quarta-feira, 22 de maio de 2024

[CONTO] Lembranças do Oníron

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 


Serra do Lago, 2007.

                                          Marisa e Helena observam um descampado, inundado por uma série de bolhas com um castelo medieval ao fundo e ambas as irmãs, sorriam uma para a outra.

— Deu certo! — exclamou Marisa animadamente.

— Claro que deu — afirmou Helena. —, assim como no meu primeiro dia aqui. Vamos treinar tudo bem?

— O que? Aqui? — Marisa perguntou quase que sem entender nada.

— Eu percebi que nessa dimensão tudo fica aflorado, então enquanto dormimos você talvez desperte poderes.

Marisa fechou os olhos, até que as irmãs ouviram outra voz: — O conceito é muito bom, você se parece muito com a Dani, mas ainda é ingênua. — completou se referindo a Helena.

              Uma morena de cabelos curtos sorria para ambas, até que Marisa se escondeu atrás de Helena e balbuciou: — Marjourie?

— Incrível não é? — a falecida filha de dona Guilhermina perguntava enquanto abria os braços. — Parte da minha consciência estava aqui, só esperando pela minha irmã mais nova.

— O que você quer com a Marisa? — Helena perguntou invocando sua espada de luz, instintivamente.

                   — Eu quero o corpo dela, saia da frente. — Marjourie ordenou criando quatro espectros estranhamentes ondulantes e escuros. Todas aquelas sombras atacaram Helena, desodernadamente.

A loura cortou todos os espectros com simples golpes, mas cheios de maestria: — É como olhar para uma versão pequena da Dani.

Marjourie balbuciou no momento que seus espectros se curavam e voltavam a atacar Helena que por sua vez gritava e uma batalha de dez, intermináveis minutos, começava.

                                        — Irmã! — Marisa gritou para a ocupada Helena, que a viu ser agarrada pelo pescoço por Marjourie, enquanto a loura era socada por uma sombra.

— Irmã? — perguntou-se a falecida. — quem ela é? — a bruxa, com o seu poder transportaram-as para as lembranças de Helena.

O Oníron se tornava em algum momento histórico da Alemanha nazista, com guardas da juventude hitlerista segurando Helena.

— Que tipo de aberração você é? — ainda segurando Marisa, Marjourie se perguntava. — Bem, não importa. Adeus, Chaya.

A bruxa olhou dentro dos olhos da sua irmã menor e vislumbrou o teto de seu quarto, para depois erguer a palma das mãos do corpo de Marisa.

— Consegui — balbuciou sentando-se na cama e ao olhar para o lado, viu Helena, dormindo, ainda presa no Oníron. —, poderia te matar agora mesmo, só que chamaria muita atenção.

                      A bruxa reencarnada saltou da cama para o chão, enquanto refletia: — Não tenho tanto tempo e essa daí vai demorar a acordar. A Marisa ainda é uma adolescente, mas deve ser o suficiente, para eu terminar o que comecei.

— Dessa vez — balbuciava se olhando no espelho. —, não levantarei suspeitas, talvez eu só mate aquele maldito atirador de flechas.

Enquanto isso, de frente para outro espelho, Rodrigo tirou seu uniforme policial para vestir a antiga roupa do vigilante conhecido como: O Observador.

— Coube direitinho! — exclamava tateando seu tórax e depois fazendo poses de halterofilistas, casualmente.

                              — Falavam que esse cara era um herói, aposto que teve um bom motivo para se esconder atrás de uma máscara.

— Tem Tanta coisa aqui. — afirmou o policial com certa tristeza ao saber que iria apreender todo o material do vigilante de Serra do Lago.

— E se eu for o Observador por uma noite, afinal tem aquele vampiro solto por ai, posso achá-lo com as câmeras!

Rodrigo exclamou animadamente.

                                                                        Continua...

terça-feira, 21 de maio de 2024

[CONTO] História dentro da história V

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006, 12:55.


