sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Por que hoje prefiro a amizade das mulheres

Antes de mais nada, não me considero esquerdomacho ou feministo. Só alguém muito cansado. Homens estão cansados de muitas coisas, eu estou cansado no meu caso, da sociabilidade masculina. A parte mais cansativa de ser homem é que nunca basta ser homem. Você tem que estar o tempo todo demonstrando que é. E não é que mostrar sua forma de seja errado. Ser homem e hétero é algo que vai aparecer naturalmente. Num olhar interessado que você fará para uma garota bonita.  Na sua disposição de proteger quem está vulnerável. Valores de uma masculinidade saudável. O problema aqui é outro... No contexto do Brasil, a coisa precisa ser performática, essa demonstração parece seguir um roteiro bastante previsível. Existe uma espécie de cartilha informal da masculinidade que ninguém entrega a você, mas que todo mundo parece conhecer. E, se você pretende circular tranquilamente em determinados ambientes masculinos, é bom não se afastar muito dela. E é especificamente disso que estou falando.

Você precisa ter os interesses certos, os assuntos certos, as opiniões certas. E, sobretudo, precisa demonstrá-los.

Listinha Informal:

  • Fale de futebol. De preferência, com entusiasmo. Tenha um time, acompanhe o campeonato, saiba quem foi contratado e quem deveria ser demitido. Se não gosta de futebol, tudo bem, desde que tenha alguma outra paixão suficientemente masculina para compensar essa deficiência.
  • Fale de política. Mas, em certos círculos, convém que seja de direita. Reclame dos impostos, dos Estado, do politicamente correto, da suposta fragilidade das novas gerações. Demonstre indignação com alguma coisa, de preferência com insultos e palavrões. A indignação, especialmente quando acompanhada de um tom de voz categórico, é uma das formas socialmente mais aceitas de exibir virilidade.
  • Fale de cinema, desde que sejam filmes de ação, violência, perseguições, explosões e homens resolvendo conflitos com socos ou armas. Não é proibido gostar de filmes mais sensíveis, naturalmente. Só não convém demonstrar entusiasmo excessivo por eles. Pode levantar suspeitas.
  • E fale de mulheres. Muito. Conte com quem ficou, com quem gostaria de ficar, com quem teria ficado se tivesse tido oportunidade. Ao passar uma mulher bonita na rua, faça algum comentário ostensivo sobre o corpo dela. Não basta sentir atração: é preciso anunciá-la. A mulher, nesse caso, deixa de ser propriamente o objeto do desejo e se transforma em instrumento de comprovação da heterossexualidade diante dos outros homens.
  • Até a comida participa desse ritual. Existe uma masculinidade alimentar que exige desprezo por qualquer coisa considerada delicada, sofisticada ou saudável demais. Homem de verdade gosta de churrasco, arroz, feijão, bife e cerveja. Se demonstrar interesse por uma salada diferente, um prato vegetariano ou alguma experiência gastronômica mais elaborada, talvez precise explicar que continua sendo homem.

São pequenos gestos. Pequenas declarações. Pequenas encenações de masculinidade que se acumulam ao longo do dia. Isoladamente, parecem bobagens. Mas, somados, constituem uma espécie de trabalho em tempo integral. E o mais curioso é que quase nada disso tem a ver com o que uma pessoa realmente é ou deseja. Tem a ver com aquilo que ela precisa parecer ser diante dos outros. A masculinidade, nesses ambientes, não é uma condição. É uma prestação de contas permanente. E as contas são prestadas, principalmente, a outros homens. Talvez seja essa a maior ironia de determinada cultura heterossexual masculina: homens que fazem questão de demonstrar o quanto gostam de mulheres, mas organizam boa parte do próprio comportamento em função da aprovação de outros homens. São eles que precisam reconhecer sua virilidade. São eles que precisam validar seus gostos, suas opiniões, seus hábitos e suas escolhas. São eles, afinal, que detêm o poder de conceder ou retirar simbolicamente o certificado de macho.

O pior é que é um sistema que a gente mesmo criou. A maioria das pessoas hétero normalizam tanto isso que nem se sentem incomodados. Mas isso gera de certo modo essa proliferação de incels e redpills. E é isso que eu não gosto. Sou muito mais hostil a machosfera do que propriamente simpático às posições feministas. Até porque, por ser um movimento de mulheres, eu nãoa che que tenha algum direito e mui menos dever de apoiar ou ser contra. Pra mim, é só um fato social, que deve ser "durkheimianamente" analisada. E é só isso. Não havendo muito mais a tratar, encerro aqui.

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