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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

[CONTO] Queens, Yale, Serra do Lago - III

Nova Iorque, 11 de Dezembro de 2024

Aline caminhava lentamente pelo corredor, o som dos passos ecoando nas paredes do apartamento silencioso. A exaustão se acumulava em seu corpo, cada músculo clamando por descanso, mas sua mente ainda estava desperta, cheia das ideias e teorias que tinha absorvido durante o dia na University of Yale. Ao entrar no quarto, deixou-se cair na cama, o colchão afundando sob seu peso enquanto ela fechava os olhos, tentando afastar o turbilhão de pensamentos.

Sua mente vagou para a primeira aula da disciplina optativa que havia decidido cursar, mais por curiosidade do que por necessidade. Literatura sempre a intrigara, não pelas histórias em si, mas pela forma como as palavras podiam capturar o espírito de uma época, de um povo, e como isso se conectava tão profundamente com as estruturas políticas e sociais.

Ela se lembrou do momento em que entrou na sala, o ar carregado de expectativa. Escolhera um lugar ao fundo, perto da janela, e logo notou o rapaz que se sentara ao seu lado. Ele parecia deslocado entre os outros alunos, talvez pelo jeito clássico de sua aparência: pele clara, cabelos loiros, e um queixo firme que dava ao rosto uma aura de confiança.

O professor, Arnold Archbold, entrou na sala com ares de autoridade, mas havia um brilho nos olhos que revelava seu amor pela matéria que ensinava. Após as apresentações, ele começou a aula de uma forma inesperada, escrevendo uma estrofe no quadro:

"And the leaves turn from red to brown
To be trodden down
To be trodden down
And the leaves turn from red to brown
Fall to the ground
Fall to the ground"

O professor se virou para a turma, com um sorriso que misturava curiosidade e desafio.

— Quem escreveu essa poesia? — perguntou ele, os olhos varrendo a sala em busca de uma resposta.

Imediatamente, uma garota de óculos na primeira fileira arriscou: Baudelaire. Um rapaz de cabelo azul, sentado do outro lado, tentou Fitzgerald. O professor riu, sacudindo a cabeça em negação.

— Não, não. Esta estrofe é de uma música chamada "Beautiful", da banda Marillion, lançada em 1999 — ele revelou, sua voz carregada de entusiasmo. — Vejam, uma bela poesia não precisa necessariamente vir dos autores clássicos. Às vezes, está nas letras das músicas que ouvimos no rádio, no cotidiano.

— E sobre o que vocês acham que é essa metáfora? — Archbold perguntou.

O rapaz ao lado de Aline levantou a mão com confiança.

— Jeremy Johnson, professor. Pode me chamar de J.J. — ele disse, um leve sorriso no rosto. — Eu acho que a metáfora é sobre árvores.

O professor arqueou uma sobrancelha, desapontado.

— Bem, isso é... evidente. Mas se fosse realmente sobre árvores, não seria uma metáfora, certo?

Aline sentiu uma súbita urgência de falar. Levantou a mão e, quando o professor a chamou, ela respondeu com firmeza.

— Eu acho que é sobre o tempo. Sobre como ele transforma tudo, leva tudo embora, como as folhas que caem das árvores.

O professor aplaudiu, claramente impressionado.

— Exatamente! O tempo... O grande escultor, o grande destruidor. E você é...?

— Aline Ribeiro, estudante de Economia. Estou cursando esta disciplina porque acredito que entender a literatura de um povo é fundamental para compreender seu espírito e, por conseguinte, suas instituições. Não quero ser apenas uma cabeça de planilha alienada.

O professor sorriu ainda mais, visivelmente satisfeito.

— Bravo, senhorita Ribeiro. Mais economistas deveriam pensar como você.