A criança se acalmava em meio aos soluços, enquanto Marisa olhava a papelada espalhada no lugar. Era branca, recente, nada amarelada. Havia pilhas de papéis, documentos vazados do do tal "DIX" sabe-se lá como. Mas o que lhe chamou mesmo a atenção foi uma folha avulsa datilografada com uma tinta azulada brilhosa. ela não era da época das máquinas de escrever, mas ela sabia que aquele tipo de tinta luminosa não era coisa natural. No entanto, o que realmente a incomodou foi o conteúdo que ela conseguiu ler:

"And Marisa, attempting to evade the clutches of the monster, opted for a leap of faith into the abyss of darkness. She descended into a vast mound of hay that cushioned her fall like a feather pillow. Finding herself in a peculiar chamber, a curious amalgamation of captivity and office space, she espied a young girl ensnared within a cage. Liberating the child from her prison, Marisa proceeded to explore the room, perusing a stack of documents. Her attention was captivated as she read the words of the writer, detailing her very actions in that moment. However, her reverie was interrupted by the plaintive voice of the young girl"

A menina imediatamente começou a falar quebrando a concentração de Marisa.

I was in the garden playing with a school friend when sinister and loathsome figures barged in and abducted us. They sang a haunting lullaby, and the next thing I knew, I awoke here.

Marisa voltou a ler o papel e, a frase que a garotinha falou estava escrita no papel:

"I was in the garden playing with a school friend when sinister and loathsome figures barged in and abducted us. They sang a haunting lullaby, and the next thing I knew, I awoke here."

A cabeça de Marisa girou, sentiu um frio correr pelas suas veias, e tentava entender o que era tudo aquilo, mas não teve tempo de processar a papelada, o texto, nem a fala confusa e assustada da criança, quando uma pancada seca e forte estourou na porta de madeira, com um grito que mais parecia um rugido de leão. A menininha começou a gritar em um tom tão agudo e desesperado, que doía os ouvidos de Marisa.

- Calm down! I will protect you! - Dizia Marisa tentando acalmar a menininha, mas sem ter a mais mínima ideia do que fazer.

As pancadas iam ficando mais fortes e a porta envergava para trás a cada murro, poeira emanava da porta e as dobradiças enferrujadas eram testadas em seus limites mais do que jamais foram. Ambas iam recuando em direção a parede e no campo de visão de Marisa, parecia que a sala ia ficando pequena e quanto mais ela se afastava, mais e mais a porta ia parecendo mais perto. Quando já estavam ambas comprimidas contra a parede dos fundos, Marisa viu o punho da criatura perfurar a porta como se fosse de papel, e seus olhos enegrecidos com um tipo de névoa ondulante preta ao redor do corpo pôde ser visto.

"Era o fim. Acabou." - Pensou Marisa.

Subitamente um feixe de luz invadiu a sala vindo das costas do monstro, e a criatura ganiu como um cão ferido. Fagulhas brilhantes emanavam de seu corpo. Dois disparos altos e poderosos de arma de fogo foram ouvidos, a menininha gritou assustada, e a criatura saiu em incrível velocidade da porta, revelando apenas a silhueta no contraluz do que pareciam ser duas mulheres.

A mulher de trás saiu com sua lanterna para a esquerda, saindo do campo de visão delas, em parte bloqueados pelo buraco na porta. A da frente colocou o rosto no orifício vendo quem estava dentro. E o coração de Marisa desacelerou. Era a delegada Jordan.

- Vocês estão bem? - Perguntou a ruiva.

Marisa correu para a porte puxando a criança pela mão e respondeu que sim.

- Matou a criatura? - Perguntou Marisa.

- Não. Ela apenas fugiu. - Disse Jordan abrindo a porta.

Ao sair, Marisa viu Alexandra e a correu para abraçá-la. Ambas se abraçaram com tanta força, que por um segundo, se poderia crer que entrariam uma dentro da outra. Jordan seguiu olhando para o chão, ela havia visto as duas balas que atirou amassadas, como se tivessem sido disparadas contra uma parede de aço puro. Então a ruiva percebeu que estava indefesa contra o monstro.

Marisa, após largar Alexandra, agachou-se e falou com a menina:

- This is Alexandra, she's my friend! 

A menina olhou pra ginasta com um olhar amistoso e cumprimentou com um "Hi, Alexandra!" trêmulo.

