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quinta-feira, 18 de julho de 2024

EPR - Novo Poder: Dash [REALITATE 1.5]

 Dash - 2 slots

Jesse Faden em Control fazendo um Dash ofensivo.

Dash é um poder que consiste num deslocamento em curta distância super rápido e num soco ou trombada contra o inimigo com todo o peso da energia cinética acumulada nesse movimento. Dash consiste numa manobra de Investida padrão, que não gasta o uso da manobra. Assim, calcula-se +3 na HAB durante o ataque. 

Esse poder é realizado ao custo de 2 ENG e agrega também +3 ao dano. 

Ataque com Dash:

  • FOR+HAB+3+BdA (se houver arma de combate melee)+2d6
  • Dano: Dano Básico+Dano da Arma (Se Houver)+3.

Defendendo-se com Dash:

Jesse Faden em Control usando Dash defensivo.

O Dash defensivo só pode ser feito no ar com Levitação, para efeito análogo em solo consultar Esquiva Ampliada no Livro Básico. A mecânica do dash defensivo é similar a manobra Evasiva, mas que não gasta o uso da manobra e agrega o bônus de +3 pra se defender quando no ar.

NOTAS:

1- Esquiva Ampliada no ar não é cumulativo com Dash. Prevalece o maior. 
2- Dash pode acumular com investida e evasiva ao custo de 1 ENG adicional.

sábado, 1 de junho de 2024

[CONTO] O Cotidiano de Breen - III

Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 15 de Maio de 2006, 20:45.


Monica Breen adorava sair do Departamento por volta das 19h; ela, que para manter-se sempre as ocultas, optou por morar numa casa de madeira e vidro de alto padrão, na região da Mata dos Serralheiros, na divisa entre Serra do Lago e Santa Teresa, tinha uma rotina coreografada. Região bem afastada, para além da rodovia que dá para a capital no sentido da Clínica local, ela precisava sair com sua SUV e pegar uma estrada acidentada de terra para chegar ao referido trecho de mata atlântica. Nos dias comuns ela saía às 19h, chegava em casa perto das 19:40. Tomava um banho numa banheira de hidromassagem, colocava por controle remoto uma música clássica. Em que pese ser comunista, Breen como o bom "esquerdista caviar", preferia as manifestações eurocêntricas às periféricas da world music. Tinha particular afeição pelo trabalho 9, números 3, 5 e 8 de Tomaso Albinoni (a quem considerava um gênio). A arquitetura barroca de Serra do Lago fazia, inclusive, a música ganhar mais sentido. Ao sair do banho de roupão, servia-se um vinho rosé, lia um livro, normalmente Chaucer. Punha-se a dormir por volta das 21h.

Mas este era um dia diferente. Era perto da meia-noite, ela ainda estava no seu escritório minimalista, moderno, com largas janelas de vidro e poucos adereços, posicionada atrás do velho castelo de Gonçalo, onde ela podia ver o vasto bosque de eucaliptos ao fundo. Em sua sala, de paredes escuras iluminada em tons dourados por lâmpadas de paredes, ela acompanhava a movimentação na base em todos os níveis por várias câmeras e monitores. De 15 em 15 minutos, entrava em contato com Jean-Pierre Montreux, um homem negro, alto, forte, militarmente capacitado, e que por acaso era o líder dos sentinelas - sua guarda de elite - elegantemente trajando fardas brancas, e o haitiano dava o relatório do perímetro. Os guardiões - equipe secundária - que trajava fardas pretas - estavam nos arredores do colégio em carro a paisana. Três soldados, atentos, aguardavam pacientemente o desfecho do ataque dos karpovitas. Numa tela menor, Breen acompanhava o setor de contenção.

Era por volta de 20:45, quando no final das apresentações da Feira de Artes no Colégio, os guardiões deram sinalização de que uma horda karpovita havia nocauteado o vigia da guarita, aberto a cancela e arrombado o portão principal. Às 21h, os guardiões reportaram que havia um policial nas dependências da instituição de ensino, e às 21:05, reportaram a invasão do ginásio pelo telhado. Breen sorriu, seu plano estava funcionando. Às 21: 07, Breen ordenou a Montreux que destacasse três de seus homens para ir fazer uma visita a um radialista enxerido, David Monsalve, na rádio comunitária.

- Presidente! - Exclamou o comandante de infantaria  dos guardiões, Moisés Bereshit - Ouvimos um disparo no recinto.

- Bereshit, mantenha posição. Mande o tenente Ibarra se aproximar, preciso de um relatório do que está acontecendo. - Ordenou a mulher.

No fundo do comunicador, o som das ordens gritadas se ouviu.

Mais quarenta segundos se passaram e Ibarra pessoalmente reportou-se à presidente.

- Presidente Breen, a situação é caótica. Alunos e pais fugiram em pânico. Petrov está negociando com o policial em um português sofrível.

- Aguardem. Não temos interesse na morte de ninguém. Algum sinal da agente Sándor?

- Não senhora. Segundo o praça Miranda, ela saiu com Marisa Costa a dois minutos atrás.

Breen sentiu a raiva subir pela espinha, seu rosto ruborizou-se. 

- Como nosso principal alvo saiu e ninguém me avisou? - Gritou ela, no comunicador.

Um silêncio constrangedor se pôs entre eles antes de ser cortado pela voz gaguejante de Ibarra:

- Nós a perdemos de vista, e quando a vimos sair logo percebemos a presença dos karpovitas. Tudo foi muito rápido.

Breen socou a mesa e urrou de raiva enquanto clipes e canetas vibravam com impacto na mesa metálica. Sua raiva, porém, não foi plenamente desenvolvida. Antes mesmo de pensar em alguma contramedida, Ibarra interrompeu:

- Disparos! Há intensa troca de tiros no recinto! 

- Destalhes, Ibarra! Agora! - Ordenou ela.

- Petrov se teleportou após transformar em pedra alguns alunos que ainda estavam de curiosos no recinto! Permissão para agir?

- Não! Preciso de um relatório completo! - Gritou Breen.

Seu plano estava indo por água abaixo. O que poderia ter dado errado? Ela era uma contista premiada na universidade. Isso não fazia dela nenhum Tolkien, obviamente, mas ela sabia como encadear palavras e conhecia as principais técnicas. Odiava Shakespeare, amava Chaucer e também Fitzgerald. Ela havia escrito na Hamington, não havia? Será que o fato da máquina estar com seus poderes enfraquecidos foram a causa desse desastre? Ela afastou esse pensamento. "Não, mesmo enfraquecida, a Hamington ainda é muito poderosa". Repassou mentalmente seu plano, que aliás, era simples: Usar as paranóias de Petrov para forçar o grupo de Sándor e os Karpovitas entrarem em conflito entre si. Assim ela poderia negociar em posição de vantagem com o grupo de Sándor: "Deixem o escritor e a Hamington sob custódia do Departamento, e nós enviamos a cavalaria para ajudá-los, uma vez com Petrov em custódia, ela poderia voltar sua atenção ao líder maior do karpovismo: Mikhail Ulianov". Breen não tinha interesse nenhum em um conflito com as oito famílias, ainda que elas estivesse enfraquecidas desde o colapso d'O Sopro em 2005.

- Há pessoas petrificadas no recinto, uma menina petrificada foi atingida por disparos, e o policial e uma estudante muito hábil estão lutando. Estão encurralando os karpovitas! Incrível! Nunca tinha visto nada assim! - A exclamação de Ibarra soava como o de uma criança assistindo uma luta de anime.

- Estão em vantagem numérica? - perguntou Breen.

- Nada disso! São 2 contra 6 dos karpovitas! A menina está encurralando parte da horda num canto, e apesar de muito ferido, o policial sozinho derrotou... Minha nossa! - O espanto  de Ibarra era genuíno. O som de uma explosão se ouviu no fundo.

- O que aconteceu!? - Perguntou Breen, o medo saltava na sua voz.

- Um karpovita foi lançar um projétil preternatural e o disparo do policial fez a coisa explodir na mão dele, o cara foi completamente desintegrado vivo! - Explicou Ibarra. - Uma morte horrível! - Completou.

- Entrem agora! Agora! - Gritou Breen temendo que a situação ficasse ainda pior do que já estava.

Ordens gritadas foram ouvidas no comunicador. E em segundos Miranda e Ibarra entraram estourando as janelas do ginásio. Bereshit estava do lado de fora para pegar os desgarrados.

O tiroteio durou mais um pouco até que dois karpovitas fugiram, ambos acabaram nocauteados e detidos pelo Departamento graças a tiros de baixo calibre de Bereshit. Apesar de ter dois deles em mãos, para Breen a operação havia sido um desastre completo. Mesmo que Montreux tivesse anunciado a custódia de Monsalve pelo comunicador, era difícil manter aquela zona oculta. Breen caminhou até um armário, abriu um fundo falso, e pegou um garrafa de vinho do Porto. Precisava molhar a garganta. Montreux entrou em contato no momento em que ela ia se servir: 

- Presidente, Monsalve está numa cela de interrogatório no centro de operações no subsolo do píer, conforme orientado por si. 

