quinta-feira, 15 de agosto de 2024

[CONTO] Queens, Yale, Serra do Lago - IV

Nova Iorque, 13 de Dezembro de 2024 


A noite caía lenta e fria sobre Nova Iorque, lançando sombras longas e inquietas pelas ruas estreitas e úmidas. Aline desceu do trem, o som dos trilhos ainda reverberando em seus ouvidos como um eco distante de uma vida que parecia deslizar pelos seus dedos. Cada passo era pesado, como se ela carregasse o peso de todas as suas indecisões e sentimentos mal resolvidos. A estação estava quase deserta, o ar gelado e cortante parecia perfurar sua pele, mas ela quase não notava.

Ao chegar ao apartamento, a porta rangeu ao ser aberta, o som reverberando pelo espaço vazio. Aline deixou o casaco cair no sofá, seus movimentos automáticos e sem vida. No balcão da cozinha, o copo de café estava lá, como sempre. Junior nunca deixava de preparar uma xícara para ela, como se fosse um ritual sagrado. Mas o café estava intocado, o líquido agora frio, e essa simples visão pareceu destilar toda a tensão que se acumulava entre eles.

Junior a observava de onde estava, encostado na parede do corredor, seus olhos carregados de preocupação e fadiga. Ele havia tentado, repetidamente, entender o que estava acontecendo com Aline, mas cada tentativa era recebida com uma resposta curta, um olhar distante, e um muro erguido entre eles.

— Aline — sua voz quebrou o silêncio, carregada de uma mistura de frustração e carinho. — Você está bem?

Aline ergueu os olhos, mas evitou o olhar dele, concentrando-se em qualquer outra coisa ao seu redor. Respondeu com um simples "sim", mas a palavra soou vazia, sem vida.

Junior suspirou, passando a mão pelos cabelos, sentindo a tensão em seus ombros crescer.

— Isso é tudo? — Ele não podia mais conter a irritação em sua voz. — É só isso que você tem a dizer? Ultimamente, qualquer coisa que eu pergunto, você me dá essas respostas atravessadas, como se eu estivesse te incomodando só por me importar.

Aline ficou em silêncio, mas algo dentro dela parecia se partir com aquelas palavras. Ela não queria ser assim, mas o ciúme, a insegurança, tudo estava se acumulando como uma tempestade em seu peito.

— Talvez seja porque... porque você não entende — ela finalmente respondeu, sua voz tremendo levemente. — Não entende como é ver você, dia após dia, conversando com... Maryna.

Junior franziu o cenho, surpreso com a menção ao nome. Ele não esperava que Aline estivesse tão afetada por isso.

— Maryna? — ele repetiu, lentamente se aproximando. — Aline, ela é... era minha namorada, sim, mas isso foi há muito tempo. Agora somos apenas amigos.

— Apenas amigos? — Aline replicou, com um tom de amargura que a surpreendeu. — Amigos que relembram "bons momentos"? Que riem e se divertem enquanto eu estou aqui, sozinha, tentando me focar nos meus estudos, mas não consigo pensar em outra coisa além de... vocês dois.

Junior parou a poucos passos dela, sentindo a dor nas palavras de Aline, e percebeu que talvez tivesse subestimado o impacto disso tudo nela.

— Aline, eu jamais quis te fazer sentir assim. Eu gosto muito da Maryna, mas como amiga, e nada mais. O que houve entre nós acabou faz tempo, e hoje, o único lugar onde eu quero estar... é aqui, com você.

Ela levantou os olhos finalmente, encontrando os dele. O que ela viu foi um olhar sincero, sem vestígios de dúvida, e isso a fez sentir-se um pouco tola por todos os pensamentos que alimentara nos últimos dias.

— Mas e nós, Junior? — Aline perguntou, a voz mais suave agora, como se estivesse se permitindo ser vulnerável. — O que somos nós? Nós somos alguma coisa?

Junior aproximou-se ainda mais, até que estava bem à sua frente. Ele tocou o rosto dela com uma gentileza que parecia desarmar todas as defesas que ela erguera.

— Aline, você tem essa visão idealista do mundo, e é isso que eu mais amo em você — ele começou, com uma calma firme. — Você vê o que o mundo pode ser, o que nós podemos ser, e isso me dá esperança. Eu sou mais pragmático, eu sei que a vida é cheia de falhas, de riscos. Mas também sei que não quero viver em um mundo onde você não esteja ao meu lado. Eu não quero ser apenas uma sombra para você, quero ser a pessoa que caminha ao seu lado, seja qual for o caminho que você escolher.