- What's your name, sweetheart? - Questionou a ginasta.

- My name is... - A voz doce da menina foi interrompida pelo urro furioso do monstro, que pareciam fazer tremer as madeiras frouxas do lugar, e por passos pesados vindo da escuridão do outro lado da casa, em algum lugar próximo da cozinha.

- Ele está vindo, precisamos pensar em algo! - Exclamou Marisa.

- Minha informante me pediu para entregar isso a qualquer feiticeira poderosa que estivesse na área, acho que é você. - Jordan tirou um papel do bolso esquerdo do sobretudo e estendeu a mão coberta por uma luva preta na direção de Marisa.

- O que é isso?

- Veja você mesma. Ela disse que você entenderia. - Assentiu a delegada posicionando-se em guarda com a lanterna junto a pistola.

Alexandra e a criança olhavam atônitas e assustadas para Marisa. Marisa desdobrou o papel e leu. E não acreditou.

- Isso é a "Lanterna de Wake!", um feitiço que só minha irmã sabia fazer. Eu não consigo fazer essa magia! - Exclamou Marisa.

- Então acho que minha informante errou o cálculo dela, temos que pensar em algo - Falou Jordan procurando o monstro com sua lanterna agitada.

A conversa não prosseguiu, pois o monstro surgiu correndo em quatro patas como se fosse um rinoceronte furioso e pulou na direção de Alexandra e da criança. Alexandra, que viu de relance o avanço, empurrou a menina pra trás de um caixote de madeira que ali estava e fez um salto mortal pra trás da delegada, numa esquiva pouco provável. No entanto a aterrissagem no escuro, num chão duro e inapropriado, fez com que ela sentisse uma dor terrível no pé que ela havia machucado um ano antes. Ela bambeou e andou de lado quase caindo e se apoiou num barril próximo a porta que havia sido arrastado. Se a criatura a atacasse de novo ela não seria capaz de repetir o feito. Porém, Jordan virou-se rapidamente na direção do monstro e disparou a arma uma vez, a bala ricocheteou na névoa ondulada escura e caiu no chão, porém a lanterna levantou muita faísca quando tocou a névoa, afastando o monstro dela e da criança.

Marisa estava em pânico sem saber o que fazer, quando ouviu a voz de sua irmã na sua cabeça. "Você tem uma runa sobrando sua tola. Gaste-a compensando sua deficiência". Marisa revirou a bolsa, pegou a runa, e escutou ainda quando a delegada disparou mais uma vez na criatura. Dessa vez, a bala tinha passado por uma brecha na armadura nevoenta e arrancou um pouco daquela gosma preta do monstro. ele recuou perante as lanternas de Jordan e Alexandra.

Com a runa na mão, Marisa percebeu que não poderia fazer nada. Já tinha gasto seu uso diário de runas. Mas teve uma ideia, olhou pra delegada e falou: 

- Jordan, use isso. Imagine que sua arma é uma lanterna bem poderosa. E diga "Anhã!".

Com a mão direita, Jordan deixou sua lanterna cair, pegou a runa desenhada cuidadosamente em caneta rosa naquele pedaço de papel recortado, ela segurando a arma com a mão esquerda e com a runa na mão direita fechou os olhos, imaginou uma poderosa lanterna na ponta de sua arma, e gritou: "Anhã!".

A cena que se desenrolou a seguir poderia ser honesta e justamente descrita com a palavra "assombrosa". Jordan apertou o gatilho, mas não saiu um projétil, e sim um poderoso feixe de luz, que iluminou todos os cômodos da casa a tal nível que as paredes pareceram brancas. Todos ficaram cegos por alguns segundos por tamanha e poderosa centelha.

O ganido da criatura virou um tremor de um grito grave de dor desesperado. Ao sucumbir da luz, o monstro ainda estava vivo, porém enfraquecido e parcialmente queimado, todavia sem aquela maldita névoa ondulante que o protegia. Jordan viu a oportunidade que precisava esvaziou o pente da arma na criatura, até seu corpo se desfazer num líquido preto, que prontamente foi incinerado pela lanterna de Alexandra, gritando: "Morra, filho da puta!", ainda que mancasse um pouco.