- Ótimo. estarei aí em 30 minutos, preciso controlar a situação no Colégio. Câmbio, desligo!

Breen serviu-se uma taça generosa. Virou a primeira sem nenhuma classe. Deu um murro na mesa. Serviu-se, e novamente, e do mesmo modo virou a segunda. Pareceu se acalmar por alguns minutos. Ficou pensativa e cabisbaixa. Os 30 minutos se passaram, algumas horas se passaram, assim. Seu comunicador, removido da orelha, apitava com os contatos sem resposta de Montreux. Ela parecia estar vivendo sua própria Guantánamo. 

Sua introspecção só foi quebrada, quando efetivamente começou a pensar numa contramedida, mas mesmo isso se mostrou insuficiente, pois como se nada pior pudesse acontecer, ela entrou em pânico ao ver numa tela ela a delegada Jordan no local do combate, e - pior ainda! - no outro monitor (o menor) o alarme na sala do escritor soar. Ela se levantou, esvaziou a taça de vinho, e foi até a mesa. Era meia-noite, e mesmo sem entender como ou porquê ela assistiu suando frio a Brooklet, Marisa e Sándor juntos dentro da cela de contenção. Havia um tipo de portal aberto atrás delas, e imediatamente, um outro surgiu dando para fora da cela de contenção. Desesperada, Breen apertou o botão vermelho! Nenhuma contramedida poderia ajudá-la naquele momento. Era hora do tudo ou nada, ela despejaria poder de fogo em qualquer um que invadisse a base e, mais ainda, em quem se aproximasse da Hamington.

Após o clique no botão, um alarme barulhento começou a soar, luzes vermelhas a piscar. Uma voz robótica começou a gritar nos alto-falantes: "Atenção! Isso não é um teste! Falha de contenção! Falha de contenção! Setor de Contenção em Lockdown!'. Breen havia sido passada para trás - Disso ela tinha certeza - Mas como?

Continua...

quinta-feira, 30 de maio de 2024

[CONTO] O Cotidiano de Breen - II

Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 15 de Maio de 2006, 16:00.

O som da chuva batendo nas janelas era como um relógio em contagem regressiva. Era a típica tarde fria em que a pluviosidade se concentrava exclusivamente na região do Bosque dos Alves, enquanto o resto da cidade via céu limpo e nevoeiro. Monica Breen observava a tempestade se intensificar do conforto frio de sua sala de comando. A escolha de Serra do Lago, no Espírito Santo, havia sido estratégica. Após os escândalos de Guantánamo, ela sabia que precisava de um lugar discreto, pequeno, longe dos olhos da mídia americana. Ali, se algo falhasse, seria menos notado. Mas ultimamente, a preocupação tinha se transformado em um medo palpável. A situação com Arthur Brooklet e os karpovitas estava se aproximando de um limite perigoso.

A sala estava repleta de monitores, todos mostrando dados críticos. Em um deles, a transmissão ao vivo da cela esférica de Brooklet. Ele estava deitado, o olhar sereno, quase confiante. Uma dúvida perfurou a mente de Breen. "Seria tudo isso uma encenação?"

As palavras de Brooklet ecoavam na sua cabeça, como um espectro assombrando seus pensamentos: "Se você estivesse tão certa de sua vitória, não teria se dado ao trabalho de vir até aqui. Você não está me contando alguma coisa. E certamente isso te preocupa de algum modo."

Um arrepio subiu pela espinha de Breen. Determinada a confrontar seus medos, ela pegou o telefone e ligou para o Dr. Richard Montalban, um dos cientistas mais respeitados do departamento. "Encontre-me na sala de contenção da Hamington," disse, sua voz fria e resoluta.

Na Sala de Contenção da Hamington

A sala de contenção estava mergulhada em um silêncio quase reverente. O Dr. Montalban estava lá, ajustando os controles da máquina de escrever Hamington. O brilho pálido das telas criava sombras que dançavam nas paredes. "Doutora Breen," ele começou, hesitante, "não fizemos testes suficientes com a máquina. Ela só parece responder a um talento verdadeiro."

Breen respirou fundo, sentindo o peso do momento. "Ganhei o concurso de contos inspirados em Francis Scott Fitzgerald quando estava na faculdade," revelou, sua voz firme, mas carregada de memórias distantes.

Montalban olhou para ela, os olhos cheios de dúvida. "Muito bem," disse ele finalmente, "mas lembre-se, a máquina reage de maneira imprevisível. Se algo der errado, poderemos ter um problema ainda maior."

O último mover de peça:

Breen sentou-se diante da Hamington, a máquina de escrever que poderia ser sua salvação ou ruína. A intuição dizia que um avanço dos karpovitas contra a base seria uma armadilha. Chaya Sándor confiava em Ivan Petrov, mas o que ela não sabia era que ele era insano, paranoico, com uma mania de perseguição e traição. Esse era o ponto fraco que Breen precisava explorar.

Cada palavra que escrevia parecia ter um peso maior do que as anteriores. A luz azul fraca começou a emanar da Hamington, pulsando como um coração desesperado. As frases fluíam, tecendo uma narrativa que poderia mudar o curso dos eventos.

A luz azul da Hamington pulsava, iluminando o rosto de Breen enquanto ela digitava as últimas palavras. Sentia a tensão em cada músculo, mas também uma determinação feroz. Levantou-se lentamente, a luz diminuindo até desaparecer. As palavras no papel eram agora uma nova realidade, uma nova esperança.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

[CONTO] Cotidiano de Breen - I

 Arthur Ribeiro

 Serra do Lago, 14 de Maio de 2006, 15:00.

Era uma sala branca  e sem quinas, praticamente redonda. Nela havia uma mesa de metal cromado com uma cadeira na frente e outra atrás. Ao lado dela, próximo ao limiar da parede esférica uma cama, e ao lado dela, mal oculta pela estrutura circular uma porta de deslizar. Não fosse por esses pequenos detalhes, aquele recinto se pareceria com um espaço branco adjacente infinito para todos os lados.

Arthur Brooklet estava já a quatro dias naquela prisão, fazia quatro dias que ele já não tinha mais a "Hamington" sob sua posse. Não que isso importasse, no plano de Brooklet, passar metade dos poderes da máquina para si era essencial, pois era o único meio de continuar extremamente relevante para conseguir escapar. Essa etapa do plano era a mais difícil, pois pela primeira vez desde que percebeu que poderia passar os karpovitas para trás, ele não tinha mais o controle quase absoluto das probabilidades, e para piorar, a presidente do DIX, uma mulher americana de nome Monica Breen, não deixou nem mesmo um lápis ou caneta a sua disposição. Fosse como fosse, restava a Brooklet confiar. Cedo ou tarde os karpovitas dariam as caras e, ao escrever na máquina, ele recebeu o influxo da realidade na sua mente, e graças a isso, ele sabia que prender Ivan Petrov, líder de uma célula karpovita na Europa Ocidental, era mais importante para o departamento do que mantê-lo sob custódia. Na mente de Brooklet era tudo uma questão de tempo. Mesmo que ele não pudesse mais escrever para manipular as probabilidades ao seu favor, ele havia plantado bem as sementes dos fatos e armado bem a cama da presidente do DIX. Cedo ou tarde a presidente Breen perceberia que não tinha escolha, se não barganhá-lo com a equipe do Oficial Souza.

O clique-claque de uma tranca digital é ouvido, e uma porta com uma circunferência complementar Às das paredes se desloca para fora dando entrada a uma mulher. Ele sabia que era a presidente do DIX, Monica Breen. Vê-la pessoalmente ali, deu-lhe ainda mais certeza de que seu plano estava funcionando bem.

- Senhor Brooklet, devo confessar que você é realmente muito ardiloso. Fizemos nos últimos dias alguns testes com a "Hamington", e neste momento a máquina de escrever está sob contenção. No entanto...

Breen cadenciou sua fala e puxou uma das cadeiras, sentando-se de frente para o escritor.

- ... notamos que a assinatura energética dela apresenta valores de xenorradioatividade muito menores do que as que deveria apresentar dado o grau de alterações que ela foi capaz de executar enquanto sob sua posse.

Brooklet sorriu sarcasticamente e falou:

- E o que eu tenho a ver com isso?

Breen respondeu o sorrisinho com outro enquanto sacava um tablet de seu sobretudo, e tornou a falar:

- Senhor Brooklet, não precisa se comportar como se tivesse tudo sob seu controle, porque mais cedo ou mais tarde, vai se dar conta de que por mais engenhoso que seu plano tenha sido, ele está cheio de buracos.

Brooklet continuou confiante enquanto ouvia as palavras da bela mulher do noroeste pacífico dos Estados Unidos.