Aline sentiu as lágrimas brotarem, mas dessa vez não eram de tristeza. Era como se todas as incertezas se dissipassem, dando lugar a uma clareza que ela não sentia há muito tempo.

— Junior... Eu tenho medo de destruir tudo o que construímos, tudo o que eu sonho. Eu quero ser alguém que faz a diferença, que muda o mundo, mas às vezes, sinto que para isso... eu teria que abrir mão de você. E isso me assusta mais do que qualquer coisa.

Ele sorriu, um sorriso cheio de compreensão e amor.

— Aline, você não precisa escolher entre seus sonhos e nós. Podemos construir isso juntos. Eu acredito em você, e se precisar, eu vou estar lá para te lembrar disso, todos os dias. Porque você é a minha esperança, e sem ela... eu também me perderia.

Aline assentiu, deixando que as lágrimas finalmente caíssem, mas dessa vez, havia um peso sendo aliviado de seus ombros. Ela se aproximou, envolvendo Junior em um abraço apertado, como se quisesse ancorar-se na presença dele.

Eles se olharam e se beijaram.

— Você sabe que hoje é minha estreia no The Ultimate Fighter America, não sabe? — Junior quebrou o silêncio, tentando amenizar o clima.

Aline sorriu, ainda abraçada a ele.

— Eu sei. Estou ocupada, mas prometo que vou fazer de tudo para chegar a tempo, nem que seja de ver você vencedor da luta.

Aline beijou o rosto de Junior e o deixou partir para sua luta. Aquele dia seria não só dia em que Aline e Junior se resolveram, mas descobriram que a Magia não era mais um segredo. Um garoto da idade deles havia parado um trem em alta velocidade a força fazendo-o parar sobre uma ponte de gelo sobre a Baía de Jersey. E por causa disso os velhos problemas de Serra do Lago voltariam a afligi-los.

FIM

[CONTO] Queens, Yale, Serra do Lago - III

Nova Iorque, 11 de Dezembro de 2024

Aline caminhava lentamente pelo corredor, o som dos passos ecoando nas paredes do apartamento silencioso. A exaustão se acumulava em seu corpo, cada músculo clamando por descanso, mas sua mente ainda estava desperta, cheia das ideias e teorias que tinha absorvido durante o dia na University of Yale. Ao entrar no quarto, deixou-se cair na cama, o colchão afundando sob seu peso enquanto ela fechava os olhos, tentando afastar o turbilhão de pensamentos.

Sua mente vagou para a primeira aula da disciplina optativa que havia decidido cursar, mais por curiosidade do que por necessidade. Literatura sempre a intrigara, não pelas histórias em si, mas pela forma como as palavras podiam capturar o espírito de uma época, de um povo, e como isso se conectava tão profundamente com as estruturas políticas e sociais.

Ela se lembrou do momento em que entrou na sala, o ar carregado de expectativa. Escolhera um lugar ao fundo, perto da janela, e logo notou o rapaz que se sentara ao seu lado. Ele parecia deslocado entre os outros alunos, talvez pelo jeito clássico de sua aparência: pele clara, cabelos loiros, e um queixo firme que dava ao rosto uma aura de confiança.

O professor, Arnold Archbold, entrou na sala com ares de autoridade, mas havia um brilho nos olhos que revelava seu amor pela matéria que ensinava. Após as apresentações, ele começou a aula de uma forma inesperada, escrevendo uma estrofe no quadro:

"And the leaves turn from red to brown
To be trodden down
To be trodden down
And the leaves turn from red to brown
Fall to the ground
Fall to the ground"

O professor se virou para a turma, com um sorriso que misturava curiosidade e desafio.

— Quem escreveu essa poesia? — perguntou ele, os olhos varrendo a sala em busca de uma resposta.

Imediatamente, uma garota de óculos na primeira fileira arriscou: Baudelaire. Um rapaz de cabelo azul, sentado do outro lado, tentou Fitzgerald. O professor riu, sacudindo a cabeça em negação.

— Não, não. Esta estrofe é de uma música chamada "Beautiful", da banda Marillion, lançada em 1999 — ele revelou, sua voz carregada de entusiasmo. — Vejam, uma bela poesia não precisa necessariamente vir dos autores clássicos. Às vezes, está nas letras das músicas que ouvimos no rádio, no cotidiano.

— E sobre o que vocês acham que é essa metáfora? — Archbold perguntou.

O rapaz ao lado de Aline levantou a mão com confiança.

