domingo, 6 de julho de 2025

[ARC] DIÁRIO DO INDIE

 Diário do Indie Boy, Arthur Reese-Coller (ARC).


2 de outubro

A bomba caiu no café da manhã: estamos nos mudando pra uma tal de ilha Drauka. Litoral, mar, brisa... e conservadorismo com cheiro de mofo, cortesia dos meus pais. A casa nova parece saída de um conto gótico florido — primavera por fora, outono por dentro. Steph fingiu não ligar, como sempre. Eu? Finjo também. Mas talvez essa mudança seja minha chance de deixar pra trás o Arthur medroso de São Bernardo. Quem sabe eu vire alguém que não treme ao pedir ketchup extra. Pequenos passos.

12 de novembro

Ok, admito: a casa nova é linda. Tem aquele ar de que alguém morreu poeticamente aqui em 1912, e eu aprecio isso. Os tijolos e refratários me abraçam como se entendessem minha alma dramática de adolescente insuportável. E o piano-armário? Ficou perfeito na sala — acessível, equilibrado... quase uma metáfora do que eu queria ser. Meus pais continuam sendo o casal católico praticante do Apocalipse, mas ando tentando treinar minha coragem. Tipo a Steph, que quando me vê na varanda já pula o muro e some. Um dia eu chego lá.

24 de dezembro

Natal em Drauka. Chove. Sempre chove. O verão aqui parece ter lido “Como não ser brasileiro” e seguido à risca. Temperatura? Uns 18°C. Culpa da latitude sul — sim, eu sei disso. Nerdices. E sim, eu sou. Steph desapareceu às sete da noite como um fantasma de botas plataforma, e voltou à meia-noite tropeçando em si mesma e cheirando a cerveja barata e perfume de baleneiro. Provavelmente já fundou um culto alternativo na ilha. A gente ainda não começou na escola — o que é ótimo. Assim posso continuar fingindo que minha nova vida vai começar “com o pé direito”... só não sei de quem.

28 de janeiro

Ano novo, mesma cara de bobo — mas com endereço diferente. A vizinhança é, no mínimo, curiosa. Vi uma garota de cabelo vermelho hoje... meio futurista, meio personagem perdida do Mike Pondsmith. Linda, claro. E obviamente me ignorou como se eu fosse parte da calçada. E, convenhamos, eu meio que sou. Começo na escola dia 1º. Tô tentando me preparar mentalmente pra fingir que sou alguém interessante. Tipo, alguém que sabe o que dizer, que anda com propósito… alguém que não empalidece quando uma menina bonita olha na direção oposta. Enfim. Treinando o Arthur versão 2.0. Com bugs, mas promissor.

31 de Janeiro

Dia estranho, acordei de manhã com um som de trovão na frente de casa, achei que era um carro de fórmula 1 dos anos 80, motor V12, roncando loucamente pela parte mais humilde de Orlar. Fosse o que fosse tirou a mim e minha irmã da cama as oito da manhã. Logo ela, que tem o notável talento de dormir até meio-dia? Bem, eu é que não vou passar essa falta de sono sozinho, fui até o quarto e levei o disco de vinil que minha mãe chama de panqueca pra ela. Apesar de dar falta do Paçoca e seu miado wiwiwi, eu presumi que ele estivesse caçando gatas no telhado (aquele gato cachorrão)... Combinamos de picotar e jogar a panqueca de vitrola na privada, o que obviamente entopiu a privada. Problema da Steph... Quarto da Steph, Problema da Steph... meu motto. Nikaella a amiga dela que fica me olhando como se eu fosse um picolé no deserto ligou pra ela falando de uma festa pra alunos... Como a Steph faz pra ser convidada pras coisas? As pessoas normalmente só me ignoram... Além é claro de me mandarem um paredão de memes. Maison e Agnes especialmente. Saímos então para comprar um roupa no brechó pra ir a festa, tomar um café na feira, e eu me convenci, tenho que ser um bad boy pra conquistar a Natasha... Começarei minha rebeldia falando gírias pesadas como supimpa e brow. Na saída engambelei a mãe, tiramos foto na igreja (coisa de família conservadora cristã patriota), conhecemos Sam e Rafael, dois gringos. Rafael é sábio, mas bonito demais, perto dele eu desapareço. Ele tem cara de ser o tipo de sujeito que se eu pedir pra me apresentara Natasha vai beijar ela na minha frente porque... porque sim. Sam tem mais a minha vibe, acho que vou me dar bem com ele. Bem, comemos pastel, caldo de cana, e a Nikaella apareceu de novo, e ficou me olhando vestido de membro dos backstreet boys depois que comprei umas roupas com a minha irmã e o Rafael. Por que eu tenho sempre a sensação de que estou falando com uma versão pet da minha irmã quando falo com ela? E ela é bonita. Não é de se jogar fora... Mas Natasha? Natasha é outro nível total. Voltamos pra casa e agora estou me preparando para a tal de festa. Deseje-me sorte, blog.