- Bem senhor Brroklet, eu não nasci ontem e não cai nesse cargo de paraquedas. Nós já percebemos que a máquina é uma via de mão dupla. Você informa ao tecido da realidade o que você deseja, mas ela te devolve mentalmente as informações que você precisa conhecer pra escrever. É como se você baixasse todas as memórias de Deus sobre aquele pequeno local do espaço-tempo diretamente na sua cabeça na hora de escrever.

- É assim mesmo, senhorita Breen. Estou impressionado. - Falou ele enquanto colocava as mãos algemadas sobre a mesa reflexiva.

- Pois então. Se o senhor tivesse entregado a "Hamington" em seu estado original, nós simplesmente o entregaríamos a Inteligência do Brasil como mentor de assaltos a bancos, e eles garantiriam que você nunca mais retornaria a ver sua filha. E os karpovitas iriam atrás de outro escritor antes de tentar recuperar a máquina. Porém, tenho certeza que você transferiu parte dos poderes dela para outra coisa, outro objeto, em algum lugar que só você sabe onde está... Isso se não os transferiu para si mesmo. 

O rosto de Brooklet agora ficava sério.

Breen ergueu ainda mais seu sorriso e continuou falando. Ela claramente amava escutar a própria voz, especialmente nos momentos em que ela acreditava estar em posição de vantagem.

- É óbvio! Os karpovitas precisam da máquina, mas a máquina tem apenas metade de seus poderes, então para que ela cumpra os objetivos que Ivan Petrov deseja, ele precisará do escritor. E como você agora é um xenofenômeno, o DIX não pode simplesmente dar um sumiço em você. Você ganhou condições de barganha. E eu posso falar com uma certeza quase divina de que você está apenas esperando os karpovitas se organizarem para atacar a base para conseguir com isso condições de negociar a sua liberação.

Brooklet continuou olhando sério e silencioso para Breen.

- É um bom plano. Sério, mesmo. - Breen se levantou da cadeira naquele momento e começou a andar pela sela esferóide enquanto palestrava confiante:

- Mas não bom o bastante. Você abriu mão dos poderes plenos da "Hamington" cedo demais e não prestou atenção o bastante em todos os atores de sua estória. Ontem mesmo seu plano muito provavelmente foi por água abaixo e você nem se deu conta disso.

- Bobagem - Retrucou o escritor.

- Será? - Ironizou a executiva daquele departamento estranho - Sabe falar russo, senhor Brooklet?

- Um pouco, graças a máquina. - respondeu.

- Ótimo. Você vai adorar ouvir que a agente Sándor simplesmente botou seu plano abaixo ao mandar Ivan Petrov ir para casa.

- Você está blefando. - Agora as palavras do escritor mostravam medo.

Breen sorriu maliciosamente e clicou num botão na tela do tablet. A voz jovial de Chaya e a inconfundível voz de Petrov começaram a soar na sala.  Brooklet foi se encurvando na mesa conforme ele percebia que a jovem havia batido todo o plano do DIX para os karpovitas e agora eles asseguravam que não iriam atacar a base.

- É tão bom ver seu sorrisinho debochado sumir dessa sua cara de bebedor de chá das cinco. - Disse ela absolutamente radiante. - Nunca gostei de britânicos. Shakespeare foi um trauma pra mim no colegial.

Brooklet olhava aparentemente perdido para o próprio reflexo na mesa.

- Você se focou de mais no cabo Souza. Ele é um homem disciplinado, acostumado a vida numa hierarquia onde respeito aos superiores é um lema e um modo de vida. Mas se esqueceu da agente Sándor, ela é um turbilhão, um bater de asas de uma borboleta no Brasil que causa um furacão na Irlanda. Foi quase, Brooklet. Foi quase. Mas não será dessa vez que você vai rever sua filha.

Brooklet levantou seus olhos furiosos para Breen ao ouvir a frase por ela proferida. Na sua mente, apenas os olhos azuis de Claire, idênticos aos seus, e as maçãs no rosto pronunciadas como a de sua falecida esposa apareciam. Se ele não estivesse algemado, ele a mataria naquele momento.

- O que foi? Não vai falar nada? Nenhuma tirada confiante? - Provocou a presidente.

- Se você estivesse tão certa de sua vitória não teria se dado ao trabalho de vir até aqui. Você não está me contando alguma coisa. E certamente isso te preocupa de algum modo.

Agora era Breen que fechava os lábios debochados.

- Não poderia esperar menos de você, senhor Brooklet. Mas isso não muda o fato de que, a não ser que Petrov cometa um erro capital, o senhor vai ficar aqui por um bom tempo. Aliás... Aproveite a estadia e seu novo nome. - E ao dizer isso, Breen virou a tela do tablet para o escritor revelando uma foto dele um número: R2-X1147.

- E quanto a Claire? Ela está bem? - Perguntou Brooklet.

- Fique tranquilo quanto a sua filha. Ela ainda está sob a tutela do Souza. Ela vai ter uma ótima vida ao lado deles. Policiais promovidos em suas patentes são bem remunerados no Brasil, e ao que tudo indica ele vai se casar com a subtenente Ahien, então, ela terá uma ótima vida e educação neste país.

Breen se sentou novamente e olhou nos olhos de Arthur.

- R2-X1147... Nunca houve ou existiu nenhum cenário em que você pudesse sair livre, leve e solto para viver a pacata vida de papai escritor que mora nos subúrbios de Newcastle upon Tyne com sua filhinha. Jamais. Ninguém olha  "A Verdade" nos olhos como nós dois olhamos e volta a viver num mundo normal.

- Que verdade? - Perguntou o escritor.

- A de que este planetinha azul, que existe nesse universo regido por leis físicas absolutamente previsíveis não passa de uma pequena bolha, como uma delicada bolha de sabão, boiando na superfície de um mar escuro e tempestuoso, onde tudo que se esconde nas infinitas trevas aquosas desse mar, existe apenas com a finalidade de estourar essa frágil bolha. E você sabe qual a única barreira que impede isso, R2-X1147?

- Não. - Ele odiava ser chamado por esse número.

- É este Departamento. No momento em que você saísse por aquela porta, coisas muito piores que Ivan Petrov iriam atrás de você. E tenho certeza de que você não quer sua adorável Claire na reta disso tudo.

Brooklet silenciou-se. Enquanto Breen empurrava a cadeira e saía da sala. "Passar bem" foi sua despedida.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

[CONTO] O menino

Serra do Lago-ES, 28 de Maio de 2007.

A bruma da manhã envolvia os casarões coloniais à beira do Lago dos Eucaliptos, conferindo à pequena cidade de Serra do Lago um ar enigmático e melancólico. As ruas de paralelepípedos, ladeadas por árvores antigas e cascatas de bougainvilles, sussurravam histórias de tempos passados, enquanto o vento brincava com os reflexos dourados que dançavam sobre as águas calmas do lago.

Jordan Ewan, a delegada de polícia, caminhava com passos hesitantes pelas vielas silenciosas da cidade que um dia chamou de lar. Vinte anos haviam se passado desde que sua mãe partira em busca de novos horizontes nos Estados Unidos, mas agora o destino a trazia de volta, como se as memórias do passado a chamassem de volta para desvendar mistérios enterrados sob as sombras do bosque dos Alves.

Ao receber o comunicado sobre o estranho incidente no bosque, um arrepio percorreu a espinha de Jordan. O menino nu, desprovido de qualquer identificação genética ou digital, jazia desacordado entre as árvores centenárias, como se fosse uma criatura perdida em um conto esquecido. E, no entanto, nenhum registro de seu desaparecimento constava nos arquivos oficiais, como se ele fosse uma sombra entre os vivos, uma anomalia na ordem estabelecida.

A cidade, com suas fachadas caiadas e suas vielas estreitas, guardava segredos tão antigos quanto as próprias pedras que a sustentavam. E agora, enquanto o sol se erguia lentamente sobre os telhados de terracota, lançando uma luz pálida sobre as ruas desertas, Jordan sabia que estava prestes a mergulhar em um mistério que desafiaria não apenas as leis da física, mas também as fronteiras entre o real e o desconhecido. Jordan adentrou a Delegacia de Polícia de Serra do Lago com uma mistura de nostalgia e apreensão. O prédio de fachada colonial exibia marcas do tempo, suas paredes de pedra testemunhando incontáveis histórias de crime e justiça. O aroma familiar de café recém-passado flutuava pelo ar, mesclado com o odor de papel envelhecido e tinta de impressora.

Ao atravessar o saguão movimentado, Jordan foi recebida com olhares curiosos e murmúrios sussurrados entre os colegas de trabalho. Eles não se cansavam de admirar a beleza da ruiva de pele parda e olhos azuis, uma combinação rara de fenótipos anglo-saxões e brasileiros. Ela se dirigiu à mesa da secretária de ofícios, onde a figura cativante da subtenente Bete Ahien se erguia em meio ao frenesi matinal.