— Jeremy Johnson, professor. Pode me chamar de J.J. — ele disse, um leve sorriso no rosto. — Eu acho que a metáfora é sobre árvores.

O professor arqueou uma sobrancelha, desapontado.

— Bem, isso é... evidente. Mas se fosse realmente sobre árvores, não seria uma metáfora, certo?

Aline sentiu uma súbita urgência de falar. Levantou a mão e, quando o professor a chamou, ela respondeu com firmeza.

— Eu acho que é sobre o tempo. Sobre como ele transforma tudo, leva tudo embora, como as folhas que caem das árvores.

O professor aplaudiu, claramente impressionado.

— Exatamente! O tempo... O grande escultor, o grande destruidor. E você é...?

— Aline Ribeiro, estudante de Economia. Estou cursando esta disciplina porque acredito que entender a literatura de um povo é fundamental para compreender seu espírito e, por conseguinte, suas instituições. Não quero ser apenas uma cabeça de planilha alienada.

O professor sorriu ainda mais, visivelmente satisfeito.

— Bravo, senhorita Ribeiro. Mais economistas deveriam pensar como você.

Após a aula, Aline e J.J. se apresentaram. J.J. ficou impressionado com a sagacidade dela. Ambos caminharam juntos até a estação de trem de Haven. Ele parecia interessado, mas Aline desviava a conversa sempre que possível. Ainda havia Junior, uma presença vaga mas constante em sua vida, e ela sabia que precisava resolver isso antes de permitir qualquer novo envolvimento. J.J. compreendeu, e o restante da caminhada foi envolto em um silêncio confortável, quando ambos se despediram. Aline entrou no trem e seguiu de volta para Manhattan.

Ao chegar em casa percebeu que Junior já estava, ele estava no telefone falando com alguém. Ela soltou um suspiro cansado, caminhando até a mesa onde um copo de café quente a aguardava, a fumaça subindo em espirais frágeis, dissipando-se no ar frio do quarto. Junior meio que sabia que ela chegava sempre nesse horário e tinha o talento de deixar o café sempre pronto e quente para ela.

Subiu ao quarto no segundo andar, com um gesto automático, ligou o termostato, buscando algum conforto no calor que começava a emanar do aparelho. Seus olhos vagaram até a janela, onde a neve se acumulava no parapeito, criando um cenário de branco puro, quase irreal. Nova Iorque, lá fora, estava congelada, mergulhada em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som distante de um carro que passava, solitário, nas ruas desertas.

Aline se sentou na cama, o copo de café entre as mãos, a cerâmica quente aquecendo seus dedos. Ela olhou para a escuridão além da janela, perdida em seus pensamentos, quando um som distante capturou sua atenção. Era a voz de Junior, vindo do quarto ao lado. Ele falava com alguém ao telefone, sua voz baixa, mas clara o suficiente para que Aline pudesse distinguir as palavras.

— Maryna? — Junior disse, rindo suavemente, como se estivesse relembrando algo doce e nostálgico. — Sim, claro que me lembro... você sempre foi especial.

Aquelas palavras, tão leves e despreocupadas, acertaram Aline como uma faca invisível. Seu coração apertou no peito, o desconforto crescendo a cada segundo que passava. Ela tentou se concentrar em outra coisa, qualquer coisa que a afastasse daquele momento. Puxou um livro da mesa de cabeceira, “The Catch”, do premiado escritor inglês Arthur Brooklet, e começou a folhear as páginas, mas as palavras escapavam dela, se transformando em manchas indistintas de tinta.

Os risos de Junior continuaram, ecoando pelo corredor como uma lembrança cruel. Aline fechou os olhos, tentando bloquear o som, mas ele persistia, invadindo seus pensamentos, envenenando sua mente com dúvidas e inseguranças.

“Estou perdendo ele”, pensou, a tristeza a envolvendo como um manto pesado. “Por minha própria teimosia, estou deixando-o escapar. Esperando por um príncipe encantado que nunca vai chegar... sou uma tola.”

Aline sentiu as lágrimas se formando, queimando em seus olhos. Ela colocou o livro de lado, se levantou e fechou a porta do quarto, como se isso pudesse afastar a dor que sentia. Caminhou até o som, ligou o velho toca-discos e deixou que a agulha encontrasse o vinil, iniciando as primeiras notas de “Somewhere Only We Know” do Keane. A música encheu o espaço, sua melodia triste ressoando com a tempestade dentro dela.

I'm getting old and I need someone to rely on,

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired and I need somewhere to begin

Ela se deitou na cama, encolhendo-se em posição fetal, enquanto as lágrimas começavam a cair amargas e silenciosas. A música a envolvia, criando um casulo onde ela podia se permitir sentir, onde a tristeza podia finalmente encontrar vazão. 


