidades ainda soa forte. Ivan tinha nada mais na menos que um parentesco bem distante (mas não negligenciável) com o famoso bicheiro carioca Castor de Andrade.

Até que as pessoas percebessem que Ivan tinha mais lábia e bravata do que influência, seu sobrenome ainda era imponente. Mas isso não muda o fato de que Ivan estava tendo um mau dia. Ivan era parte de um esquema de venda de produtos contrabandeados no Rio de Janeiro. Acostumado com o calor, Ivan jamais pensou que, poucos dias após os quiproquós de hoje, estaria preocupado em lidar com terrível inverno gaúcho.

O dia começou até que bem, o chefe do esquema confirmou com ele e mais dois colegas de que um carregamento de cigarros do Paraguai e aparelhos de IPTV estavam para chegar e que a recepção seria feita a noite na zona portuária do Rio. Era, claro, algo muito arriscado, afinal de contas, contrabando é feito "na moita" e não em contêineres nas docas. Mas o fato é que o chefe do esquema havia assegurado que o esquema estava todo certo e fechado com um operador de grua, com o dono do cargueiro e com funcionários do porto para fazer os produtos que chegarem se passarem por outros produtos legais. Claro, tudo mediante a relatórios fraudados, notas frias e algum suborno.

Ivan, "Zóio de Gato" e Ronicley foram destacados para supervisionar e fazer a recepção das mercadorias naquela madrugada. Entretanto, faltando poucos minutos para iniciarem-se as operações, Ronicley desaparece, deixando Ivan e Zóio de Gato na mão. Era suspeito, claro! Ronicley nunca sumia em dia de serviço, mas não eram raros os dias em que seu celular só dava ocupado porque ele estava ocupado bebendo num churrasco ou em algum puteiro da baixada. Aquele desfalque deixou os dois protagonistas deste conto furiosos, pois a carga de trabalho de cada um seria aumentada para compensar a falta de uma pessoa.

Ao chegarem ao local da transação, Zóio de Gato e Ivan já estavam bastante aborrecidos e a sequência dos acontecimentos tenderia a piorar a situação. Zóio de Gato, que estava sem carteira e tinha batido o carro teve de ir ao porto no carro de Ivan, um monza velho de cor vinho, apelidado de "tubarão" devido ao seu formato. Ambos desceram do veículo e foram conversar com o contato indicado. Após alguns minutos de acalorada negociação, o contato acena para alguns funcionários que os guiam até o contêiner. O operador de grua ergue o enorme caixote de ferro e o deixa posto num logradouro mais acessível. Os funcionários abrem as portas e começam a carregar  os produtos para um caminhão que o chefe do esquema havia alugado alguns dias antes, e que Ronicley havia deixado 24 horas no pátio do estacionamento anexo ao porto.

A ideia era simples: Ronicley dirigiria o caminhão e Ivan e Zóio de Gato seguiriam de carro para fazer a escolta. Sem Ronicley na área, Zóio de Gato teria de dirigir o caminhão. A entrega da carga estava indo bem até quase no seu final, que é quando as coisas começam a ficar estranhas.

Sirenes. Luzes. Helicópteros.

A polícia baixou no pedaço e o pipoco comeu para todo lado. Ivan sacou seu 38 e deu alguns disparos enquanto corria em direção ao carro. No desespero, Zóio de Gato deixou cair algumas caixas de cigarro paraguaio. Ivan pegou os pacotes e correu em direção ao seu carro. Antes de entrar deu mais dois disparos. Jogou os pacotes no banco de trás junto com a arma e saiu correndo. Zóio de Gato entrou no caminhão, tentou dar partida uma, duas, três vezes, em vão. O que ambos desconheciam é que Ronicley era um x-9; um ex-presidiário em condicional que estava por dentro do esquema para dar informações para a polícia, que esperou até ter um grande carregamento para agir. Ronicley antes de chegar ao posto trocou de caminhão no meio do caminho por um de mesma marca da polícia. O caminhão da polícia tinha um sistema elétrico de partida via satélite que poderia desativar o motor e impedir a partida remotamente.