"Bom dia, delegada!" Bete cumprimentou com um sorriso travesso, seus olhos castanhos brilhando com vivacidade. "Parece que o retorno da nossa estrela perdida está causando um rebuliço por aqui."

Jordan sorriu, sentindo-se grata pela recepção calorosa. "Bom dia, Bete. Parece que nada mudou por aqui, exceto a quantidade de papelada na sua mesa", respondeu, apontando para a pilha de documentos que pareciam desafiar a gravidade.

Bete soltou uma risada franca. "Pois é, delegada, a burocracia nunca tira folga, nem mesmo para receber uma celebridade como você de volta à ativa após as férias."

A delegada balançou a cabeça em resignação antes de mudar o tom da conversa. "Então, o que você sabe sobre o garoto encontrado no sempre "creepy" bosque dos Alves?"

Bete ergueu uma sobrancelha, pegando um arquivo empoeirado em sua mesa. "Ah, esse mistério. Chegou o caso hoje de manhã. O pobre garoto foi levado para o Conselho Tutelar do município. Estranho, não é? Sem registros, sem identificação... É como se ele tivesse surgido do nada."

Enquanto Bete detalhava os eventos da manhã, Jordan assentiu que sim com a cabeça, ela observava atentamente, absorvendo cada palavra como peças de um quebra-cabeça que começava a se formar em sua mente.

Jordan pegou o arquivo nas mãos e entrou em sua sala. Fechou as persianas e olhou para o nada pensativa. Deslizou os dedos cansados sobre a pilha de documentos, sua mente vagando por um mar de lembranças e desafios. Desde que regressara à cidade há quatro anos, cada dia parecia trazer consigo uma nova dose de peripécias e dramas, como se o destino insistisse em testar os limites de sua determinação.


Em 2004, enfrentara o infame caso Ludovica, uma teia de mentiras e traições que quase custou-lhe a sanidade. No ano seguinte, fora confrontada com uma articulação sinistra de eventos que a Prefeitura e o DIX encobriram sob a alcunha de "Grande Erupção Polar", uma tragédia que ceifara a vida de 23 inocentes, deixando cicatrizes indeléveis na alma da cidade. E quem poderia esquecer o quiproquó envolvendo um ex-prefeito no início de 2006, um escândalo político que agitou as fundações do poder local?

E agora, enquanto mergulhava nas entranhas do misterioso caso do garoto encontrado no bosque dos Alves, Jordan não podia deixar de sentir o peso dos anos sobre seus ombros. A papelada à sua frente revelava uma conexão intrigante: o local onde o menino fora encontrado ficava próximo ao complexo do DIX, um grande elefante branco que ninguém sabia ao certo para que ou porque existia.

Uma faísca de compreensão acendeu-se em sua mente exausta, e Jordan sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Seria possível que o DIX estivesse envolvido neste enigma? Seria este o elo perdido que ligava o garoto sem passado às sombras do desconhecido? Ela revirou a papelada e confirmou que o rapazote havia sido mesmo encontrado nas proximidades da base.

Um momento "Eureka!" tomou conta dela, e Jordan ergueu-se abruptamente de sua cadeira, o sobretudo batendo nos móveis enquanto se esvoaçava em seu despertar súbito. Ela chamou por Bete Ahien com urgência, seus olhos ardendo com a promessa de descoberta iminente.

"Vamos, Bete", ela disse, sua voz carregada de determinação. "Há um lugar que precisamos visitar. E rápido."

O carro cortava as ruas tranquilas de Serra do Lago, rumo ao coração da cidade. Jordan sentia o peso do silêncio entre ela e Bete Ahien, cujo olhar atônito refletia a tensão que pairava no ar. Enquanto isso, a paisagem urbana desfilava diante delas, os casarões coloniais e os cafés pitorescos testemunhando os segredos enterrados sob suas fachadas coloridas. Finalmente, o veículo parou diante de um imponente edifício de frente para a avenida Beira-Lago, com vista privilegiada do lago sereno e da majestosa Igreja ao longe.

Bete olhou surpresa, apontou e disse:

- Conheço esse lugar. Não é o prédio onde sua amiga Daniele mora?

- Sim. - Disse ela concentrada e monótona.

- Ela não estava em Buenos Aires cursando alguma coisa?

- Um doutorado em arqueologia em Montevidéu. Mas não é com ela que vim falar. - Disse Jordan abrindo a porta do carro com a mão direita enquanto a esquerda segurava um copo fumegante de café que começou a beber aos bebericos ainda na DP, que trouxera cuidadosa num porta-copos sobre o painel da viatura.

Jordan e Bete adentraram o prédio, suas sombras projetadas pelos raios do sol das 8 da manhã que atravessavam as janelas. Ao alcançarem o apartamento dos Ribeiro, Jordan sentiu um arrepio percorrer sua espinha, como se estivesse prestes a confrontar fantasmas do passado que se recusavam a serem esquecidos, como na noite da “Grande Erupção Polar”, que ainda  assombrava com garras fantasmagóricas e cortantes surgindo a partir da névoa densa e fria.

Archier Ribeiro as recebeu com a calma habitual, seus olhos escuros observando-os com uma intensidade que não escapava à percepção aguçada de Jordan. Ele parecia um homem de honra, seu porte sereno e sua voz tranquila transmitindo uma aura de mistério que intrigava e inquietava ao mesmo tempo.

Enquanto Bete aguardava na porta com um olhar perplexo, Jordan conduziu o interrogatório como uma amiga preocupada, sondando cuidadosamente as profundezas da mente de Archier em busca de respostas esquivas. Ele sempre parecia saber mais do que deixava transparecer, seus enigmas envolvendo-o em um manto de suspeita que teimava em se dissipar.

"Archier", começou Jordan, sua voz ecoando no silêncio tenso do apartamento, "precisamos falar sobre o garoto encontrado no bosque dos Alves. Você sabe alguma coisa sobre isso?" Um sorriso enigmático brincou nos lábios de Archier, seus olhos reluzindo com uma luz demiúrgica. "Ah, o mistério do garoto sem passado. Interessante como o destino tece seus fios invisíveis, não acha?"

A delegada arqueou uma sobrancelha, a curiosidade aguçada. "Você sabe algo que não estamos sabendo, Archier?"

Ele assentiu lentamente, sua expressão grave. "Há sempre mais do que podemos ver, Jordan. Mas talvez seja melhor você ouvir isso diretamente do garoto."

Jordan piscou, surpresa pela sugestão. "Eu não sei como ainda me surpreendo com você depois de tudo. Mas falar com o garoto? Por quê? Consta nos registros que ele não tem nenhuma memória."

Archier sorriu enigmaticamente, sua figura imersa em sombras de mistério. "Algumas respostas estão além das palavras, minha amiga. Às vezes, é preciso ouvir o silêncio para encontrar a verdade. E em alguns casos, é mais curioso ainda ver a verdade quando se olha pra ela."

- Tenho vontade de te perguntar como você sabe das coisas que sabe. Mas como você sempre é um informante precioso e sei que não vai sair do seu papel reprisado de mestre dos magos, vou aguardar um pouco mais até poder perguntar isso oficialmente. Uma hora você não me escapa. Diz Jordan sorrindo e ameaçando.

Archier sorriu sarcasticamente enquanto Jordan se levantava e colocava seu sobretudo. Um calafrio percorreu a espinha de Jordan. Com um aceno grave, ela se despediu de Archier, a mente já trabalhando nas próximas etapas de sua investigação.

- Porque viemos aqui, afinal? - Perguntou Bete. - Não ficamos nem 10 minutos.

- Nem eu mesma sei. Archier tem o poder de ser o juiz da minha consciência. Não me pergunte como ou porquê, mas ele sempre sabe o que dizer ao certo. - Respondeu a ruiva.

O carro parou diante do Conselho Tutelar, um prédio modesto de tijolos enegrecidos pelo tempo, suas janelas em arco olhando para o mundo com uma expressão de resignação. Jordan permaneceu sentada por um momento, respirando fundo para reunir sua coragem. Casos envolvendo crianças sempre a abalavam, um eco doloroso do histórico de sua mãe e de suas próprias experiências. Ao seu lado, Bete iniciou uma torrente de conversa trivial, mencionando Daniele e o irmão, Augusto, em um tom jocoso.

"Você não acha, Jordan, que a Daniele é meio tapada de ter ido para Buenos Aires estudar sei-lá-o-quê e ainda fircar esse tanto tempo com o Archier num casamento a distância? E o Augusto? Ele tá caidinho por você...", brincou Bete, cutucando Jordan no cotovelo.