No quarto ao lado, Junior ainda conversava, mas agora sua voz estava mais suave, mais distante.

— Estou feliz que tenhamos terminado como bons amigos, Maryna... — ele dizia, e Aline, mergulhada na música, não ouviu. — E espero que você siga seu caminho com tanta felicidade quanto desejo que eu siga o meu... com Aline.

A despedida foi breve, as últimas palavras de Junior envoltas em um suspiro de alívio. Ele desligou o telefone e, por um momento, ficou em silêncio, seus pensamentos voltando a Aline. Ele se levantou da cama e caminhou pelo corredor até a porta do quarto dela, notando que estava fechada.

Gentilmente, ele girou a maçaneta e entrou, apenas o suficiente para espiar. A luz suave do abajur lançava sombras no quarto, e ele a viu deitada de costas para a porta, encolhida na cama. A música preenchia o espaço, abafando qualquer som, mas Junior sorriu ao pensar que ela estava dormindo, exausta após mais um dia de estudos.

Ele apagou a luz, com um gesto suave e cuidadoso, e fechou a porta, deixando Aline na escuridão, sem perceber a tristeza que a consumia. Do lado de fora, o vento continuava a soprar, levantando a neve que dançava como espectros na noite fria de Nova Iorque.

[CONTO] Queens, Yale, Serra do Lago - II

Quatro dias após a conversa sobre seus sentimentos, Junior saía do treino de MMA, mas sua mente estava longe, dividida entre Aline e sua ambição de ingressar no The Ultimate Fighter America. Ele estava perdido nesses pensamentos quando Jade Powell, uma lutadora impressionante, aproximou-se. Ela tinha 19 anos, era uma mulata do Brooklyn com pernas bem torneadas e um abdômen definido, evidências de sua disciplina no esporte. Seus olhos brilhavam com a paixão pela luta, e Junior não pôde deixar de notar o quanto ela era linda.

Eles começaram a conversar ali mesmo, na saída do ginásio. A conversa fluía facilmente, ambos compartilhando histórias sobre seus lutadores favoritos e discutindo as nuances do MMA. Jade era cativante, e Junior se via atraído por ela, sentindo uma conexão inesperada. Ainda assim, enquanto eles riam e se entendiam tão bem, a sombra de Aline continuava a pairar sobre sua mente, como se algo o impedisse de se entregar completamente ao momento.

Quando Jade pediu uma carona para casa, Junior concordou sem hesitar. Eles entraram no Chevrolet Cruze 2018, que Junior havia comprado com grande esforço, trabalhando como chapeiro por 10 dólares a hora em um emprego part-time. Durante o trajeto, eles continuaram a conversar, e Junior se viu cada vez mais encantado por Jade, mas ao mesmo tempo, mais consciente do peso de seus sentimentos por Aline.


Finalmente, chegaram à casa de Jade. Junior estacionou o carro e a acompanhou até a porta. O clima, que antes era leve e descontraído, tornou-se subitamente carregado de tensão. Jade, com um sorriso tímido, fechou os olhos e se aproximou dele, insinuando um beijo. Por um instante, Junior se permitiu imaginar como seria ceder àquele impulso, mas a imagem de Aline surgiu em sua mente, clara e perturbadora.

Ele recuou levemente, com um sorriso gentil, tentando aliviar a situação.

— Foi uma alegria te conhecer, Jade — disse ele, sua voz carregada de sinceridade, mas também de um peso que ele não conseguia ignorar.

Jade abriu os olhos, percebendo a hesitação de Junior. Ela sorriu de volta, tentando esconder a decepção.

— Igualmente, Junior. Espero te ver de novo no treino — respondeu ela antes de entrar em casa, deixando Junior sozinho na escuridão.

Enquanto dirigia de volta para a Southgate Boulevard, Junior mal conseguia processar o que havia acontecido. Jade era incrível, e qualquer outro momento ele teria se deixado levar. Mas Aline estava sempre presente em seus pensamentos, uma presença silenciosa e poderosa que ele não conseguia ignorar.

Ao chegar em casa, encontrou a cena já familiar: Aline dormindo debruçada sobre pilhas de livros, o cheiro de morango de seus cabelos enchendo o ambiente. Junior sentiu um misto de carinho e tristeza ao vê-la assim, tão dedicada, mas também tão distante. Ele se aproximou, pronto para pegá-la no colo e levá-la para cama, como fizera tantas outras vezes. Mas então, algo diferente aconteceu.