Marisa caminhou até Alexandra, que estava agachada onde outrora havia uma gosma preta. Tocou o ombro dela, que se levantou. E olhando para Jordan, falou:

- Se o escritor pode manipular a realidade a esse nível, Helena e Souza correm grande perigo, precisamos ir para Vitória urgentemente.

FIM.


[CONTO] História dentro da história IV

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 - 12:45


Alexandra foi arrastada pela mão cheirosa e forte enquanto tentava gritar com sua voz abafada. Quando viu suas pernas agitadas passarem por uma porta de madeira. A mão a soltou então pela primeira vez ela pôde ver seu captor.

O cabelo ruivo e pele parda não negava, menos ainda o sobretudo esvoaçante. Ela suspirou aliviada ao ver a delegada Jordan, que sacava sua pistola do coldre.

- O que duas pirralhas estão fazendo nesse antro de pulsão de morte? - Falava ela enquanto colocava um pente na pistola.

Alexandra, ainda assustada, respondeu: - Viemos a pedido da Helena. Ela queria saber o que estava rolando aqui e nos confiou essa missão.

- Aquela adolescente falsificada está me dando nos nervos, já. - Resmungou a ruiva.

- Ai meu Deus! Eu vi uma criança morta! O monstro a matou! - Alexandra começou a chorar.

- Quem a matou foi um monstro, mas não foi o monstro. - Jordan olhou para a ginasta - Você vai descobrir em breve que no reino dos humanos há monstros muito piores que nas jardas de espaço adjacentes a esse mundo.

- Você também foi atacada pelo monstro?

- Mais ou menos. - A ruiva foi até a porta e olhou pela greta, e ao voltar seu rosto para dentro do cômodo, completou a resposta: - Vim aqui a pedido do cabo Souza. Quando cheguei encontrei a cena que ele descreveu. Um homem morto, envolto em uma gosma preta e com o cérebro a mostra. Isolei a área. E fui coletando as provas. De repente, um vento forte varreu o interior da casa, um vento que veio com uma fumaça preta que se espalhou como neblina por todos os cantos, tornando o ambiente ainda mais escuro. Então, quando acendi minha lanterna, a fumaça se dissipou na direção do feixe de luz como que por mágica. Mas o corpo havia sumido. Eu fui até a porta, em vão, para pegar o sinal do celular para falar com uma informante de confiança. Foi quando eu vi o cadáver uivar como se fosse um lobo do lado da pilha de feno. Ele não me atacou pois apontei a lanterna pra ele, e a porta estava parcialmente iluminada pelo sol da manhã, então fui até a cidade para conseguir falar com minha informante, e ela me disse o que poderia ser. Quando voltei, ouvi a confusão de vocês.

Alexandra acompanhou meticulosamente cada palavra da delegada e falou.

- A criatura parece ser afetada pela luz. Ela agitou a lanterna.

- Sim. Minha informante disse que luzes naturais incomodam um pouco, mas se não for a luz do sol, somente uma luz mágica poderosa poderá afetá-la de forma letal. - Concordou a delegada.

- Marisa está aqui em algum lugar, precisamos achá-la! - Disse Alexandra quase em desespero ao se lembrar da amiga.

A delegada olhou nos olhos da ginasta e simplesmente concordou com a cabeça.

- Preciso antes verificar uma coisa no fim do corredor, porém, a criatura ou o que quer que seja aquilo fez um buraco enorme no chão. - A delegada abriu a porta, colocou a lanterna abaixo do cabo da arma e foi andando em guarda, com a pistola se movendo rápido para os cantos escuros, acompanhados pela lanterna.

Alexandra foi a seguindo a passos lentos. Elas caminharam pela casa por corredores que Alexandra nunca tinha visto. Após alguns passos mais, ela conseguiu ver o buraco no chão onde o monstro saltara. Jordan correu e saltou por cima dele. 

- Venha, menina! Eu te aju... - Jordan não teve tempo de completar a frase: Alexandra com sua destreza e graça da ginástica saltou com facilidade sobre ele.

