terça-feira, 20 de outubro de 2026

[CONTO] Um lugar abandonado

LK2-1890 - Serra do Lago - 20 de Outubro de 2024



Aline estava habituada ao silêncio de sempre de sua casa. Seu pai sempre saía misteriosamente à noite, e sua mãe se reunia no Colégio dos Pioneiros no Clube Tupã. Ela sempre quisera saber o que era, e sempre achara bonitos os uniformes daquele Colégio Federal. Mas sua mãe insistia em mantê-la na escola pública, mesmo tendo dinheiro mais que suficiente para colocá-la em uma escola particular. Ela não achava de todo ruim, mas às vezes era um pouco menosprezada pelas meninas do colégio por ser rica. Ela não reclamava, não chegava a ser bullying, mas ela percebia que os professores a adoravam por ela ser boa aluna e ter todo o apoio dos pais. Mas, paradoxalmente, quanto mais seus recursos financeiros permitiam a ela ser uma boa aluna — e por isso, muito apreciada pelos professores —, tanto mais as demais crianças torciam o nariz para ela por acharem que ela só era apreciada por sua família ser rica.

Uma vez, quando questionou a Daniele o porquê de ela a manter na escola pública, Daniele disse que preferia a humildade das pessoas comuns ao elitismo esnobe das pessoas das grandes famílias. Durante um tempo essa resposta a satisfez. Mas, depois de um tempo, ela começou a duvidar; pois, se as grandes famílias eram tão esnobes e insuportáveis, por que a mãe insistia em liderar um clube de filantropia dessas mesmas famílias no Colégio dos Pioneiros, uma instituição elitista que no passado pertenceu aos Cabral, mas que fora expropriada pelo governo depois que o sobrenome Cabral virou mais um nome de plebeu na cidade, sem qualquer respeito entre as pessoas das grandes famílias? A primeira hipótese é que a mãe e o pai eram dois muquiranas que não queriam gastar; depois, que eles queriam esconder algo. Após um tempo, Aline simplesmente parou de tentar adivinhar e aceitou que nunca teria a resposta. O mais perto que teve de uma foi quando, após muito insistir para estudar em um ambiente onde talvez não torcessem o nariz para ela por simplesmente ser rica, a mãe disse: "Você invariavelmente saberá um dia, mas não hoje".

Bem, aquela era mais uma dessas noites. Chovia copiosamente e a chuva estalava nos telhados de terracota. Ao se deitar para dormir, pensou apenas em ver o pai pela manhã, perguntar à mãe como havia sido a reunião apenas para receber uma protocolar resposta de "foi boa", e enfim ir para a EEEM Santo Tomás. Aline escovou os dentes, limpou a maquiagem, fez algum skincare noturno e deitou-se para descansar. Ela amava ouvir o respingar da chuva: era como o resfolegar de um animal dócil sussurrando em seus ouvidos. E assim como alguém docemente descido, suavemente desiçado sob um espelho d'água, Aline submergiu no sono.

Sem saber como, onde ou por quê, ela abriu os olhos em um lugar chuvoso com uma iluminação verde doentia por todos os lados, vinda de postes de luz e fiações embaralhadas como se repletas de gatos. Era uma espécie de versão mastodôntica em extensão do morro das antenas, local onde fora um par de vezes fazer trabalhos de escola com amigas da escola pública. Havia vielas por todos os lados, e as paredes eram ora pichadas, ora descascadas, cobertas de limo. Portas de bar de correr, feitas de metal, feitas para serem içadas, restos de cartazes nas paredes com letras indiscerníveis e palavras indizíveis, formando apenas um mosaico úmido de cores em camadas sobrepostas e bordas rasgadas. A princípio ela estava tratando com naturalidade, como todo sonho. Raramente se percebe que está sonhando, mas, em algum momento, a estranheza do lugar imerso na noite profunda trouxe a luz da sanidade. Logo ela se deu conta de que estava sonhando. As gotas estalavam em seu ombro com enorme realismo, mas havia algo fora do lugar. As placas de publicidade tinham nomes de marcas conhecidas como Coca-Cola ou BYD, mas ou as cores estavam erradas, como o azul na marca de refrigerante, ou as letras estavam erradas, algo como YDB. Embora ela não tivesse certeza, as coisas pareciam perder o contorno, ganhavam camadas sobrepostas em padrões RGB como se fossem um tipo de aberração cromática, e uma misteriosa névoa se formava e sumia num piscar de olhos, distorcendo a paisagem ao fundo, às vezes sumindo com objetos que estavam ali, às vezes acrescentando novos.