Aline começou a balbuciar palavras em seu sono. No início, eram murmúrios incoerentes, mas logo as palavras tomaram forma, e Junior percebeu que ela estava sonhando com ele.

No sonho de Aline, eles estavam juntos na Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C. Ela estava diante dele, recitando um trecho da Declaração de Independência:

— "Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objetivo, indica o desígnio de reduzir o povo ao despotismo absoluto, pertence ao povo o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos garantias para sua futura segurança".

Junior a observava, encantado com a paixão que ela colocava em cada palavra, mesmo em seu sonho. Ele via nos olhos dela o fogo que a movia, o desejo de fazer algo grandioso, de liderar e mudar o mundo. Em seu sonho, Junior não resistiu; ele se aproximou e a segurou pelas mãos, olhando fundo nos olhos dela.

— Você é maravilhosa, Aline — disse ele, sua voz suave, mas cheia de sentimento. — Eu te amo.

Aline, ainda sonhando, respondeu. Sua voz era um sussurro, mas carregava uma verdade que ela nunca havia expressado acordada.

— O que sinto por você... é tão puro quanto o que sinto por minha cidade. — Ela hesitou, como se estivesse lutando contra o próprio medo. — Mas tenho tanto medo, Junior. Medo de destruir tudo. De falhar com você... e com meus sonhos.

Junior, ainda segurando-a, sentiu seu coração apertar. Ele estava ouvindo uma confissão que Aline nunca havia feito em palavras conscientes. Aquela revelação, tão íntima e vulnerável, o tocou profundamente. Ele compreendeu que, por trás da força e determinação de Aline, havia inseguranças que ela raramente permitia que alguém visse.

De volta à realidade, Junior a observava dormindo, as palavras do sonho ecoando em sua mente. Com cuidado, ele a ergueu nos braços. Junior não entendia nada de história, política, magia ou economia. Mas ele entendia do amor que Aline tinha pelos seus ideais. E ele a amava por ser tão ingenuamente idealista. Ele sabia que o mundo era duro, mas sentia que aqueles sentimentos eram tão puros e elevados que seria uma tragédia se ela os abandonasse e deixasse de crer neles. Seu amor se agudizou e ele não se conteve.

Seria uma violência? Um abuso? Machismo? Num ímpeto, ele com Aline ainda dormindo, e com ela nos braços, Junior a beijou. Um beijo doce, inicialmente inerte. Mas logo correspondido. Os lábios de ambos tocavam-se, encaixavam-se, sentiam-se. Na mente de Junior, ele estava com ela na biblioteca apaixonadamente se beijando, e ele via tudo com seus olhos fechados. Uma música ressoava como que vindo da transcendência: "We might as well be strangers in another town, we might as well be living in another time". Ao despertar de seu sonho, sentiu as mãos quentes e macias de Aline deslizando por seu rosto. Ele não estava sonhando, seu beijo estava sendo correspondido.

Ele abriu os olhos e afastou-se lentamente de Aline, podendo assim ver seu rosto com traços delicados. Para sua surpresa, ela estava dormindo, com um sorriso genuíno e gentil no rosto. Talvez ainda sonhando com um beijo apaixonado na biblioteca do congresso. Gentilmente Junior a depositou na cama, com ela presa em seu sonho. E deitando-se ao seu lado, olhava para ela perdida no Oníron enquanto sabia que apostar no amor que sempre nutriu era a decisão certa.

EPR - Apresentando o Mundo Mágico de Celso Alencar

 Um amor proibido entre um bruxo e um não bruxo, um adolescente atlético e ágil com um demônio guardado dentro de si e poderes mágicos por se desenvolverem, uma ruiva sensual com segredos aristocráticos e um grupo de amigos ímpar. A história de "O despertar de todos os males" tem tudo para encantar adolescentes que se permitam surpreender e descobrir que magia pode se enquadrar muito bem no nosso mundo contemporâneo.

Os personagens como eu mais ou menos imagino eles. Créditos: Microsoft Designer

Se você gosta da saga "Harry Potter", uma boa pedida pra se aventurar na leitura e no RPG é essa história. A história segue a vida de Benjamin, um jovem latino que mora numa versão de Nova Iorque que parece marcada mais do que nunca pelo ódio e intolerância contra os "velhos rejeitados dos americanos", negros, latinos, liberais/progressistas. Benjamin possui uma prima, Marina - uma das personagens mais doces da obra - que é uma criança bem pequena que ainda troca as letras quando fala. Alencar espertamente desenvolve bem essa personagem e a relação doce entre ela e seu protagonista só para machucar seu coração quando a garotinha é subitamente raptada.