Jordan sorriu de leve, embora sua mente estivesse em outro lugar. "Já disse. Ela está em Montevidéu” corrigiu Jordan com tom de voz seco. Percebendo, porém, que pode ter soado desajeitada com a amiga, tentou logo contornar... “Ah, Bete, cada um tem seus mistérios. Quem sabe o que atrai as pessoas uns aos outros, não é mesmo?" Adentrando o Conselho Tutelar, Jordan foi recebida por um ambiente melancólico. Funcionários aborrecidos arrastavam-se pelos corredores, como se fossem almas penadas arrastando correntes matinais. Finalmente, uma funcionária chamada Solange a atendeu, trocando informações sobre o caso do garoto encontrado no bosque dos Alves.

"É uma situação triste, delegada", disse Solange com um suspiro pesaroso. "Esse menino tem algo especial nele, algo que mexe com todos nós aqui. Mas ele precisa encontrar uma família, alguém que possa cuidar dele de verdade. Acho que ele não dura muito no sistema, e acha alguém logo para a adoção, mas seria muito triste uma criança tão boa e doce não ter uma mãe que se importe."

Curiosa, Jordan pediu para falar com o menino. Bete seguiu-a em silêncio, seus passos ecoando como um eco vazio no ambiente sombrio do conselho, enquanto Solange a guiava a uma sala onde havia alguns puffs coloridos e um tapete de EVA espesso em forma de quebra-cabeças. Na mesa um quebra-cabeças de mais 40 peças montado com a imagem de um circo de lona colorida. O menino, de cabelos cor de bronze e olhos castanhos, estava de costas quando Jordan o viu pela primeira vez, olhando perdido para a janela que dava para um terreno baldio sujo e enlameado.

"Olá, Como você está?", perguntou Jordan com gentileza.

O menino virou-se lentamente, um jovem adolescente de 15 anos, um sorriso tímido curvando seus lábios. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, Jordan sentiu seu coração pulsando de ternura enquanto o menino andou em sua direção.

"Mãe!", exclamou o menino, lançando-se nos braços de Jordan com uma mistura de alegria e alívio. Jordan envolveu-o em um abraço caloroso, as lágrimas em seus olhos refletindo o turbilhão de emoções que a envolvia. Tão puro. Tão verdadeiro. Talvez fosse mãe dele mesmo, se não fosse pelo incômodo fato de que não era. Nem Bete e nem Jordan sabia o que estava acontecendo, mas por um segundo, sentiram que aquilo era verdade.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 4.2

 Ivan passou por um mendigo cabisbaixo encostado na mureta do chafariz em construção e perguntou:

- Opa, firmeza?

O mendigo olhou para ele como se visse uma parede em branco, sem qualquer emoção. Não respondeu.

- Então, é cedo ou a cidade é bem paradona assim mesmo?

O mendigo sorriu com a boca meio torta (ou pelo menos pareceu, pois estava parte dela embaixo de uma barba suja e desgrenhada) e disse:

- Esse lugar não tem muita vida, se é que me entende.

- Então, estou vendendo uns cigarros e vejo que o senhor tem aí 10 reais. Te faço esse pacote aqui por 10, o que acha? - Ivan queria ver o quão maleáveis eram os citadinos.

O mendigo coçou a barba e pensou que fumar daria um bom alívio naquele que seria mais um dia de cão.

- Tá, tá! Me vê o pacote aí. - Disse o mesmo apontando para o chapéu.

Ivan se abaixou, pegou o dinheiro e deixou o pacote. O mendigo desembalou um maço, retirou um cigarro e perguntou: - Tem isqueiro?

Ivan acenou com a cabeça positivamente, pegou o isqueiro no bolso e deu ao  mendigo. 

- Cortesia. - finalizou.

O mendigo agradeceu com olhar meio insano.

- Você é gente boa, é melhor ir embora antes de arranjar problemas. - Disse ele entre uma tragada e outra - Conselho de quem conhece a vizinhança.

Ivan franziu o cenho curioso.

- Como assim?  - Perguntou.

- Acredite em mim. Você não vai querer saber. Se quiser dar uma olhada, fique a vontade, mas não fique muito tempo e evite ficar de prosa. 

Ivan achou aquilo estranho. Havia achado o local perfeito para se instalar e recomeçar o império do crime de sua família, mas um estranho mendigo no meio de uma praça semi-deserta o havia recomendado o contrário. Ivan já havia trocado tiros com milicianos, traficantes e policiais. O que um bando de caipiras que falam de bombacha e que falam "tchê" poderiam fazer de mal? nem na rua punham as caras!

- Obrigado pelo conselho... - Ivan falaria algo mais mas o mendigo, com cortesia zero o interrompeu.

- Cala a boca. Evite ficar zanzando nas bordas da cidade. Coisas ruins acontecem por lá e, se possível, vá embora antes de anoitecer.

Ok, o cara me mandou calar a boca - pensou Ivan - agora esse cara está me aborrecendo.

- O que poderia acontecer de ruim? 

O mendigo olhou para Ivan com olhar ensandecido após uma tragada e começou a rir com tom de voz fraco, mas sem cessar.

Ivan se aborreceu mais ainda, mas preferiu sair e tentar um diálogo com alguém menos louco. Já estava se sentindo patético de perder tempo com um mendigo. Só Deus sabe que tóxicos essa cara já deve ter usado, pensou. Ivan acenou ironicamente, como quem dava adeus e foi saindo em direção a um banco atrás em diagonal. O mendigo pareceu achar ainda mais graça do gesto.

Ivan fez isso pois viu uma jovem magra mas de belo rosto sentada num banco mais atrás olhando para a praça distraída, e quando se aproximou quase não percebeu o olhar de pânico que ela fez.

- Er... Olá, jovem. Está tudo bem?

A moça engoliu o soluço que estava prestes a soltar e acenou positivamente com a cabeça.

- Você sabe onde tem um mercado aqui? Eu não sou daqui estou de passagem vendendo algumas quinquilharias. - Disse ele ainda desconfiado.

A moça, pálida, ficou uns dois segundos olhando para ele inerte antes de responder.

- A.. Aqui atrás tem um. - E apontou o polegar direito para a porta do estabelecimento.

Ivan achou o comportamento bizarro. Essa gauchada roceira, gente esquisita, pensou ele.

A moça pareceu desinchar e corar de novo, como quem soltasse um ar aliviado.

- Tem certeza que está tudo bem? - Ivan tornou a perguntar.

- Sim, sim. Peço desculpas. Achei que fosse outra pessoa. - Disse a moça.

- Qual seu nome?

- Jéssica - respondeu ela.

- Prazer, Ivan - disse ele estendendo a mão como quem esperasse um cumprimento igual - Você é daqui?

Jéssica estendeu a mão e quase se arrependeu com o aperto de mão forte a ponto de estalar os ossos que Ivan deu.

- Não, não. Estou só de passagem também. - Respondeu.

- Fuma?

- Já fumei quando mais jovem. Hoje não, preciso do meu corpo saudável para trabalhar... Mas nada contra - Disse ela.

Ivan achou a justificativa estranha. Pensou que a moça era prostituta, mas não falou nada. Apenas remoeu a informação e pensou: Ótimo, Ivan. Com o mendigo e a moça você já pode montar um camelódromo e um puteiro na cidade.

- Bem, eu vou entrando. Obrigado pela atenção. - Disse encaminhando-se para a porta do mercado. Se não fosse pela indicação de Jéssica, Ivan não teria notado tamanha a degradação da tintura do letreiro na parede. Entrou, viu o mesmo cenário que Jéssica. Um caixa que parecia estar dormindo de olhos abertos e um arrumador de prateleiras tão sem vida quanto. Ao se aproximar percebeu que ambos tinham um tom de pele acinzentados, chegou a levantar os óculos para confirmar e ao confirmar, começou a temer que o mendigo tivesse razão. Porém, achando-se ridículo, afastou os maus pensamentos com uma hipótese mais prosaica. 

Esse povo não deve tomar sol, carência de Vitamina D eu acho. - pensou.

- Olá, em que posso servi-lo, senhor? - Perguntou o caixa.

- Sou Ivan, vendo cigarros e outros produtos. Vocês estão comprando algo? Tenho cigarros e aparelhos de IPTV. 

O caixa pegou uns papéis debaixo do caixa registrador antigo (um modelo que devia datar da década de 70) e olhou. Pareceu fazer contas e respondeu com voz lenta e monótona:

- Sim, senhor. Compramos sim.

Ivan deu um preço cinco vezes maior que o que deu ao mendigo na esperança do vai que cola e, sem pensar duas vezes, o caixa retirou os 50 reais e pagou-o. Ivan deixou o pacote de cigarros sobre o balcão, pegou o dinheiro, conferiu para ver se era verdadeiro e, confirmando, pôs na carteira.

- Obrigado. - disse Ivan ainda incrédulo - Vocês sabem quem compra eletrodomésticos na cidade? - Complementou.

O caixa continuou olhando para Ivan sem nada responder.

- Sabe? - Insistiu.

...

Silêncio apenas.

- Olá, em que posso servi-lo, senhor? - Perguntou o caixa com voz idêntica a que falou da primeira vez.

