quarta-feira, 8 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - O Arconte

Serra do Lago (ES), 23 de Julho de 2009, 23:45 - Bosque do Colégio.


Mari caminhava atrás de Monty. Achava-o engraçado em seu jeito de ser, mas, ao mesmo tempo, um pouco assustador — nada, porém, comparável ao que havia presenciado naquela noite.

Ela estudava em um colégio de feiticeiros. Segundo os amuletos descarregados de Planaltina, manufaturados artesanalmente por Dona Magnólia Ribeiro, possuía o arquétipo junguiano do mago. Ainda assim, considerava a magia profundamente desinteressante — quase como retirar o sabor da vida. Para ela, era como jogar GTA San Andreas com cheat code: não tinha graça.

Claro, não rejeitava a magia por completo. Sabia que podia fazer muito bem às pessoas, se bem utilizada. Mas via tanto esnobismo e elitismo em torno daquele saber que acabou desenvolvendo certo ranço.

Ainda assim… fora salva por magia. Ou algo muito próximo disso.

Quando os funcionários foram subitamente tomados por um ódio irracional e faminto — tão grotesco quanto suas peles acinzentadas — foi Monty, que ela acreditava ter ido embora, quem retornou para salvá-la. A imagem dele escrevendo em uma folha de papel, aprisionando o monstro na sacada das galerias, revelou a ela um tipo de magia completamente diferente.

— Ei, Monty… pra onde estamos indo?

Monty marchava à frente, olhar fixo, sem responder.

— Monty! A gente acabou de escapar por pouco… Eu preciso te agradecer, mas — puta merda — me fala pra onde estamos indo!

Ele parou abruptamente. Mari trombou contra suas costas, e seus óculos caíram no chão.

— Droga!

Ela se agachou no escuro, tateando o solo até encontrá-los.

Monty permanecia imóvel. Silencioso.

— Monty? Eu deixei minha pistola com a Natália… Se você não disser nada, podemos estar indo direto pra outro perigo.

Nenhuma resposta.

Quando colocou os óculos, Mari percebeu: os olhos dele emitiam uma suave luz azul.

— Monty…?


Na mente de Monty, a realidade era outra.

Ele estava diante de um equipamento de medição de frequências de rádio e um telescópio caseiro — instrumentos que havia construído na juventude.

— Monty.

A voz era sua… mas mais grave.

Ele se virou. À sua frente, estava ele mesmo — mais velho.

— Arconte — disse Monty.

— Sim.

O homem, vestindo um hobby de linho vinho, estava sentado diante de uma máquina de escrever em um espaço branco infinito.

— Alguém — ou algo — bloqueou minhas memórias… e as suas. Com isso, parte dos nossos poderes também foi selada. Estou operando no limite. Não consigo proteger esta realidade com a mente fragmentada. Sei que você entende minha linguagem.

Monty desviou o olhar.

— Entendo.

— Não podemos ter nossas memórias completas ao mesmo tempo. Mas posso sacrificar meu logos em três fragmentos. Eles ficarão com você.

— Eu não estou pronto.

Monty demonstrava nervosismo: piscava rápido, apertava o tecido da calça, andava em semicírculos — uma estereotipia para se acalmar.

— Monty… você não pode se dar ao luxo de entrar em colapso agora. Somos a mesma pessoa, em momentos diferentes da vida. Eu tentei habitar sua mente… para ter uma chance de ser feliz. Mas percebo agora que isso não é possível. Sacrificar vidas por essa tentativa vazia não faz sentido.

O Arconte se inclinou levemente.

— Mas você pode salvá-los. E, se proteger bem os fragmentos do logos, talvez tenha a chance de alcançar a felicidade que eu nunca tive.

— Tipo… ter amigos?

— Você já tem. Denver, Mari, Ramona, Nanna… pessoas que se importam com você.

— Tipo… a menina mergulhadora ou a Elizabeth?

O Arconte sorriu, quase imperceptivelmente.

— Seu coração está acelerado, Monty. Eu consigo ver.

— Bobagem!

O nervosismo aumentou. Ele se sentou e começou a sussurrar valores da constante de Planck.

O Arconte se agachou diante dele.

— Calma. Eu sou você.

— Mas você não é neuroatípico! Você era normal…

— Isso nunca te impediu de ser extraordinário. Não fui eu quem salvou a Mari… foi você. Quando a viu em perigo, o que eu disse?

— Mandou eu fugir.

— E você fez algo muito mais corajoso. Com uma fração mínima do meu poder, escreveu a salvação dela.

Monty travou por um instante — e, pela primeira vez, sustentou o olhar.

— Qual é o plano?

— Minha percepção está turva. Minha mente está dividida entre duas realidades. Somos dois logos incompatíveis no mesmo corpo… mas e se eu usar o que resta do meu poder para tornar você inteiro?

Silêncio.

— Você vai se sacrificar… para que eu possa salvar todos.

Não era uma pergunta.

— Sim. Três fragmentos. Um para restaurar suas memórias. Um para te dar a ferramenta necessária — sem que você precise carregar o poder em si. E, ao final, entregue a Hamington ao XBI… depois que todos estiverem seguros. Isso garantirá a você a chance de uma vida normal... Por sua vez, o terceiro fragmento…

— Pra quê?

— Para o que você quiser.

Monty assentiu.

— Justo.

— Agora volte. Leve Mari em segurança até a casa dos Penzias-Costa. Você sabe o caminho.


Monty piscou — e estava de volta.

Mari estava muito próxima, observando-o com uma mistura de medo, curiosidade e fascínio.

— Já sei pra onde ir!

Ela se assustou e caiu sentada.

— CARALHO, MONTY! Assim você me mata do coração! Achei que você tinha apagado de novo!

Monty a ignorou e voltou a caminhar rigidamente.

— Me siga. Vamos para a casa da Ramona.

Mari se levantou, confusa, mas o acompanhou.

— Lá é seguro?

— É.


No plano espectral, o Arconte enfrentava aquilo que acreditava ser uma ameaça.

Ferido, quase dissipando, encarava a presença diante de si.

— Você…

Sua voz era fraca.

A persona o observava, curiosa.


De volta à floresta, um brilho dourado surgiu entre as árvores.

Mari também viu.

— Aquilo é… um monstro?

— Não. É o último presente do Servo da Luz Primordial.

Monty acelerou o passo.

À sua frente, materializou-se uma máquina de escrever: teclas pretas, letras brancas, envolta em luz dourada. A tinta brilhava em azul.

— Luz Primordial? Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de taumatologia…

Monty se agachou, pegou o objeto e continuou andando.

— Vamos.

Mari o seguiu — ainda sem entender quase nada do que estava acontecendo.

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