Alexandra não entendeu, mas viu um sorriso de aprovação na delegada. Ambas seguiram caminhando no silêncio e na penumbra da lanterna até o fim do corredor. Havia portas de ambos os lados e uma no fim do corredor.

- O cabo Souza me disse que aqui havia um portal ou coisa assim. - Falou a delegada ao olhar para a porta final.

Alexandra nem conseguia acreditar como aquele papo de monstros, magia, portais se havia tornado corriqueiro para ela. Parecia algo tão lógico. Tão natural. E no entanto, era uma insanidade!

A delegada pediu que Alexandra apontasse a lanterna para a porta e, com cuidado, com a pistola numa mão e a outra na maçaneta, abriu a porta e a puxou, deixando-a deslizar lentamente. No entanto, ao invés do corredor infinito descrito por Souza, havia apenas uma sala vazia, possivelmente algum lugar onde os faxineiros guardavam coisas de limpeza.

- Era para ter um portal aí? - Perguntou Alexandra.

- Sim, mas aparentemente, sua duração acabou. Chegamos tarde. - Respondeu a parda.

A delegada ainda abriu lentamente as portas próximas, para ver se havia algo interesse. Mas nada que valesse alguma atenção adicional. Havia camas velhas e sinais de que o lugar fora usado recentemente para hospedar alguém.

- Vamos atrás da Marisa, agora! - Falou a delegada, e quando Alexandra ia concordar, um rugido como que de leão cortou o silêncio e o som de dois gritos femininos, mas agudos, soaram em algum cômodo oculto em trevas na casa grande.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

[CONTO] Heróis em Serra do Lago.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".

Serra do Lago, 2007.



                                    — Crianças apagam incêndio em ginásio na escola dos Pioneiros. — Rodrigo lia um exemplar de jornal, enquanto outro policial fumava um charuto.

— Essas não são as crianças que ajudaram a...

— Sim. — Rodrigo interrompeu o amigo, sem tirar os olhos da foto do jornal. — Incêndio coisa nenhuma, aposto que foi mais uma esquisitice dessas famílias fundadoras. 

O policial amassou o jornal e o arremessou na lixeira, como se fosse uma bola de basquete: — Souza! — outro o chamava. — A delegada Jordan quer que você vá a um endereço, recebemos uma denúncia. 

                                       Rodrigo guiou a viatura até uma antiga vila de Serra do Lago e ao vislumbrar o endereço, balbuciou: — Ponto de venda de droga coisa nenhuma, só tem velho aqui.

O policial precisou saltar um grande muro de concreto e ao cair percebeu a grama até sua canela, mas estranhamente a porta central da casa estava aberta, por isso ele sacou sua pistola. 

Rodrigo ao andar descobria que a casa estava vazia, mas conforme investigava percebia vários computadores espalhados pela casa e aos ligar arregalou os olhos: — Um sistema de câmeras? 

                                — Esse lugar, só pode ser à base daquele tal de Observador! — deduziu sacando o rádio comunicador da policia, mas hesitando ao dar outra olhada nas telas dos computadores. 

Praças, escolas, igreja, campos de futebol, inúmeras pessoas e até a delegacia aparecia diante de seus olhos, então, Rodrigo sorriu antes de guardar o aparelho: — O que mais tem nessa casa? 

                               Neste período de tempo, os três bandidos da escola, se reuniam na antiga biblioteca da igreja de Serra do Lago, à mesa estava sentado o reverendo que mexia em seu crucifixo. 

— Então essas crianças impediram vocês, mesmo com os poderes em que eu os abençoei? — o homem de fé perguntava.

— Senhor todas elas sabiam magia e nosso tempo de uso estava acabando. — André contou sobre a luta. 

— Magia? — o reverendo perguntou-se curioso. — De qual tipo? 

— Geist! Elas falavam essa palavra e algo acontecia. — Jonathan respondeu em tom de praguejo, dando um soco na mesa. 

— Nunca ouvi falar disso. — disse o homem de fé. — Eu irei pesquisar, mas enquanto isso. A igreja precisa ser limpa.

— Mas reverendo? — Carlos parecia reclamar. 

— Não podemos chamar atenção e esse trabalho voluntário de vocês irá nos ajudar a manter as aparências, além disso. Crianças fazendo magia, de certa forma me incomodam. — admitiu o ancião. 