Ivan já estava se sentindo estranho na cidade e o sujeito ficar encarando-o sem responder e depois repetir tal qual um gravador a fórmula mais que decorada de "em que posso servi-lo" o fazia se sentir mais estranho ainda. Ivan, por fim, acenou com a cabeça e se despediu.

- Err... Obrigado.  - falou saindo.

- Volte sempre - disse o caixa com olhar inerte.

Ivan ao voltar seus olhos novamente para a praça viu que a moça já se havia levantado do banco e estava conversando com duas outras pessoas do outro lado da praça. O mendigo por sua vez olhava para ele rindo as gargalhadas e fumando animadamente o cigarro.

Ivan teve um mau presságio.


sábado, 10 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 4.1

Jéssica desceu do carro que deixara estacionado próximo a um ponto de ônibus na entrada da cidade. Como a cidade era pequena, pensou: pode ser uma boa ideia poupar gasolina e andar a pé na cidade, já que ela me parece bem pequena. Jéssica então, decidiu procurar uma hospedaria ou hotel. Em seus anos na vida noturna, estava acostumada a dormir nos locais moralmente mais inóspitos, de boates a motéis, então, um hotel de cidadezinha pequena não seria problema.

A medida em que se aproximava do centro da cidade (o que não demorou quase nada), sentiu fome. Quando atravessava a estranha praça central, parou e refletiu um pouco suas prioridades: não faria nenhum mal comer antes de me hospedar em algum lugar. Jéssica virou sua cabeça, o que fez escorrer pelos seus ombros sua cabeleira castanha. De imediato viu um supermercado, numa construção que mais parecia uma casa de colonos alemães mal pintada, onde o letreiro do mercado, pintado com tinta azul, agora estava desbotado e descascando. Abriu sua caretira, revelando sua identidade e os cartões de banco, e verificou quanto dinheiro ainda tinha. Contou as notas e falando consigo mesma em voz baixa disse:

- 470 reais... Nada mal - pensou.

Guardou a carteira no bolso traseiro do minúsculo short jeans que vestia, revelando suas pernas magras mas bem torneadas pelos anos de dança, onde na coxa direita, havia um anel tribal tatuado ao redor dela. Apesar de o dia estar nublado e frio, temia que alguém a reconhecesse dado os eventos dos últimos dias, por isso baixou seus óculos escuros, antes sobre a cabeça, agora no lugar correto. O óculos cintilava e dava um ar imponente a nossa dançarina, combinando bem com um piercing argola no nariz e um pequeno perfurando a bochecha esquerda.

Caminhou confiante em direção ao mercado (ou pelo menos tentou demonstrar isso, embora não fosse verdade) e, ao entrar se surpreendeu com quão pouco movimentado o mercado era. Havia apenas um caixa e um rapaz organizando umas poucas prateleiras. Nenhum comprador. Nenhum. Foi então que lhe ocorreu que no lado externo também não havia visto nenhum pedestre pela cidade.

Era um dia frio - pensou - as pessoas devem estar em casa com cobertores pesados, meias grossas e tomando chimarrão. Isso lhe deu um certo otimismo, muito pouco provavelmente a reconheceriam e, com tão poucos cidadãos nas ruas, o risco ainda seria mais diminuto. Começou a caminhar por entre as prateleiras a procura de algum salgadinho ou guloseima. Embora Jéssica fosse magra, gostava de besteiras que poderiam lhe render "algumas boas" estrias ou celulites que, se não fosse sua boa rotina de treino, já existiriam a essa altura.

Antes porém, que localizasse as guloseimas por si mesma um atendente a abordou.

- No que posso ajudá-la senhora? - Disse ele com voz monótona e lenta.

Senhora? - Jéssica pensou com bom humor - Ou eu pareço velha ou esse rapaz é um gentleman. - Concluiu.

Como dançarina de pole dance, uma dança sensual que pode eventualmente envolver topless, Jéssica estava acostumada a ser confundida e tratada como prostituta pelos homens, portanto, "senhora" lhe soava pitoresco. Coisas do interior - pensou.

- Ah sim, quero de um salgadinho, alguma coisa barata. - Disse ela.

O rapaz, com olhar morto e sem vida respondeu da forma mais seca e esquisita possível:

- Siga-me.

Jéssica ainda estava tão encafifada com o "senhora" e com sua preocupação em ser reconhecida por alguém, que nem notou as feições semi-mórbidas do rapaz. Após apontar o local das guloseimas, o rapaz voltou ao seu afazer monótono de organizar prateleiras, tão monótono quanto seu olhar desinteressado ou sua fala sem vida. Jéssica sacou um pacote de fandangos, foi até o caixa, pagou sem prestar muita atenção a pessoa que lhe atendera, tão estranho ou sem vida quanto o outro atendente e saiu.

Caminhou concentrada olhando para o pacote que estava abrindo e se dirigiu a um banco de praça que estava próximo ao mercado. Foi quando viu a primeira viv'alma da cidade. Um mendigo que se sentara no que parecia ser um chafariz inacabado ou seco. Ele estava com roupas esfarrapadas como qualquer mendigo, cabelos grisalhos desgrenhados como de qualquer mendigo de meia idade e um pequeno chapéu virado de boca para cima no chão, como se esperaria de qualquer mendigo. Jéssica que conhecia bem a sensação de ser considerada alguém a margem da sociedade se compadeceu, deu-lhe uma nota de 10 reais.

Ouviu um obrigado com voz trêmula, ao que ela respondeu com um sorriso amigável. Retornou ao banco e sentou degustando o salgadinho. Após alguns minutos perdida em pensamentos, finalmente relaxou um pouco, e pôs-se a observar a praça. Uma praça esquisita - pensou.

A praça era apenas uma enorme calçada quadrada, sem gramado e com alguns poucos bancos espalhados nas extremidades, próximos aos estabelecimentos comerciais adjacentes. Tinha no seu centro um enorme chafariz inacabado. A borda dele - que lhe servia também de paredes - devia ter um metro e dez centímetros de altura, mas o seu interior não estava preenchido por concreto, era apenas terra batida com um punhado de mato, num formato côncavo, onde o meio era mais profundo que suas extremidades, quase como se uma coisa pesada tivesse caído ali e afundado a terra no meio. Havia ainda um coreto branco de madeira vazio no meio da praça. Foi quando percebeu que nunca tinha visto um coreto fora dos filmes ou das novelas de época - sentiu um desejo de ir até ele, mas resistiu e preferiu ficar comendo o salgado. Nesse momento, Jéssica viu o que parecia ser o segundo transeunte da cidade se aproximando, na verdade vinha pela rua na frente da praça um carro velho, um Chevrolet Monza vinho, popularmente conhecido como "Monza Tubarão". O seu dono estacionou próximo a praça, demorou um pouco para sair, mas desceu do carro. Pareceu ajeitar algo na cintura e caminhou em direção ao centro da praça, como quem se dirigisse para falar com o mendigo.

Sua figura era estranha, usava uma camisa de flanela aberta no peito, revelando um crucifixo de prata e os cabelos no tórax, parecia friorento. Seu chapéu era o tipo que se esperava de um malandro e usava um ray-ban tão falso quanto o que ela mesma estava usando. Se aproximou do mendigo e pareceu ter lhe vendido alguma coisa que o mendicante comprou com o dinheiro que ela havia dado. Conversou algo com o mendigo e na sequência o homem voltou seu rosto para ela, caminhando na sua direção.

Jéssica gelou. - Será que é alguém enviado por Gustavo? - pensou - Não acredito que ele me achou! - Jéssica só pensou que tomaria outra surra, agora numa cidade onde não conhecia ninguém e onde não haveria ninguém para lhe ajudar. Apertou a mão contra o bolso esquerdo do short, onde havia colocado um canivete que sempre carregava para auto-defesa.

O homem se aproximou dela, abriu um sorriso meio sádico e parecia que ia dizer algo, quando Jéssica pensou: ferrou!

terça-feira, 6 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 3

Velaski estava sentado em sua cama enquanto tentava não olhar no rosto de seus pais. Sua mãe, uma mulher batalhadora e trabalhadora manifestava grande desapontamento pelo filho. O pai, cuja presença era meramente simbólica, estava manifesto numa foto dentro de um porta-retratos sobre a mesa de cabeceira da cama, com olhos semicerrados e focados em quem o observa, como se o julgasse desde cima.