A partir do rapto que a história realmente começa a andar. Antes disso, Alencar cuidadosamente trabalha o cotidiano dos jovens que compõem a história: Dante Osório, um ricaço amigo de Benjamin que lembra um pouco o Harry Osborn da trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi. Além deste, Rebecca também é uma personagem interessante, ela é inteligente, mas não seria apropriado reduzi-la a uma nerd (ainda que tenha óculos e problemas de visão, e apreciar muito os livros), mas o segundo personagem mais brilhante é Clover. Uma ruiva misteriosa e sensual - aliás, Alencar sabe escrever sobre personagens sensuais - mas que é muito mais que rosto e um corpinho bonito. Sarcástica, inteligente, observadora, são três excelentes adjetivos para essa personagem. Vale a pena ainda mencionar Caim, um dos mais enigmáticos de todos, e que servirá a ele como forma de explicar o mundo mágico do subterrâneo de Nova Iorque. Eles se divertem em conversas sobre trivialidades e jogos de RPG de mesa. Isso é também uma ótima forma de estabelecer bem a personalidade de cada um, até os maneirismos, como o irritante otimismo ingênuo de Benjamin e sua inculcação com astrologia. Toda vez que o Benjamin diz que "poderia ser pior" eu sinto a angústia interior dos personagens que o circundam.

A narrativa começa a partir de um grupo de jovens idiotas - um clichê que sempre funciona em contos de terror - fuçando onde não deviam. Eu imagino a reunião do grupo antes: - Vamos invadir um mausoléu de um ricaço falecido com fama de mexer com coisas esquisitas? Vamos! Que ótima ideia!

Mas é um clichê que funciona bem, o destino deles é o mesmo que aguarda adolescentes idiotas análogos dos filmes do Jason de Sexta-feira 13.

Após toda essa contextualização a vida de nosso protagonista, Benjamin, ou simplesmente: Benzinho, é abalada com o misterioso rapto de sua prima. Na busca por ela na escola, Benjamin toma contato com a magia, um necromante a teria raptado e Benjamin - que é por acaso, um excelente lutador - distribui socos e pontapés para se salvar, e conta ainda com a ajuda de um policial: Alex Grippe. Por fim, numa das buscas por Marina, o grupo receberá o reforço ainda do jovem e roliço Jorge - irmão de Caim - que se engajará numa luta feroz com bruxos poderosos num metrô abandonado.

No entanto, a trama realmente ganha contornos dramáticos quando a sensual Clover, interesse romântico e uma das personagens mais interessantes da obra é simplesmente sequestrada por Kent Paul. Paul é um terrorista extremamente letal, eficiente e psicopático. Tem um longo histórico nesse mundo matando gente importante e influente. Não fica claro no texto de Alencar o quão longe Paul foi em sua violência contra Clover, mas ao final, o estado em que ela é encontrada sugere (talvez?) que ela possa ter sido estuprada por Paul (fica a dúvida no ar); pois as agressões desferidas por Paul contra a ruiva sempre tem pesadas conotações sexuais, além de uma carga gigantesca de humilhação.

Após Benjamin, Alex e Jorge libertarem Rebecca num parque diversões abandonado, e derrotarem Augustos (o necromante), Benjamin vai à batalha final no metrô para salvar a sua amada. Ele logra êxito, é claro! Mas a batalha final é emocionante e vale a pena ser lida pelo qual eu não entrarei em demasiados detalhes. A cena final, expondo a magia para o mundo e uma cena heróica ao melhor estilo Homem-Aranha do Tobey Maguire parando um trem, é em si mesmo um espetáculo a parte.

Uma qualidade do texto é que ele é dinâmico e não perde muito tempo em detalhes desnecessários, uma mal causado pela tolkienização de tudo (mal que inclusive me afeta, eu confesso). Recomendo fortemente a obra.

Acompanhe no EPR mais artigos sobre a obra e adaptações para RPG!

terça-feira, 13 de agosto de 2024

[CONTO] Queens, Yale, Serra do Lago - I

 01 de Dezembro de 2024 - Cidade de Nova Iorque.

Southgate Boulevard
Na pequena casa alugada na Southgate Boulevard, no Queens, as noites eram sempre longas. Aline Ribeiro passava horas mergulhada nos estudos, as páginas dos livros de economia e política espalhadas sobre a mesa. A luz do abajur iluminava seu rosto concentrado, os olhos correndo pelas linhas dos textos densos. Junior, seu colega de escola e agora companheiro de casa, costumava observá-la em silêncio, com o coração dividido entre a admiração e a frustração.