1 de Fevereiro.

Que noite, diário.

Hoje nesse primeiro dia de aula, me preparo para encarar Orcínia. Vou aproveitar para contar antes da aula o que ocorreu. Fui na festa, tava mó inseguro, a Steph tentou me chamar pra festa, daí saí na maciota, mas a amiga maconheira da galera do Martin me viu. Laura o nome dela, gente boa. E o François me deu um doce. Fiquei loucão. Ontem tive vergonha, dancei feito um retardado, gritei, dormi, tropecei e caí. Decidi ficar conversando com a Nikaella para me desculpar depois desse espetáculo nefasto. Nesse meio tempo papeei com a Laura, adorei ela. Acho que tem tudo pra ser uma grande amiga. Depois saí com a Nikaella. Ela estava ousada, se vestindo diferente, acho que, como eu, ela estava se forçando a ser outra pessoa. Pelo menos foi o que eu percebi. Na verdade, ela que insistiu muito por ficar ao meu lado porque depois da euforia do boloconha do François, eu fiquei meio deprê. Eu não sabia nem como falar com ela, confesso. Daí na saída, íamos num clube mais indie, mas ela foi assaltada e eu arremessei uma chave de fenda nas costas do bandidinho. Nem acredito que acertei. Me senti o homem-aranha, lembro de quando li o Ultimate Spiderman #4, quando o Peter ganha os poderes. Me senti assim. Depois levei a Nikaella até em casa, já que assalto e enfiar uma chave de fenda nas costas de alguém arruinar o rolê legal. Estou conseguindo ser diferente! Bom sinal! Tive coragem uma vez na vida! Mas o mais interessante foi o final do rolê, deixei ela em casa... Pintou um clima de beijo, mas Nika é romântica e pode interpretar um beijo como um compromisso, eu simplesmente me afastei antes que o laço do passarinheiro me pegasse. Mas antes de sair falei "Nika... Escolhi mudar porque eu não era feliz. Estou procurando ser uma versão melhor de mim mesmo. Mas você não precisa, você é incrível como é. Não aceite que ninguém te queira mudar". Depois falei algo muito idiota... Mas ao chegar em casa, descobri que a mãe da Nika sumiu e eu gastei mó cota tentando arrumar um jeito de fugir depois de entrar em casa e tomar um esculacho do pai. Mal entrei, e logo tive de fugir usando uma corda de lençol da minha irmã que ela guardou no meio da gaveta de calcinhas dela. Sai com calcinha ne perna, mas cheguei na casa da Nika. E me partiu o coração vendo ela e a irmã em pânico com a bagunça na casa, marcas de sangue e o sumiço da mãe. Pedi ao Samuel para levá-las até a casa dele para que ela dormisse lá. Mas minha cabeça não parou de pensar na Nika um segundo sequer.

Nika e ARC... Será?

Pela manhã saímos para ir a escola. Eu coloquei minha camisa da X&Y, meu sobretudo preto, calça skinny e all-star. Quando chegamos ao ponto de ônibus, Steph conseguiu uma carona com o Rafael. Tentamos falar com o Sam para saber das meninas. Para meu desgosto, ninguém conseguia falar com ele. Comecei a ficar irritado. Quando vimos o Sam num uber indo no sentido contrário, gritei: "Rafael, siga aquele uber". O resultado foi um acidente. Não culpa nossa. Culpa de um carro caríssimo e super veloz, tipo uma McLaren. Resgatamos o Sam, e fui na casa dele falar com a Nikaella. Eu tentei consolá-la , a pobrezinha estava muito triste. Eu fiquei muito tocado, e prometi a ela que seria um super-herói pra ela, que encontraria a mãe dela, e aí, ela me beijou. Me senti mal, pois por mais que nutra algum tipo de sentimento por ela, não consegui ainda distinguir se é algum tipo de afeto romântico nascendo ou só uma mistura mórbida de piedade e hormônios... Não seria justo com a Nica. Ela parece quase um poring de tão fofa. E honestamente, não quero me engajar em nenhum relacionamento romântico de cara... Mas estou me sentindo arrastado para isso pelos eventos. Tenho que conseguir uma forma de conter isso antes que eu machuque alguém com quem me importo.