                                        — Daí a Alexandra gritou Geist e chutou a cara de um deles, como se fosse um saco de batata! — Marisa contava e recontava a aventura que teve na escola, para sua irmã Helena. 

— Que péssimo dia para eu ficar em casa. — balbuciou a loura, sendo abraçada pela irmã de óculos, fortemente. 

— Podemos ser uma grande dupla — afirmou Marisa. —, você a bruxa e eu a assistente de cadeira. 

— O que? — Helena perguntou quase rindo. 

— Eu posso ficar te passando...

— Que tal desbloquearmos seus poderes? — Helena interrompeu a irmã, com um sorriso. 

                                 — Já te expliquei que não tem como, não nasci com esse dom. — Marisa reafirmava, cruzando os braços. 

— Quem disse isso? — Helena perguntou para ela. — Você parece conformada com uma condição, mas eu acho que tem um lugar onde encontraremos respostas. 

— E onde seria? Sua sabe tudo. — Marisa estava incomodada, porém arregalaria os olhos ao ouvir a loura. 

— No Oníron.

[CONTO] História dentro da história III

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 - 12:34


Marisa não teve tempo de considerar nenhuma hipótese diante da pergunta de Alexandra, pois logo das sombras profundas dos recônditos não explorados da casa grande do antigo hotel-fazenda uma criatura bestial envolta em ondulações sombrias saltara da inexistência para existência correndo, feroz e ameaçadoramente em sua direção e na de Alexandra. Seus instintos mais primitivos saltaram às veias e nervos em seu corpo, e tudo que ela pôde fazer, era deixar cair sua máscara de coragem e sair correndo aos berros.

Marisa acreditou que Alexandra estava logo atrás dela enquanto corria escada acima. Só se deu conta que não quando tropeçou no escuro do último degrau enquanto a auréola dourada da lanterna percorria aleatoriamente as paredes enquanto seus braços se moviam ferozmente numa corrida desesperada. Quando deu com os seios no chão ao tropeçar, itens de sua mochila voaram para todos os lados. Catou os que pôde, e ao ouvir um ganido alto como um assovio vindo de trás dela, se levantou velozmente e saiu correndo para a escuridão que a aguardava com uma face nada amigável. Ao chegar no fim do caminho Marisa bateu com o peito num parapeito de madeira que dava vista para o andar de baixo e se não fosse o fato de ser baixinha e leve, teria caído de 4 ou 5 metros de altura no primeiro piso, onde certamente viraria comida de monstro. Recobrando o fôlego achou uma porta aberta e entrou. Ela se sentou arfando fortemente e tremendo de medo. Na sua cabeça ela quase podia ouvir as risadas de sua irmã morta em meio a provocações: "Você é um fracasso! Uma vergonha pra os Costa!" A medida em que essa voz perturbadora mental crescia na consciência de Marisa ela levava as mãos a cabeça e enfiava o rosto entre as pernas em um gemido que se não era medo era algo mais.

Um silêncio se interpôs no lugar. De repente é como se tudo não passasse de um lugar escuro e ela, uma menininha boba, com medo de sombras na parede. Marisa pôs os olhos na greta da porta para tentar ver o corredor. E tudo o que ela via eram pequenos pontos de luz vindos do teto esburacado e alguma penumbra. Tomando coragem ela pôs a cabeça para fora e também a lanterna. Então viu um vulto de uma pessoa caminhando. Seu coração gelou. Os passos puderam ser ouvidos a direita na direção do vulto. Eram passos leves, suaves, mas ela os ouviu, de certo! Não estava ficando louca.