Naquela noite, como tantas outras, Junior estava na sala de estar, tentando focar nos treinos de luta que o levariam ao The Ultimate Fighter America. Mas sua mente insistia em desviar para Aline, que estava no quarto ao lado, debruçada sobre mais um livro de cálculo. Ele suspirou, sentindo o peso da indecisão de Aline sobre seus sentimentos, algo que ele tentava ignorar, mas que estava sempre presente.

Quando o silêncio se prolongou, Junior se levantou e caminhou até o quarto de Aline. Encontrou-a dormindo sobre a escrivaninha, os cabelos espalhados pelos livros abertos, o rosto descansando suavemente sobre as páginas. Aproximou-se com cuidado, sabendo que aquele era o único momento em que podia estar tão próximo dela sem a barreira dos estudos ou da indecisão.

Com gentileza, passou o braço por baixo dos ombros dela e a ergueu. Aline murmurou algo inaudível, mas não acordou. Ele sorriu, sentindo o aroma de morango que vinha dos cabelos dela, o calor suave de sua pele. Caminhou até o quarto e a deitou na cama, cobrindo-a com o cobertor.

Antes de sair, ele ficou parado à porta, olhando para ela adormecida. Pensou em todas as vezes que havia imaginado estar ao lado dela assim, mas sempre se frustrava ao perceber que, mesmo morando juntos, Aline parecia distante, mais interessada nos livros do que nele. Para piorar, ela sempre acordava cedo, bem antes dele, pois pegava um trem para Haven, para chegar ao campus da Univeristy of Yale. Ele sorriu ao perceber que o dia seguinte, um sábado seria diferente.

Microsoft Designer
No dia seguinte, pela manhã, Aline acordou e encontrou Junior na cozinha, preparando um café forte. Ela sorriu, tentando afastar o cansaço da noite anterior.

— Bom dia, Junior — disse ela, pegando uma caneca. — Obrigada por me colocar na cama ontem à noite... de novo.

— Não foi nada — respondeu ele, sem tirar os olhos da cafeteira. — Você parece estar estudando muito ultimamente. Não tem tido tempo para mais nada.

Aline deu um meio sorriso, sentando-se à mesa com o café em mãos.

— Sabe como é... A faculdade aqui é muito exigente. Tenho que dar o meu melhor. E, sinceramente, eu gosto de estudar. Gosto de sentir que estou aprendendo, crescendo.

Junior a olhou nos olhos, sentindo que aquela era sua chance de expressar o que estava em sua mente.

— Eu entendo, Aline. Mas... será que todo esse estudo não está te afastando do resto? Das pessoas ao seu redor?

Ela franziu a testa, tentando entender onde ele queria chegar.

— Do que você está falando, Junior?

Ele suspirou, tomando coragem para continuar.

— Eu vim para cá com você porque... queria estar ao seu lado, queria que a gente pudesse se conhecer melhor, talvez até... ser algo mais. Mas você está sempre tão focada nos livros que sinto que, mesmo morando juntos, estou mais longe de você do que antes.

Aline ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na xícara de café. Ela sempre soube dos sentimentos de Junior, mas nunca teve certeza de como se sentia em relação a ele. Ele era bonito, um bom rapaz, sempre a apoiava, mas... será que ela gostava dele?

— Junior, eu... — começou ela, hesitante. — Eu aprecio tudo o que você faz por mim, de verdade. Mas... eu não sei se estou pronta para algo mais. Tenho tantas coisas em mente, tantos sonhos e objetivos... E, honestamente, não sei se tenho espaço para mais alguma coisa agora.

Junior assentiu lentamente, tentando esconder a decepção.

— Eu entendo, Aline. Não quero te pressionar. Só queria que você soubesse como eu me sinto. Vou continuar ao seu lado, como sempre. Só... não quero que você me veja apenas como o colega de casa. Quero ser mais do que isso.

Aline olhou para ele, tocando sua mão suavemente.

— Você já é mais do que isso, Junior. Eu só preciso de tempo para descobrir exatamente o que sinto, para entender onde isso tudo pode nos levar. Espero que você possa ser paciente comigo.

Ele sorriu, um sorriso triste, mas sincero.