Sem meios de fugir, Zóio de Gato acabou preso junto com todos os funcionários do porto envolvidos no esquema de corrupção. Ivan conseguiu escapar. Embora não tivesse conhecimento dos detalhes da missão policial acima mencionados, tinha vivência e experiência suficientes para saber que uma operação policial daquele tamanho não foi feita para prender só peixes pequenos como ele. E que o esquema todo estava desmontado. Definitivamente, aquele era um dia ruim!

Após virar várias quadras despistando a polícia, Ivan consegue achar uma brecha no bloqueio e escapar. Ele sabia que não poderia ficar no Rio e que se não quisesse ser preso teria que ir para bem longe dali. Parou num posto de gasolina a alguns quilômetros dali para reabastecer. Abaixou os óculos escuros e colocou um chapéu panamá para evitar ser reconhecido. Pagou o atendente do posto e caiu na estrada por horas.

Paranóico, olhava no retrovisor de 30 em 30 minutos para se assegurar de que não estava sendo seguido. Durante umas três horas quase chorou achando que sua vida estava acabada, até se dar conta de que aquilo, talvez, fosse uma oportunidade. Sim! É! Uma oportunidade de fazer o nome de sua família respeitado outra vez! Sem ser subalterno de ninguém! Mas aquilo não poderia ser no Rio... Do nada, o medo deu lugar a planos e mais planos... Quando completaram-se quatro horas de viagem, já quase na fronteira com São Paulo, Ivan tinha bolado o esquema perfeito de contrabando.

1- Ir para uma pequena cidade - Nesses locais o policiamento é menor e há menor atenção das autoridades.

2- Teria de ser uma cidade fronteiriça para o custo das operações de contrabando não serem altos. O ideal seria algum lugarejo no Mato Grosso do Sul ou no Rio Grande do Sul, onde o acesso ao Paraguai seria fácil. Fosse por acesso direto ou por meio do Uruguai pelo Rio da Prata.

Ivan seguiu dirigindo sem dormir. Estava exausto, mas animado. Havia conseguido fugir da polícia. Ao parar num restaurante de beira de estrada para comer, aproveitou a ocasião para olhar num mapa que estava pendurado na parede interna do restaurante. Olhou no Mato Grosso do Sul. Achou várias cidades promissoras e, quando estava prestes a se decidir, se deu conta de que ir para lá seria muito óbvio. Seria menos custoso, é claro, mas óbvio demais. Se ele fosse policial e estivesse procurando um contrabandista, obviamente, procuraria lá.

O Paraná também teria o mesmo problema, então optou por uma cidadezinha gaúcha, uma tal de Crescente. Lugar que era diminuto no mapa e que nunca tinha ouvido falar. Ficava próximo da fronteira com o Uruguai, mas não o bastante para chamar a atenção. Pagou a conta do almoço e caiu novamente na estrada. Dormiu em alguns acostamentos e passado alguns dias já estava chegando ao seu destino. Após deixar a rodovia e tomar uma estrada vicinal asfaltada, Ivan ainda dirigiu cerca de 40 minutos até avistar na subida de uma colina coberta por névoa uma placa com os dizeres: Bem-vindo a Crescente-RS; fundada em 1950; 800 habitantes.

Ivan entrou na cidade e, além do clima frio estranhou o pequeno movimento na cidade. Virou duas curvas a direita e chegou a uma grande praça, onde o único movimento era uma moça sentada num banco e um mendigo próximo ao que parecia ser um grande chafariz. Antes de descer, deu uma olhada no retrovisor por segurança, encheu o tambor do seu revólver calibre 38 e pôs na cintura. Ajeitou a camisa para cobri-lo, respirou fundo e desceu sorridente para o pior erro da sua vida.



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Antes de mais nada, não me considero esquerdomacho ou feministo. Só alguém muito cansado. Homens estão cansados de muitas coisas, eu estou c...