Velaski sempre fora o garoto problema da família, não foram poucas vezes que a mãe teve de sair do trabalho para ir a escola para resolver seus problemas disciplinares, ás vezes com brigas, ás vezes com vandalismo, enfim. Após sair do ensino médio e após não conseguir se estabelecer na vida, tendo tido tantos empregos quanto meses no ano, Velaski decidiu apostar na via do crime. Nada excessivamente grave, pequenos furtos e punga. Mas mesmo no seu caos interior Velaski tinha uma noção bastante aprofundada de certo e errado, sabia que o que fazia e como se comportava era errado. Mas era mais forte que ele. Ele sempre sentia um impulso profundo, como que vindo do mais inacessível espaço do espírito que lhe levava a fazer as coisas que nem sempre desejava. Quando furtava, furtava apenas o necessário para si ou coisas de pequeno valor, como canetas, lixas de unha ou pendrives. Quando batia uma carteira, retirava o dinheiro e deixava os documentos, punha a carteira em algum lugar visível para que pelo menos os documentos fossem recuperados. Certa vez, roubou uma carteira com vários cartões de crédito. Deixou os documentos, afanou o dinheiro e jogou os cartões no esgoto. Não queria que outro oportunista desse golpes maiores nas pessoas.

Certo dia, no centro de Pelotas, viu um homem forte "dando mole" com a carteira, oportunidade perfeita. Imediatamente cercou-o e pegou com seus dedos leves a carteira. Para sua infelicidade, uma mulher numa sacada de prédio (que ele não havia percebido) viu seu movimento semi-malicioso e gritou. O homem virou-se, agarrou seu braço e o agrediu várias e várias vezes. A vizinha chamou a polícia e Velaski foi encaminhado a delegacia. Após algumas horas a mãe chegou a DP com um defensor público e com suas parcas economias para pagar uma fiança. O retorno para casa foi a parte mais branda, já que um silêncio enorme se manteve entre os dois. Foi em casa que a coisa não ficou boa. Sua mãe, irritada, jogou a bolsa no sofá com força e arremessou um copo americano no chão da cozinha.

Velaski se assustou. nunca vira a mãe tão irritada.

- Você é uma decepção na minha vida! - Disse ela entre lágrimas e grunhidos de ódio.

- M-ma-mãe? - A voz de Velaski mal saía.

- Eu não vou deixar você se perder na vida... Não... Não mais do que já se perdeu! - Diz ela com ódio na voz.

- Desculpa, eu não sei o que... - Velaski não teve tempo de terminar quando sua mãe ergue a voz como um trovão apertando seu pulso.

- Eu tenho um irmão que se mudou para uma cidade no interior a 3 anos. Nunca mais falei com ele, mas ele era rígido com os filhos e você vai ficar com ele. Vou te mandar pra lá! - Diz ela.

- Lá? Onde?

- Crescente. 

Velaski pausa seus raciocínios um segundo e pensa: - Que lugar é esse? Nunca ouvi falar.

- Como vou achá-lo se você não tem contato com ele? - A voz de Velaski sai meio gaguejada.

- É uma cidade pequena. Se vire. Quem tem boca vai a Roma. - Disse ela sem muita esperança.

No dia seguinte Velaski entrava num ônibus enquanto era observado pela sua mãe, um ônibus com ndestino a morte certa.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 2

Ivan estava tendo um dia difícil. Mas a expectativa até que era boa, pois, afinal, se tudo desse errado, ainda tinha seu sobrenome que era muito importante. Andrade, não que isso seja uma vantagem real mas, até que as pessoas tenham a big picture, o nome Andrade no mundo das ilegalidades ainda soa forte. Ivan tinha nada mais na menos que um parentesco bem distante (mas não negligenciável) com o famoso bicheiro carioca Castor de Andrade.

Até que as pessoas percebessem que Ivan tinha mais lábia e bravata do que influência, seu sobrenome ainda era imponente. Mas isso não muda o fato de que Ivan estava tendo um mau dia. Ivan era parte de um esquema de venda de produtos contrabandeados no Rio de Janeiro. Acostumado com o calor, Ivan jamais pensou que, poucos dias após os quiproquós de hoje, estaria preocupado em lidar com terrível inverno gaúcho.

O dia começou até que bem, o chefe do esquema confirmou com ele e mais dois colegas de que um carregamento de cigarros do Paraguai e aparelhos de IPTV estavam para chegar e que a recepção seria feita a noite na zona portuária do Rio. Era, claro, algo muito arriscado, afinal de contas, contrabando é feito "na moita" e não em contêineres nas docas. Mas o fato é que o chefe do esquema havia assegurado que o esquema estava todo certo e fechado com um operador de grua, com o dono do cargueiro e com funcionários do porto para fazer os produtos que chegarem se passarem por outros produtos legais. Claro, tudo mediante a relatórios fraudados, notas frias e algum suborno.

Ivan, "Zóio de Gato" e Ronicley foram destacados para supervisionar e fazer a recepção das mercadorias naquela madrugada. Entretanto, faltando poucos minutos para iniciarem-se as operações, Ronicley desaparece, deixando Ivan e Zóio de Gato na mão. Era suspeito, claro! Ronicley nunca sumia em dia de serviço, mas não eram raros os dias em que seu celular só dava ocupado porque ele estava ocupado bebendo num churrasco ou em algum puteiro da baixada. Aquele desfalque deixou os dois protagonistas deste conto furiosos, pois a carga de trabalho de cada um seria aumentada para compensar a falta de uma pessoa.

Ao chegarem ao local da transação, Zóio de Gato e Ivan já estavam bastante aborrecidos e a sequência dos acontecimentos tenderia a piorar a situação. Zóio de Gato, que estava sem carteira e tinha batido o carro teve de ir ao porto no carro de Ivan, um monza velho de cor vinho, apelidado de "tubarão" devido ao seu formato. Ambos desceram do veículo e foram conversar com o contato indicado. Após alguns minutos de acalorada negociação, o contato acena para alguns funcionários que os guiam até o contêiner. O operador de grua ergue o enorme caixote de ferro e o deixa posto num logradouro mais acessível. Os funcionários abrem as portas e começam a carregar  os produtos para um caminhão que o chefe do esquema havia alugado alguns dias antes, e que Ronicley havia deixado 24 horas no pátio do estacionamento anexo ao porto.

A ideia era simples: Ronicley dirigiria o caminhão e Ivan e Zóio de Gato seguiriam de carro para fazer a escolta. Sem Ronicley na área, Zóio de Gato teria de dirigir o caminhão. A entrega da carga estava indo bem até quase no seu final, que é quando as coisas começam a ficar estranhas.

Sirenes. Luzes. Helicópteros.

A polícia baixou no pedaço e o pipoco comeu para todo lado. Ivan sacou seu 38 e deu alguns disparos enquanto corria em direção ao carro. No desespero, Zóio de Gato deixou cair algumas caixas de cigarro paraguaio. Ivan pegou os pacotes e correu em direção ao seu carro. Antes de entrar deu mais dois disparos. Jogou os pacotes no banco de trás junto com a arma e saiu correndo. Zóio de Gato entrou no caminhão, tentou dar partida uma, duas, três vezes, em vão. O que ambos desconheciam é que Ronicley era um x-9; um ex-presidiário em condicional que estava por dentro do esquema para dar informações para a polícia, que esperou até ter um grande carregamento para agir. Ronicley antes de chegar ao posto trocou de caminhão no meio do caminho por um de mesma marca da polícia. O caminhão da polícia tinha um sistema elétrico de partida via satélite que poderia desativar o motor e impedir a partida remotamente.

Sem meios de fugir, Zóio de Gato acabou preso junto com todos os funcionários do porto envolvidos no esquema de corrupção. Ivan conseguiu escapar. Embora não tivesse conhecimento dos detalhes da missão policial acima mencionados, tinha vivência e experiência suficientes para saber que uma operação policial daquele tamanho não foi feita para prender só peixes pequenos como ele. E que o esquema todo estava desmontado. Definitivamente, aquele era um dia ruim!

Após virar várias quadras despistando a polícia, Ivan consegue achar uma brecha no bloqueio e escapar. Ele sabia que não poderia ficar no Rio e que se não quisesse ser preso teria que ir para bem longe dali. Parou num posto de gasolina a alguns quilômetros dali para reabastecer. Abaixou os óculos escuros e colocou um chapéu panamá para evitar ser reconhecido. Pagou o atendente do posto e caiu na estrada por horas.

Paranóico, olhava no retrovisor de 30 em 30 minutos para se assegurar de que não estava sendo seguido. Durante umas três horas quase chorou achando que sua vida estava acabada, até se dar conta de que aquilo, talvez, fosse uma oportunidade. Sim! É! Uma oportunidade de fazer o nome de sua família respeitado outra vez! Sem ser subalterno de ninguém! Mas aquilo não poderia ser no Rio... Do nada, o medo deu lugar a planos e mais planos... Quando completaram-se quatro horas de viagem, já quase na fronteira com São Paulo, Ivan tinha bolado o esquema perfeito de contrabando.

1- Ir para uma pequena cidade - Nesses locais o policiamento é menor e há menor atenção das autoridades.

2- Teria de ser uma cidade fronteiriça para o custo das operações de contrabando não serem altos. O ideal seria algum lugarejo no Mato Grosso do Sul ou no Rio Grande do Sul, onde o acesso ao Paraguai seria fácil. Fosse por acesso direto ou por meio do Uruguai pelo Rio da Prata.