No início foi fascínio. Aline mal acreditava que estava tendo um sonho lúcido. Ela poderia tentar fazer as coisas incríveis que sempre quis fazer nas creepypastas e boatos de sonhos lúcidos na internet. Ela estendeu a mão para uma parede, se concentrou e desejou que uma escada brotasse nela, levando-a para cima dos casebres e barracos do local. Mas se frustrou: nada aconteceu. O local maravilhoso parecia subitamente tão rígido quanto a realidade.

— Balela... — Ela expirou abruptamente. — Sonhos lúcidos são apenas sonhos chatos — sussurrou para si.

Ela caminhou um pouco mais, observando os efeitos de aberração cromática, a névoa estranha, as cores trocadas em objetos familiares, formas sem contorno claro... tudo era familiar, tudo era esquisito. Era como se estivesse tudo ok em 99% de como as coisas deveriam ser, mas havia sempre alguma coisa off, alguma coisa fora de lugar que, sempre que percebida, dava uma aura de medo ao local. Um frio subiu pela espinha; seu cabelo estava empapado e já começava a sentir frio. E o local, incrivelmente vazio. Aquilo começou a deixá-la desconfortável. "Já que não tem nada para fazer aqui", pensou, "o jeito é acordar", concluiu.


O problema era esse: ela não sabia como. Jogou água no rosto. Se beliscou. Fechou os olhos. Nada funcionava. Agora ela começava a ficar com medo. "O meu corpo acordará quando estiver pronto", ela pensou. "Deve estar ainda no meio da noite", justificou. Mas o tempo passava e o medo aumentava. Em determinado momento, pensou ter visto um vulto. Depois ouviu sons de conversas — eram distantes, e o som flicava como uma conversa de rádio prestes a dessintonizar. Viu algo humanoide se erguer de uma poça de água e caminhar na direção de um poste numa esquina antes de sumir na curva. Parecia translúcido, como se feito da própria água. Com medo, ela se aproximou para ver. Nada. Nenhum sinal. Agora era desespero; queria voltar para casa, sair daquele lugar, mas como? Ela caminhou um pouco mais até que viu alguém.

Era um homem, parecia estar na casa dos 30, barba por fazer; ele estava debaixo de chuva, sentado em uma escrivaninha na encruzilhada. Ela se aproximou dele curiosa e com medo. Ele parecia estar digitando algo em um computador que parecia uma relíquia dos anos 90. Mesmo molhado e escorrendo água por todos os lados, funcionava. Sem sinal de fios. O homem ergueu a cabeça, seus olhos puderam ser vistos, e o horror se apossou de Aline. Dois pontos quase como se fossem pintas sobre a pele. Eram do tamanho de botões de camisa. Pareciam olhos, mas não eram. A boca era pouco mais que uma linha que sorriu (ou algo perto disso), mostrando dentes pontiagudos como os de um tubarão. Ela se virou e correu. Escutou a escrivaninha ser destruída e os passos da criatura — o que quer que fosse — a seguiam em um ritmo acelerado. Quando os sons estavam ficando mais altos, mais intensos, uma microfonia intensa cortava o ambiente, fazendo o ouvido dela doer e ela se desorientar. Na primeira vez, ela só levou as mãos aos ouvidos e viu um poste ser derrubado logo após passar por ele. Ela se esquivou dos fios como pôde, das faíscas elétricas. Temeu ser eletrocutada pelas poças... Mas, por sorte, nada aconteceu. Na segunda vez, após virar na esquina, escutou algo arrebentar uma porta de bar atrás dela. O som do metal amassado da porta lhe deu ainda mais pânico. Mas estava se cansando, e a microfonia fez o mundo parecer nevoento, a paisagem flicava como se estivesse pronta para ser substituída por outra imagem, as coisas perdiam contorno, ganhavam sobreposições verdes, vermelhas e azuis nas bordas. Ela acabou entrando em uma valeta escavada no concreto, como se fosse uma obra pública inacabada, abandonada pela prefeitura. Havia o que parecia ser uma manilha d'água ali recém-posta. Ela não sabia para onde estava correndo, mas sabia que aquilo não estava ali. A aberração cromática e a névoa literalmente flicaram o local, e aquele caminho surgiu. O monstro voltava a se aproximar. Ela se jogou para dentro da manilha, rastejando, e ouviu algo entrar no túnel de concreto formado pela manilha atrás dela. A água escorria entre seus braços e pernas, vinda de algum lugar pela manilha. O local ficava mais e mais escuro conforme entravam, quase como se fosse parar no esgoto. Por fim, a microfonia ressoou mais uma vez; sentiu o ouvido sangrar. "Por que isso está acontecendo?", ela pensava em gritos e gaguejos. "Que lugar é esse?". Ao fim disso, silêncio. Nenhum sinal do monstro.