Sessão 4

Depois do beijo, Nika saiu correndo e entrou no banheiro. Mika, a irmã, disse que era melhor deixar ela quieto um tempo. A Steph chegou logo na sequência e perguntou o que havia acontecido. Contei a ela que Nika havia me beijado e ficou envergonhada e correu. Ela me disse que eu devia dizer a ela pra irmos devagar. Concordei. Depois Sam falou do Veloz, a tartaruguinha da Nika. Ela estava com saudades do Veloz. Então fui até a casa dela, peguei e voltei. Quando entreguei o Veloz a ela, ela ficou feliz e aproveitei para quebrar o clima pesado voltando a ser temporariamente o falador de bosta contumaz que eu sou. Mas não deu pra não falar do assunto... Eu disse a Nika que aquilo não era apropriado... Eu não quero ser o cara que tira proveito de uma garota fragilizada. Não disse que aquilo era um não. Disso que minha resposta era "vamos devagar", há muitas emoções em voga e confusas na nossa cabeça, e que aquilo só poderia levar a gente a se machucar. E que agora, minha prioridade era garantir que ela encontraria a mãe dela.

ARC e Nika
Depois disso, almoçamos e tentaram me arrastar para o lugar que eu mais odeio. A praia. Fui pra não criar caso, não fiz questão nem de mudar de roupa. Tão logo cheguei, falei pra Nika me prometer que iria se divertir, pra colar com a Steph que ela é a rainha da diversão. Ela disse que sim, e saí. Minha ideia? Chegar em casa para estudar umas técnicas investigativas. Mas a Natasha me abordou... Estou perplexo que, pela primeira vez, eu não sou um pedaço da paisagem. Ela veio com um papo de que eu estava me declarando por aí, que o Rafael tinha dito isso... Ela veio chegando muito perto, eu fui me afastando, e eu congelei. Comecei a falar árabe, gaguejar, fiquei paudurescente já que ela estava sexymente vestida. Daí a Nikaela chegou, e eu, no meu pânico, abracei ela, mas ela não entendeu bem o que aconteceu. A Natasha falou coisas maldosas para Nika, sugeriu que eu estivesse apaixonado por ela... E a Nika saiu correndo desesperada, eu a persegui até alcançá-la. Segurei ela pelo braço, ela disse para que eu a soltasse. Eu disse algo que eu não lembro bem. Um lamento ou algo assim. Não sei. Eu congelei. Não consegui dizer a verdade. Mas quid est veritas, afinal? Eu realmente estava me rastejando pela Natasha... mas de repente, desde que a Nika começou a passar por todo o caos... Isso se tornou tão pequeno e irrelevante. Como explicar essa fraqueza de caráter em 24 horas? Eu devo ser um desgraçado. Então, pensativo, pus-me a caminhar pela praia. Encontrei a Laura devastado, dividimos um baseado. Eu não queria mais fumar, mas eu devo a ela esse baseado, tava precisando. Ela me deu umas ideias de que eu devia deixar ela no tempo dela. Ela me deu uma cantada ou algo assim, também. Eu topei conhecer ela melhor, mas não levei tanto a sério. Talvez, se ela tivesse dito algo no dia da festa no clube Perí, eu tivesse beijado ela... Afinal, eu estava chapado... Ela falou também que alguém fez um video de eu jogabdo uma chave de fenda nas costas do ladrão que roubou a Nika e que o video estava viralziando. Honestamente? caguei pra essa informação... Só a Nika importava... enfim, eu só fiquei na brisa, viajando até chegar em casa. Fato é, porém, que o Samuel me ligou dizendo que a Nika sumiu. Contei o caos, todo saiu pra procurar. Ele também falou algo sobre bunda branca do Rafael Corcova de Mobby Dick... Eu ia pra casa, e quando cheguei, ajudei a por a Stephanie que tava caída de bêbada pra dentro. E sai pra procurar a Nika no Distortion, liguei pra Agnes, e ela me ajudou a achar a Nika num lugar perto de uma oficina, bêbada. Ela bebeu muito por causa da crise e do cíumes que ficou de mim foi isso? Fiquei me sentindo horrível por causa disso.  Mandei uma mensagem no zap da Nika: "Oi, eu não sei seu eu fiz algo de errado. Na verdade, eu estava em um freezing mental. E eu não lembro direito do que eu fiz ou falei. Mas uma coisa eu tenho certeza, não gostei de como a Natasha me abordou. Segundo a Laura, tem a ver com um vídeo ou coisa assim... Sei lá... Não sabia que ela era tão babaca. Quanto ao negócio do que o Rafael falou ou deixou de falar, eu não faço a menor ideia. Só queria dizer que lamento. Vou tentar não te importunar nos próximos dias, me importo muito com você para te permitir se ferir comigo. Ás vezes se ajuda mais com ações do que com presença. Seguirei te ajudando. De longe por enquanto. A seu tempo." 