— Eu serei, Aline. Sempre serei.

domingo, 11 de agosto de 2024

EPR - Canto de Sirene, Magia nova para REALITATE 1.5

 As sereias são belas criaturas mitológicas dotadas de extraordinária beleza e doçura, mas que por detrás desse paradisíaco vislumbre oculta morte e destruição. Alguns feiticeiros no universo de "As Crônicas de Serra do Lago" conseguiram descobrir o segredo por detrás desse poder. Uma das magias utilizadas pela mítica Iara, do folclore nacional, é o "Canto de Sirene", a voz poderosa e doce que permite a uma sereia conduzir os homens a loucura, mas que pode ser utilizada, assim como o "Simulacro de Tessa" para impor, independente do gênero e da sexualidade, emoções e afetos em quem ouve.


Canto de Sirene (Nível 3, Trevas)

Descrição: O Conjurador faz um teste de INT+NPM para executar a conjuração, podendo acrescentar o bônus do conhecimento Canto (se tiver) ao teste. Em caso de sucesso, os oponentes devem passar num teste de RES para não sucumbir ao controle do cantor. Toda rodada o encantado tem o direito a um teste de RES para se libertar. Personagens com aparência 5+ recebem +1 no teste, 7+ recebem +2 no teste.

OBS: Se o objetivo do cantor for a sedução, personagens com sexo inverso do personagem, ou que mesmo sendo do mesmo sexo, apresentem preferência sexual homoafetiva [Peculiaridade de 0 ponto], fazem um teste de RES com redutor de 1. Se forem do mesmo sexo ou então não tiverem interesse no sexo do conjurador, recebem um bônus de +2 para resistir.

Caso o objetivo seja impor um buff ou um debuff, isso custará 1 ENG a mais para cada 50% de debuff em algum atributo. Ex.: Debufar a HAB pela metade, custa 1 ENG a mais. O mesmo para dar um buff de 50%.

Pré-requisito: Infligir Dano Maior.

Tempo de conjuração: 1 turno para concentrar.

Item necessário: Uma concha marinha.

Custo: 3ENG.

EPR - Magias do livro "O Despertar de todos os males" de Celso Alencar. [REALITATE 1.5]


Usando o sistema REALITATE 1.5, pensei em como fazer algumas magias do cenário e obra do parceiro e escritor Celso Alencar. Um dos poderes mais interessantes é o fragor, um tipo de esfera energética mágica atirada pelos bruxos da história. 

Usei para representá-lo a regra de conversão de poderes em magia apresentada em "O Colégio dos Pioneiros" ajustada conforme na penúltima edição de El Pavés Rubro, onde cada 3 slots são iguais a 1 nível. Fragor é um ataque energético convertido em magia.

Ataque Mágico padrão: INT+HAB+BdA (ATENÇÃO!)+2d6

Fragor (Nível 1, Elemental)

Fragor oferece um bônus de acerto (BdA) fixo, como um ataque energético. O que fará um fragor ser mais poderoso que outros é a capacidade de pagar ampliações ou o custo em energia (ENG).

  • Forma Base: BdA+4 dano 1d6 - Custa 1ENG

  • Ampliação 1: (+50%, Nível 2): BdA +6, dano 1d6+3 - Custa 2ENG 

  •  Ampliação 2: (+100%, Nível 3): BdA+8, dano 2d6 - Custa 3 ENG
  • Ampliação 3: (+150%, Nível 4): BdA+12, dano 3d6 - Custa 3ENG+1PdA

Outra magia que me chamou bastante a atenção foi a que Samara utiliza na batalha do metrô para se defender dos golpes de Benjamin, na qual ela substitui seu corpo por um boneco de barro que prende o adversário.

Body swap (Nível 3, Elemental)


Tempo de conjuração: 1 turno, instantâneo com gasto de 1PdA.

Teste de INT+NPM

Efeito: O conjurador, caso seja atingido por um golpe, pode efetuar a troca de lugar com um boneco de terra que receberá o dano em seu lugar. Precisa conjurar a magia antes de usar o efeito, e poderá ser executado a qualquer momento. 

Custa 4ENG.

Pré-requisito: invocar goblin de terra.


Armadura Mágica (Nível 2, Luz)


Efeito: Durante um turno o feiticeiro conjura a magia que forma uma armadura luminosa ao redor dele aumentando sua resistência. Ela é construída a partir do Poder Ultra-Resistente com Modificador +100% (2 slots extras), o que redunda numa magia de nível 2. Com isso os bônus dela são os seguintes: RES+5 para testes de Resistência física, +3 na jogada de defesa padrão (RES+HAB+2d6), além de uma RD natural de 2.

Custa: 2 ENG

Tempo de conjuração: Um turno.

Pré-requisito: Fragor.

Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...