Ela estava no escuro, em um túnel onde a luz verde externa parecia distante. Havia água escorrendo aos montes entre suas mãos e joelhos engatinhantes. Ela se sentou. Pela primeira vez olhou para trás com atenção. Ninguém. Mas ela não tinha coragem de sair. Não sabia quanto tempo estava naquele lugar, mas pareciam muitas horas... Ela chutaria umas 8 ou 9 horas. Já era para ela ter acordado. Já era para ter amanhecido. Mas o mundo exterior continuava noturno, suburbano e iluminado por aquela luz verde fantasmagórica. Ela abraçou as próprias pernas, os joelhos ralados no cimento grosso. A água a contornava em uma correnteza não desprezível. Aline chorou. Ela olhou para o negrume ao redor tentando ver algo. Muito mal enxergou palitinhos riscados quase que com carvão na parede. Aquelas sequências de traços que prisioneiros fazem para marcar os dias. Ela contou-os, mas a conta sempre devolvia um número diferente. Ela não sabia se era a escuridão, mas havia sempre algo bizarro. No quarto item, um quinto aparecia em algum momento. Ela não percebia a transição. A coisa não estava ali. De repente, estava. E parecia sempre ter estado. Seu choro se tornou mais amargo; ela já estava aceitando que morreria ali. Não sairia daquele lugar. Então uma silhueta de luz branca veio de trás de si; a luz emanava como que por poesia, cada verso trazia "uma luz e uma iluminura, que iluminada era pela luz primordial". Aline não sabia se era a luz propriamente dita que fazia essas palavras brotarem em sua mente ou se ela de fato as ouvia. Mas a mão se estendeu. A pegou pelo braço e a fez atravessar o mundo por dentro, como se a matéria perdesse a capacidade de produzir atrito. Aline viu apenas um colar de penas sacolejante na silhueta de luz. Aquilo era familiar. Mas ela despertou. Em sua cama. Olhou para o relógio assustada. Eram 3:32 da manhã.

Tentou se convencer de que era um sonho ruim. Mas parecia tão real. Era tão aterrorizante em seu surrealismo realista que não conseguiu dormir. Levantou-se, foi até a cozinha e percebeu a luz acesa. Sua mãe estava diante da geladeira como se pegasse água para si.

— Boa noite, mamãe — ela falou.

— Boa noite, filha. — Ela fechou a geladeira e olhou para a filha segurando uma caixa de leite. — Você está bem? Parece assustada.

— Só um sonho ruim, mãe — falou sem confiança.

— Que bom. Bem, eu vou só tomar um copo de leite e ir tomar um banho e dormir. Reunião longa.

Só então Aline percebeu que ela usava as roupas tradicionais do tal Clube, uma espécie de beca e um colar com penachos.

[CONTO] Um lugar abandonado

LK2-1890 - Serra do Lago - 20 de Outubro de 2024 Aline estava habituada ao silêncio de sempre de sua casa. Seu pai sempre saía misteriosamen...