Voltei pra casa porque minha presença não ia ajudar em nada. Eu precisava provar minha utilidade com serviço. Dediquei-me a estudar investigação durante a noite e a madrugada. Mas lá pelas 3h da manhã, tomei uma decisão, pois entre considerações sobre técnicas de investigação e catalogações de provas, pensava na minha conduta, e como eu estava me levando deixar pela beleza incontestável da Natasha, ou talvez o vídeo de eu jogando chave-de-fenda no ladrão viralizando. Achei que eu precisava por um fim nisso. Peguei meus desenhos dela e queimei na churrasqueira.
"Às vezes, a gente tem que aceitar que algumas belezas são apenas externas. E que riqueza não significa nobreza. E quando nos damos conta dos males que a tibieza de caráter pode fazer, temos de tomar decisões sérias, de sacrificar nosso apreço pela estética e pelas ilusões juvenis, e os males que a mera aparência pode induzir." Antes do fim das 24h mais insanas da minha vida, lembrei que vi uma SUV azul se afastando da casa da Nika no dia do desaparecimento da mãe dela.

2 de Fevereiro:

Acordei às cinco da manhã tendo dormido menos de um hora e meia, estou acabado. Não sei se vou render na prova. Mas farei o meu melhor, tentarei não me comportar como um narcoléptico. No café da manhã a Steph parecia um pouco insatisfeita comigo. Pisei na bola com ela ao deixá-la dormindo no sofá vestida como a gótica summer fashion. Aliás, eu tenho pisado muito na bola... Quer dizer não sei... Não acho que tenha feito algo errado ali com Natasha. Eu tenho tentado colocar o bem-estar da Nika acima de tudo, mesmo do meu. Isso é amor? Piedade? Senso de Justiça? Steph diz que eu tenho síndrome do herói. Talvez ela tenha razão. Estou aqui escrevendo essa nota no celular, usando um headphone da Tortuguita vermelha, ouvindo Never Fade Away de P.T. Adamczyk numa versão remix. Estou me sentindo o lixo dos lixos prestes a ir pra escola. Stephanie ficou de me ajudar a falar com a Nikaela se eu resolvesse o B.O. com o pai. E eu fiz isso, assumi a responsabilidade, dizendo a mãe em carta pregada na geladeira que eu a embebedei e forcei a se vestir de forma inapropriada por vingança, e que o filho mau sou eu.
Dali fomos pra escola, descobri que ser famosinho por causa de um vídeo viral é legal. Acenei pra geral na entrada. Eu peguei um papel na vice-diretoria, fiz a prova. Nada demais aqui. Cochilei um pouco na mureta enquanto aguardava as notas. 
Depois disso, fui pra primeira aula: Português. Um professor elitista caga-pau-no-cu do caralho. A Steph foi flertar com Martin, eu sentei perto do Maison e do Carlos. Evitei falar do assunto Nikaela, pois senti que o Maison ia falar disso. Não quero ninguém explorando o sofrimento da Nika como fofoca, mesmo que o máximo que eu possa fazer, seja impedir que falem comigo. Depois da aula, fui pro intervalo. Estávamos falando eu e Stephanie sobre o Téo, o funkeiro que pode surfar na minha popularidade de homem-aranha das chave de fenda, pra viralizar um funk dele. Eu não gosto de funk, mas a Steph jura que eu sou bom o bastante para transformar funk em música clássica. Eu acho que na melhor das hipóteses da pra fazer um Moskau do Dshingis Khan versão funk. O Rafael chegou me cumprimentando. Ele me chama de Nosferatu. Eu chamo ele de Moby Dick. Mas ficar perto dele em público não dá. Ele é bonito demais. Daí dei linha na minha pipa e sai dali o mais rápido que pude.