Após a aula, Aline e J.J. se apresentaram. J.J. ficou impressionado com a sagacidade dela. Ambos caminharam juntos até a estação de trem de Haven. Ele parecia interessado, mas Aline desviava a conversa sempre que possível. Ainda havia Junior, uma presença vaga mas constante em sua vida, e ela sabia que precisava resolver isso antes de permitir qualquer novo envolvimento. J.J. compreendeu, e o restante da caminhada foi envolto em um silêncio confortável, quando ambos se despediram. Aline entrou no trem e seguiu de volta para Manhattan.

Ao chegar em casa percebeu que Junior já estava, ele estava no telefone falando com alguém. Ela soltou um suspiro cansado, caminhando até a mesa onde um copo de café quente a aguardava, a fumaça subindo em espirais frágeis, dissipando-se no ar frio do quarto. Junior meio que sabia que ela chegava sempre nesse horário e tinha o talento de deixar o café sempre pronto e quente para ela.

Subiu ao quarto no segundo andar, com um gesto automático, ligou o termostato, buscando algum conforto no calor que começava a emanar do aparelho. Seus olhos vagaram até a janela, onde a neve se acumulava no parapeito, criando um cenário de branco puro, quase irreal. Nova Iorque, lá fora, estava congelada, mergulhada em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som distante de um carro que passava, solitário, nas ruas desertas.

Aline se sentou na cama, o copo de café entre as mãos, a cerâmica quente aquecendo seus dedos. Ela olhou para a escuridão além da janela, perdida em seus pensamentos, quando um som distante capturou sua atenção. Era a voz de Junior, vindo do quarto ao lado. Ele falava com alguém ao telefone, sua voz baixa, mas clara o suficiente para que Aline pudesse distinguir as palavras.

— Maryna? — Junior disse, rindo suavemente, como se estivesse relembrando algo doce e nostálgico. — Sim, claro que me lembro... você sempre foi especial.

Aquelas palavras, tão leves e despreocupadas, acertaram Aline como uma faca invisível. Seu coração apertou no peito, o desconforto crescendo a cada segundo que passava. Ela tentou se concentrar em outra coisa, qualquer coisa que a afastasse daquele momento. Puxou um livro da mesa de cabeceira, “The Catch”, do premiado escritor inglês Arthur Brooklet, e começou a folhear as páginas, mas as palavras escapavam dela, se transformando em manchas indistintas de tinta.

Os risos de Junior continuaram, ecoando pelo corredor como uma lembrança cruel. Aline fechou os olhos, tentando bloquear o som, mas ele persistia, invadindo seus pensamentos, envenenando sua mente com dúvidas e inseguranças.

“Estou perdendo ele”, pensou, a tristeza a envolvendo como um manto pesado. “Por minha própria teimosia, estou deixando-o escapar. Esperando por um príncipe encantado que nunca vai chegar... sou uma tola.”

Aline sentiu as lágrimas se formando, queimando em seus olhos. Ela colocou o livro de lado, se levantou e fechou a porta do quarto, como se isso pudesse afastar a dor que sentia. Caminhou até o som, ligou o velho toca-discos e deixou que a agulha encontrasse o vinil, iniciando as primeiras notas de “Somewhere Only We Know” do Keane. A música encheu o espaço, sua melodia triste ressoando com a tempestade dentro dela.

I'm getting old and I need someone to rely on,

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired and I need somewhere to begin

Ela se deitou na cama, encolhendo-se em posição fetal, enquanto as lágrimas começavam a cair amargas e silenciosas. A música a envolvia, criando um casulo onde ela podia se permitir sentir, onde a tristeza podia finalmente encontrar vazão. 


No quarto ao lado, Junior ainda conversava, mas agora sua voz estava mais suave, mais distante.

— Estou feliz que tenhamos terminado como bons amigos, Maryna... — ele dizia, e Aline, mergulhada na música, não ouviu. — E espero que você siga seu caminho com tanta felicidade quanto desejo que eu siga o meu... com Aline.

A despedida foi breve, as últimas palavras de Junior envoltas em um suspiro de alívio. Ele desligou o telefone e, por um momento, ficou em silêncio, seus pensamentos voltando a Aline. Ele se levantou da cama e caminhou pelo corredor até a porta do quarto dela, notando que estava fechada.