Saindo de quatro, rastejando com a lanterna na mão e a mochila nas costas, chegou até ao lugar onde trombou com o parapeito. Pensou ter ouvido um chamado baixinho de Alexandra. O medo percorreu suas vísceras. Ela já conseguia imaginar Alexandra agonizando em sangue, tripas e morte. E a culpa era dela, que a abandonou. Novamente, a voz de Marjourie a perturbou de algum modo. "Você é uma covarde! Assassina terceirizada! Você não matou ela, mas a entregou ao monstro!". Marisa gemeu e disse "Não! Não sou!", sua cabeça agitava-se em negação nervosamente, tremendo. Então de repente um tropéu surge de um recanto escuro e ela vê o chão se erguer como uma bolha de madeira e estourar. Um pedaço de madeira pontiagudo voou na sua direção e se fincou em sua perna. Seus olhos viraram enquanto uma dor terrível se espalhava por todo o seu corpo. Ela gritou de dor e caiu de lado. Ainda teve tempo de ver um brilho forte ao ouvir o grito de Geist! de Alexandra. Tomando coragem, ela mesmo ferido e sentindo o sangue escorrer pela perna, abriu a mochila, pegou uma runa e imediatamente utilizou-a. - Anhã! - Disse ela. Imediatamente seu ferimento se fechou enquanto seu corpo projetava a madeira para fora sozinho. No entanto, era tarde demais, sua meia 3/4 branca estava suja de sangue e havia um rasgo em sua saia. E o cheiro de sangue atraiu o monstro. Marisa não teve escolha. Ela subiu no parapeito e saltou para a escuridão. Dois minutos antes ela temeu cair do segundo andar, dessa vez, ela mesma saltou.

O espaço de tempo entre o salto e o impacto foi curto. Mas diferente de um chão duro, ela caiu sobre algo macio. Parecia feno. Um pouco de luz entrava pelas brechas nas tábuas da parede, e ela percebeu que havia caído em um inesperado depósito de feno. Ela tratou de se levantar e sair dali, ainda mancando um pouco, e ao sair, se deu de cara com o que parecia um misto de cativeiro e escritório. Havia papéis por todos os lados, e havia uma jaula com uma criança amarrada e com a boca coberta em silvertape. Era uma menina de cabelos pretos e olhos azuis. Ela estava magra, e tinha sinais desidratação tão evidentes que, mesmo Marisa não sendo médica, percebeu. Seus olhos desesperados clamavam por ajuda. Ela havia sido abandonada ali a alguns dias provavelmente.

Marisa abriu a portinhola e, movendo a lanterna para a direita, percebeu que havia uma segunda jaula, mas coberta de excrementos e um cheiro forte urina. Não que a da menina que encontrou fosse diferente, mas pelo menos ela estava viva. Tirando a fita da boca da menina, ela gemeu, mas falou:

- Help! I want my daddy! - E começou a chorar.

Marisa, enquanto envolvia uma criança que falava inglês com sotaque britânico e que nunca viu no braço, pela primeira vez naquele dia, não ouviu a voz de Marjourie, apenas o silêncio.

(Continua...)


domingo, 19 de maio de 2024

[CONTO] Paralelo

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".  

 Serra do Lago, 1998.



                             Os tênis afofados de Daniele pousam na fria grama do cemitério de Serra do Lago, logo após a loura pular um grandioso muro seguido de sua amiga, Marjourie.

Diferentemente da De La Viña, a descendente dos Alves, escorrega pelo concreto do muro com receio de tombar direto e por isso, termina sentada na grama e recostada em uma lápide.

Daniele com seus recém dezoito anos, colocou as mãos na frente do rosto e sorriu, para depois ajudar à amiga: — Eu não sou moleca como você, sua estúpida. — Marjourie reclamava baixo.

— O muro nem é tão alto — afirmava Dani. —, só caiu porque ficou com medo de cair. Igual em um paradoxo.

— A gente podia ter usado magia. — Marjourie aconselhava reclamando, enquanto elas desviavam de várias lápides desordenadas.

                            — Se usarmos magia assim, talvez sejamos detectadas. Marjourie, quem levou o Alan, era um bruxo poderoso.

A morena de longos cabelos baixou a cabeça para esconder o choro, mas uma claridade peculiar fez tanto ela, como Daniele, agirem rápido e se abaixarem atrás de duas lápides.

                          — Aqueles são... — a loura hesitou ao cochichar depois de olhar por cima da lápide, que estava agachada.

Oito pessoas, com túnicas beges se agrupavam diante de um altar, onde um garoto se rebatia. — Nossos brasões, nas roupas deles. — Dani concluiu voltando a se abaixar.