Ivan seguiu dirigindo sem dormir. Estava exausto, mas animado. Havia conseguido fugir da polícia. Ao parar num restaurante de beira de estrada para comer, aproveitou a ocasião para olhar num mapa que estava pendurado na parede interna do restaurante. Olhou no Mato Grosso do Sul. Achou várias cidades promissoras e, quando estava prestes a se decidir, se deu conta de que ir para lá seria muito óbvio. Seria menos custoso, é claro, mas óbvio demais. Se ele fosse policial e estivesse procurando um contrabandista, obviamente, procuraria lá.

O Paraná também teria o mesmo problema, então optou por uma cidadezinha gaúcha, uma tal de Crescente. Lugar que era diminuto no mapa e que nunca tinha ouvido falar. Ficava próximo da fronteira com o Uruguai, mas não o bastante para chamar a atenção. Pagou a conta do almoço e caiu novamente na estrada. Dormiu em alguns acostamentos e passado alguns dias já estava chegando ao seu destino. Após deixar a rodovia e tomar uma estrada vicinal asfaltada, Ivan ainda dirigiu cerca de 40 minutos até avistar na subida de uma colina coberta por névoa uma placa com os dizeres: Bem-vindo a Crescente-RS; fundada em 1950; 800 habitantes.

Ivan entrou na cidade e, além do clima frio estranhou o pequeno movimento na cidade. Virou duas curvas a direita e chegou a uma grande praça, onde o único movimento era uma moça sentada num banco e um mendigo próximo ao que parecia ser um grande chafariz. Antes de descer, deu uma olhada no retrovisor por segurança, encheu o tambor do seu revólver calibre 38 e pôs na cintura. Ajeitou a camisa para cobri-lo, respirou fundo e desceu sorridente para o pior erro da sua vida.



quinta-feira, 1 de julho de 2021

[Contos] O mistério do "Vale do Nada" - Parte 1


Aquela manhã era "quase" como uma manhã como muitas outras na vida de Jéssica. Uma manhã cansada do trabalho da noite passada, afinal dançar em um pole é uma atividade extremamente extenuante que exige um esforço físico digno de uma ginasta, além de várias apresentações de músculos e tendões fortes e elásticos por várias horas.

Mas eu disse "quase". Aquela manhã era uma manhã diferente para nossa dançarina em questão. Como não poderia deixar de ser na vida de alguém que se aventura em ser dançarina em boates, as razões que a levaram a seguir esse caminho na vida não foram recentes e possuem um longo histórico de erros e descaminhos. Jéssica Levine nasceu em uma família de classe média, e como consequência disso tinha tudo para dar certo na vida, se não por por um "exceto". Exceto que foi ela quem descobriu o adultério do pai com a empregada doméstica de sua família ainda aos sete anos. E foi da pior forma que poderia ser, após presenciar o coito entre o seu progenitor e a assistente doméstica. Tudo se passou numa noite em que a mãe tinha viajado a trabalho e o pai ficara sozinho em casa. Jéssica, que dormia cedo como toda criança deve dormir, teve um pesadelo naquela noite. E como é comum em crianças, e mais especialmente em meninas, o medo provocado por um pesadelo leva imediatamente a busca desesperada por socorro e proteção, no caso de nossa criança, os confortáveis braços e cama de casal dos pais. Aquela noite mudaria a vida da pequena Jéssica para sempre, pois foi seu primeiro e desafortunado primeiro contato com o sexo. Morando numa casa grande, seu pai não ouviu seu choro e seus grunhidos, estava "distraído" com "outras coisas" se é que você me entende. 

A pequena Jéssica caminhando meio tonta e amedrontada pelos corredores que ligam o quarto dela ao dos pais, não percebeu que haviam vestes caídas pelo chão, vestes que não eram as de sua mãe. Seu bichinho de pelúcia, um simpático jabuti a desequilibrava um pouco devido ao peso, pois apesar de já ter uma idade considerável para uma criança, um fato que sempre acompanhou Jéssica na vida é a sua magreza visível. Aproximando-se da porta com passos macios, abriu-a lentamente, sem fazer barulho e pode testemunhar seu pai e a empregada executando a traição. Jéssica ficou mesmerizada por alguns segundos, talvez um minuto. Em seguida retornou ao quarto sem ter ainda plena consciência do que havia visto. Mas aquilo lhe havia tocado profundamente de alguma forma, a ponto de fazer-lhe esquecer do medo, embora não soubesse como ou porque.

Passaram-se ainda alguns anos antes que Jéssica tivesse a consciência do que vira e das implicações daquilo, e foi com 11 anos, já na puberdade que Jéssica entendeu o seu chamado de Afrodite, e tudo ocorreu na sala de aula de uma das escolas de ensino fundamental de Porto Alegre, durante uma aula sobre o sistema reprodutivo. Tal chamado foi o mesmo que nascera em si no dia daquele infausto acontecimento de quatro anos antes. Quando completou 12 anos, Jéssica foi surpreendida pela separação dos pais. Sim, foi surpreendida, pois nunca vira os pais brigarem nem discutirem. Naquela semana de seu aniversário, achou-os um pouco chateados e também muito ocupados com a festa. Mas nada que ela não pensasse que não poderia ser resultado de uma semana exaustiva de trabalho. E após aquela que foi sua festa mais cara e também a melhor festa de aniversário, veio aquela que seria sua maior decepção com a humanidade. No dia seguinte aos bolos, presentes e doces, sua mãe chamou-lhe no seu quarto e anunciou que "papai e mamãe não podem mais viver juntos" e que "papai gostava de outra mulher e que mamãe não confiava mais em papai". Poucas coisas são piores que ir da alegria extrema para o vale da depressão, Jéssica não só chorou de tristeza, mas chorou de raiva, raiva de si mesma.

Seu pai nem sequer fez questão de lutar pela sua guarda. Simplesmente foi embora, sem jamais olhar para trás. Nada de visitas pontuais ou de guarda compartilhada. Esquecimento. Só. Com uma mãe infeliz, afundada em medicamentos antidepressivos e focada no trabalho, Jéssica teve a adolescência livre de amarras e rédeas. Começou a beber aos 13, fumou seu primeiro cigarro de maconha aos 14, ano que coincidiu com seu primeiro namorado e a perda da virgindade. Envolveu-se tanto com rapazes bons como com ruins, embora os últimos fossem seus favoritos, talvez punindo suas "daddy issues". E foi quando revelou a mãe que sabia da traição do pai desde os sete anos, numa das muitas discussões que tivera com ela devido a más notas na escola e mau comportamento, que decidiu sair de casa. Na verdade, foi posta para fora aos 18 anos, após ter repetido o segundo ano um par de vezes. 

E ali foi a ocasião ideal para dar finalmente vazão ao seu Chamado. Começou como dançarina de pole dance no mesmo ano, arte que aprendeu com uma amiga que fez nas muitas "matadas de aulas" ao longo de sua estadia no ensino médio. E quando chegou aos 22 anos já era uma stripper numa casa noturna. Ainda não chegara ao vale profundo e escuro da prostituição, mas era o passo lógico se não fosse por um certo segurança de boate. Explico: Nesse meio tempo, envolveu-se com Gustavo, um rapaz drogado que era segurança da boate. Parecia ser atencioso apesar de tudo, mas numa noite de inverno após muitas carreiras de cocaína, decidiu fazer Jéssica de saco de pancadas, e foi de socos a pontapés, que deixou Jéssica desacordada. Após cair em si, Gustavo roubou o dinheiro do pagamento de Jéssica e fugiu. Jéssica passou ainda uma semana digerindo a surra, até os hematomas sumirem junto com as dores, e foi quando recebeu uma mensagem de sua amiga se compadecendo dela - pois como se sabe, no submundo dos bares e boates adultos, todos se conhecem e as informações correm rápido - , amiga esta que era a mesma que lhe ensinara a dançar no pole. A mensagem dizia de que ela havia se mudado para uma cidadezinha no interior a poucos dias, e que estava pensando em recomeçar sua vida por lá. Arroio do Padre era o lugar, ficava próximo a Arroio Grande, na serra gaúcha. Ali lhe brotou a ideia de que talvez precisasse recomeçar, e que sua amiga poderia lhe ajudar. Então, ligou seu carro - um simpático Ford Ka - e caiu na estrada rumo ao interior.

E chegamos então, enfim, a manhã como todas as outras ou quase, em que na expectativa de recomeçar sua vida num lugar melhor, Jéssica enfrenta o frio atroz do inverno e das altitudes do Rio Grande do Sul rumo a uma cidade que não conhecia. Como a viagem era longa, decidiu se hospedar num hotel numa cidade menor no meio do caminho, uma cidadezinha estranha, sempre envolta de neblina, com aproximadamente 800 habitantes, cidade esta que foi o maior erro de sua vida. Crescente, RS.

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