Gentilmente, ele girou a maçaneta e entrou, apenas o suficiente para espiar. A luz suave do abajur lançava sombras no quarto, e ele a viu deitada de costas para a porta, encolhida na cama. A música preenchia o espaço, abafando qualquer som, mas Junior sorriu ao pensar que ela estava dormindo, exausta após mais um dia de estudos.

Ele apagou a luz, com um gesto suave e cuidadoso, e fechou a porta, deixando Aline na escuridão, sem perceber a tristeza que a consumia. Do lado de fora, o vento continuava a soprar, levantando a neve que dançava como espectros na noite fria de Nova Iorque.

sábado, 25 de maio de 2024

[CONTO] História dentro da História - Epílogo

Arthur Ribeiro

 Serra do Lago, 11 de Maio de 2006, 17:15.


Maio era um mês que da perspectiva de Rodrigo, em Serra do Lago, era uma novidade. Porque, acostumado ao sempre quente e ensolarado Rio de Janeiro, aquele seria o encaminhamento do seu primeiro inverno em Serra do Lago, e o frio já começava a se avizinhar, ainda que fosse o último mês do outono.

Os outrora verdes plátanos plantados às margens da Avenida Beira-Lago já davam sinais de vermelhidão e algumas folhas já começavam a cair. E embora o inverno tendesse a ter tempo estável e claro naquela cidadezinha, ainda chovia eventualmente no outono. E este era um daqueles dias.

Sentado numa poltrona no apartamento de Beth, ele via a mulher que amava tentando ensinar a criança, agora identificada, Claire Brooklet, suas primeiras palavras em português, embora sua mente estivesse perdida em indagações sobre o quão apropriado ou não era aquilo tudo. Na verdade, por vezes, o som das gotas d'água que acertavam furiosamente as telhas de terracota se misturavam aos sons da voz de sua amada e daquela criança.

- Isto é água! - Dizia Beth apontando para um copo d'água.

- Water? - Questionou a menina, na dúvida se ela se referia ao copo ou a água.

Beth molhou o dedo no copo e agitou, na sequência, sorrindo, falou: - Água! 

A menina, que não era boba nem nada, entendeu:

- Aahgoa - Falou ela, lutando com os fonemas da última flor do lácio.

- Isso! Muito bem! - A voz de Beth transmitia alegria.

Rodrigo olhava pensativo, sua dúvida principal era o que fazer com a menina. embora sempre tenha desejado ser pai, sabia que não era o pai da menina. E preocupava-o ver Beth se comportar de maneira tão maternal com uma criança que no segundo seguinte, poderia não mais estar ali. Isso a arrasaria.

Irritado, se levantou e foi até a sacada. De lá, observou o canal dos eucaliptos recebendo calmamente as gotas que eram choradas pelas nuvens, enquanto uma brisa calma, anunciava para logo mais, uma noite que deveria baixar aos 10ºC. Em meio a uma bufada, seu telefone tocou.

Número desconhecido.

Rodrigo já estava na cidade a tempo o bastante para saber que ninguém, fora as oito famílias, escondia nada de ninguém. Era o tipo de cidade pacata onde todos se conheciam. Não havia motivação para um número desconhecido. Ele apertou um botão no celular, e imediatamente ele começou a gravar.

- Alô - Disse ele Rodrigo, com voz mórbida.

- Cabo Souza. Ouça com atenção. - A voz era feminina e soava com um sotaque americano - Tenho observado você, a delegacia, e sua aliança tácita com Helena Schimirtzer Costa. Ou deveria chamá-la de Chaya Sándor? Enfim, sabemos que ela é uma agente do Serviço Federal de Informações da Alemanha, e sabemos também que ela fez um acordo com Ivan Petrov, líder de uma célula karpovita que está por detrás do sequestro de Arthur e Claire Brooklet, e dos assaltos que tomaram sua cidade de surpresa.

- E o que tem isso?