Acabei encontrando a Laura e o François. Eu queria falar com a Laura a sós, então preguei uma peça no François. Ele me deu aquele boloconha que me fez fazer um papelão, então pratiquei uma "gordofobia light" e menti que estavam distribuindo sobremesa gratuita. Ele saiu animado. Sacumé... "Gordo só faz gordice". Conversei com a Laura sobre o caso da SUV azul escura. Descobri com ela que ela pertenceu a um professor de defesa pessoal chamado Davi Ogum, que está desaparecido - segundo a Laura - a três dias. Segundo ela, Ogum era um cara carismático, amoroso em alguns momentos, porém violento em outros. Ela ficou de me ajudar também a falar com a Mikaela, eu preciso de conversar com ela pra ter mais informações da mãe dela.

Minha hipótese é que isso bate com o que vimos na cena do crime. Ele entrou sem arrombar, pode ter usado seu carisma, sendo "amoroso". Talvez a mãe da Nika conheça ele, e ele usou dessa proximidade e esse carisma, para poder entrar. Depois foi violento. É uma análise tosca, mas não há muita evidência acumulada. Apenas uma junção improvável de coincidências. A mãe da Nika some. No dia uma SUV azul escura estava na rua. O proprietário era um professor de defesa pessoal que possivelmente deu aulas pra Nika e pra Mika. E agora descubro que esse cara tá sumido a três dias. Coincidência demais. Tudo circunstancial. Mas é um bom começo de investigação. Tô me sentindo um investigador noir estilo Rick Deckard. Ah... A Laura parece estar a fim de mim. Eu estou a fim de conhecê-la melhor. Ela veio com o papo de quem tem os piores pais. Fiz uma aposta, se os meus forem piores eu ganho, se os dela forem, ela ganha e me ajuda em troca de um encontro. Isso está reforçando a minha ideia de ajudar a Nika de longe. Assim evito machucá-la mais. No entanto, a Laura que intui da primeira vez que a vi que pode ser uma boa amiga não só é, como pode ser mais. Pelo menos ela acena pra mim com a possibilidade de uma interação mais romântica sem neuras. Não vejo nada sério com ela, mas também não descartaria. É mais fácil pensar num relacionamento a dois com ela do que com a Nika, porque a Nika é incrível e seria uma namorada incrível (acho que já estou entregando os pontos ao confessar isso, mas c'est la vie!), mas eu não conseguiria estabelecer um relacionamento com ela nessas condições, onde estar com ela vem com drama e a minha responsabilidade autoimposta de ajudar alguém que precisa de ajuda. Eu tenho essa responsabilidade. Eu assumi. E vou levar até o fim. A Nika merece. Ela é muito gentil e legal, não merece que eu alimente ela com esperanças falsas. Ela merece alguém bem melhor do que eu.
Laura e eu