- O que tem? - A voz gargalhou. - O que tem é simples: Esse acordo dela vai dar errado. No momento seguinte que entregarmos escritor, ele vai se recursar a escrever os assaltos, ele é apenas um pobre coitado que calhou de fazer sucesso no momento errado. A vida é assim, Souza! Num belo dia você é o próximo Tolkien. No outro você está trabalhando para criminosos debaixo da ameaça de uma arma. Sabe o que vai acontecer se não aceitar o nosso acordo? O que vai acontecer é que vocês vão ser forçados a lutar contra os karpovitas, que dessa vez virão atrás de vocês e também dessa cidadezinha muito melhor armados, e não com um bando de amadores, como da última vez. Você e nem ninguém quer que isso aconteça. Então, vou te dar uma escolha: E é simples.

- Que escolha?

- Já temos a "Hamington", não nos importa muito o escritor. Vamos libertá-lo se vocês quiserem ele.  Queremos Petrov e sua horda. Ele vale muito mais para nós do que o escritor. Mantenha o plano de Cháya até os acréscimos da prorrogação e confie em nós, nós somos o golden goal. Não conte nada a ela. Deixe que ela venha até nós, e no momento em que soltarmos o escritor, você verá os karpovitas se voltar contra vocês, e nesse very moment, eu colocarei meus 200 melhores homens de segurança da superfície em defesa de vocês. Xeque-mate! 

Rodrigo solta um riso sarcástico e volta a falar:

- Você me pede para confiar em você. Mas me liga com um número secreto e eu nem nunca vi seu rosto. Que garantias eu tenho de que vai cumprir sua parte do acordo?

- Nenhuma. Pense bem... A Cháya é esquentada, você é a voz da racionalidade. No momento em que vocês derem às costas, eles os trairão, você pode escolher ter uma carta na manga ou não contra os karpovitas. Essa carta é a carta do Departamento.

Rodrigo olhou pra sala, onde Beth animadamente ensinava Claire a palavra lâmpada em português, enquanto apontava para a luz da sala. Ela parecia feliz, completa, de uma forma que nunca esteve.

- Não me importo com o escritor, façam o que bem quiserem com ele. Quero apenas vingança pelo que fizeram a Beth. - Respondeu Rodrigo com voz seca.

A voz feminina gargalhou novamente.

- Parece que te julguei mal, cabo Souza. Você pegou afeição pela menininha, não é? Diga-me, sua noiva está a tratando como se fosse mãe dela, não está? Hahaha.

Rodrigo engoliu as risadas a seco, como se fosse uma provocação, seu desejo mais profundo era usar de tantos impropérios quanto possíveis para ofender a mulher estrangeira na linha. Mas ela tinha razão, isso era inegável.  

- Olha, não podemos manter Arthur Brooklet em custódia, ele é cidadão britânico e não queremos confusão com o país mais importante da OEA. E ele é o pai da menina. Se quiser se resolver com ele, matá-lo, faça como quiser. Mas ele não estará sob a nossa responsabilidade caso aceite o acordo.

- Eu aceito.

A voz silenciou-se do outro lado.

- Alô. Vocês ainda estão aí? - Perguntou Rodrigo. Logo a voz feminina, em tom debochado retornou:

- Rapaz esperto...

A seguir, ouviu-se um claque-clique, e depois ainda, apenas o som monotônico do telefone desligado: "Tu, tu, tu". Quem quer que fosse, havia desligado. Deu-se satisfeito com o aceite de Rodrigo. Rodrigo baixou o celular em dúvida se tinha feito a coisa certa, e olhava o escurecer do céu nublado atrás dos montes cobertos em eucaliptos com olhar preocupado. A voz de Beth o despertou de suas inculcações.

- Amor, tudo bem?

Rodrigo olhou para trás, e viu Beth de pé, atrás da menininha, seus braços gentis estavam posicionados sobre os ombros da menina, quase como se a estivesse abraçando - ou protegendo - os olhos de Beth transmitiam ternura, mas também insegurança.

- Está tudo sim, meu bem.

FIM.

Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...