Me encontrei com o Sam. Passei pra ele as informações, e quando ele começou a falar demais, simplesmente fui embora. Ele me acha um cuzão já que deixei ele falando com as minhas costas. Mas fazer o que? É parte do meu charme de fracassado em ascensão. Bem, dali segui para a minha aula de escrita criativa. Combinei com Laura de apresentá-la aos meus pais, já que depois de assumir o B.O. da Stephanie eu provavelmente vou ficar de castigo. Ela topou. E quer saber? Foi uma aula interessante. É impressionante como na sala todo mundo quer escrever romances estilo John Green ou fantasia a moda Harry Potter, Senhor dos Anéis, ou dessa séria nova 1890... Como sempre, eu sou o esquisitão. Falei com o professor que gostava de ficção científica, e era apaixonado pela estética cyberpunk. ele me incentivou. recomendou estudar os "clássicos" do gênero, como William Gibson e seu Neuromancer, assistir Blade Runner (que eu já vi) além de outras temáticas futuristas anexas. Bingo! Ponto pra ele! Comecei a esboçar então meu conceito. Acho que vou chamar de "The Replorg". Não tive muito tempo de desenvolver, porque assim que o sinal bateu, minha vida de investigador teen com ironia em excesso, me levou a sala do diretor Julius Amaral. E céus! Alguém tem que convencer a diretoria a instalar um elevador pros alunos! São 78 degraus! Eu contei! E para piorar, no caminho passei pela Nika abraçando o Carlos. Fiquei com ciúmes? Sim... Mas Por que? eu nem sei se gosto dela! Ou isso já é gostar dela? Mas o fato é, eu prometi a ela tempo e espaço, e eu vou cumprir minha promessa. Eu ignorei. Ou tentei ignorar. Na sala do diretor, eu conversei com ele. Ele me pareceu gente boa. Joguei o verde pra ver se ele liberava os dados do Davi Ogum. Disse que não queria sacrificar minha carga horária de Escrita Criativa e Música, e que queria fazer aulas de defesa pessoal no fim de semana. Colou! Ele me deu o endereço. Daí foi fácil, decidi matar aula pelo estacionamento. Dois babacas estavam querendo jogar o verde de que sabiam algo da Nika que me interessaria. Queria saber? Com certeza. Mas isso implicaria em expor a vida dela para um bando de manés. Obviamente escolhi não fazer. Ironizei - as always - e saí. Um bombadinho perguntou: "Eu descobrio algo da sua querida Nika e você não quer saber?" eu respondi: "Isso aí, acertou!". Segui até a casa do Ogum. Pulei a cerca, abri a porta dos fundos, cheguei no quarto e achei um monte de coisas interessantes, fotos, um álbum de fotos que merece ser analisado mais cuidadosamente. Pelo estado de abandono da casa do ex-professor e ex-policial, ele está sumido a muito mais do que três dias (o que Laura sugeriu), tinha até leite vencido na geladeira. Pensei ter ouvido alguém invadir, e quando saí do quarto em direção a sala de musculação, eu acho que vi e filmei algo...

3 de Fevereiro de 2025.

Primeiro: Eu deixo essa declaração de intenções, então, ninguém ficará confuso: Sic vis paccem para bellum. Latim. Traduz-se como: Se queres paz, prepare-se para a guerra. Esse é um provérbio de Flávio Vegécio, aristocrata romano, que percebeu que a natureza humana - se existe - só respeita uma coisa que preserva a paz. A força. Eu não sei para onde minha insegurança foi, mas no lugar dela o que tomou lugar foi um desejo profundo de justiça.

Segundo: Fred e alguns de seus amigos me sequestraram, me trancafiaram e torturaram num galpão ou oficina abandonada, não é difícil estabelecer uma rede de vínculos com base nos seus contatos. Em nome do desaparecimento de Natasha (algo que não é de minha competência pois não me importo com ela), eles atrapalharam não apenas uma investigação que poderia salvar a mãe de uma pessoa muito querida, como de alguma forma a feriram. Eles me mostraram quando eu estava cativo, um vídeo da Nikaela bêbada, frágil. Ítalo aparece na imagem. Eu não sei o que ele fez, se fez, mas ao estar perto dela, respirar o mesmo ar, tocá-la no ombro de forma maligna naquele vídeo, ele se condenou.

Terceiro: Assisti filmes noir demais para saber que não se deve confiar na polícia contra os poderosos. E a burguesia (como Stephanie disse) tem poder demais. E a concentração do poder impede a justiça, a transforma em algo deturpado, legalismo a serviço de encobrir os ricos e poderosos

Quarto: Em algumas situações extremas, a lei é inadequada. E em ordem de corrigir sua inadequação, é necessário agir fora da lei. Perseguir a justiça natural. Alguns diriam vingança. Não é vingança. vingança não é um motivo válido. É uma resposta emocional. O que eles vão ter - e terão - é punição.

Quinto: Arthur Reese-Coller está morto. Ele morreu sozinho, amarrado em um galpão-oficina fedendo a óleo, abandonado. O que tomou seu lugar é outra coisa. Sem nome. Sem rosto.

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Para Nikaela:
"Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora - e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo."
Sto. Agostinho de Hipona.

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Eddie Koemann [Wiki]

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