O garoto berrou pelos quatro cantos do cemitério e ambas as amigas arregalaram os olhos além de proferir em ordem unida: — Alan.

— Tudo bem Marjourie eu retiro o que disse, hora de usar magia e acabar com... — antes de abrir um frasco com água benta, Daniele teve a mão segurada pela a da amiga, que estava trêmula.

                    — Não podemos fazer isso. — balbuciou Marjourie, lacrimejando enquanto Alan gritava de dor sem nenhuma cerimônia.

— É o seu namorado e...

— Não. — Marjourie insistiu em interromper e segurar à amiga. — No melhor dos casos, se sairmos com vida, dentro de algumas semanas uma grande calamidade vai se espalhar por Serra do Lago.

— Do que você está falando? — Daniele perguntava e hesitava.

Alan gritava por socorro enquanto o ritual seguia, por de trás daquelas lápides: — É muita coisa para explicar, eu sei que ele é o meu namorado e não queria que fosse ele. Só que é preciso.

Pela primeira vez, os olhos de Daniele transmitiam medo, diante da mulher que até mesmo já lhe emprestou roupas. — É o mal necessário.

Naquele dia, Daniele sentiu que algo morreu dentro de Marjourie.

[CONTO] História dentro da história II

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 - 12:35

Marisa e Alexandra entraram pela porta da frente, mas logo perceberam que o local já havia tido visitantes antes. Um grupo de barris de madeira foram posicionados na entrada, impedindo a passagem. Mas isso não era obstáculo para uma ginasta. Outra coisa os preocupou. Nos barris das pontas havia duas hastes de madeira roliças, lembravam cabos de vassoura, eles estavam posicionados dentro dos barris sem tampa e unindo ambos uma faixa policial tingida em preto e amarelo isolando a área como cena de crime.

- Acho que a gente não devia entrar. A gente vai estar cometendo um crime se entrar. - Falou Alexandra.

Marisa bufou forte e reclamou:

- Não vim até aqui pra nada! Se essa faixa está aqui é porque não querem que a gente entre por aqui. Existem outros buracos na parede. A gente dá a volta, acha um e entra.

Alexandra processou o argumento por um segundo e deu de ombros.

Ambas saíram e contornaram a casa, procurando por falhas na madeira externa. Não era raro achar buracos e pedaços faltando, mas não haviam achado até então, um grande o bastante para que elas coubessem. Contornaram um pouco mais e chegaram, quase nos fundos, numa passagem apertada, mas que em teoria, caberia as duas. Com algum esforço elas entraram, um pedaço da blusa azul que Marisa estava usando agarrou numa farpa e acabou rasgando. A mais jovem dos Costa xingou. Ambas entraram apreensivas. O lugar era escuro e sinistro um cheiro de mofo e podridão se espalhava pelo ar e apenas algumas zonas penumbrosas eram visíveis por algumas falhas no telhado de terracota.

- Pega a lanterna, se não a gente vai ficar perdida. - Pediu Alexandra.

Marisa colocou o óculos de sol no cabelo, e fez conforme solicitado. Com as lanternas em mãos, a caminhada se tornou muito mais fácil, elas estavam num lugar que parecia um tipo de dispensa abandonada. Havia ali sacos velhos que deviam ter armazenado alguma comida no passado. Havia ainda cogumelos em algumas prateleiras. O ziguezaguear das auréolas luminosas feitas pelas lanternas gerava alguma tontura, mas revelavam o ambiente. Facilmente localizaram a porta de saída da dispensa. Ao sair, se depararam com uma cozinha velha. Havia um fogão a lenha ali, mas qualquer outro sinal de mobília se perdera ou fora retirado muito antes. 

- Até agora, tédio. - Murmurou Marisa.

- Que bom. - Suspirou aliviada Alexandra.

Elas seguiram caminhando um pouco mais conversando suas tremendas trivialidades.

- O que você acha que a sua irmã e o policial Souza estão fazendo agora em Vitória? - Perguntou Alexandra.

- Certamente se divertindo mais do que nós nessa ruína escura e cheirando a mofo.

- Já foi a Vitória?

- Já. É um lugar bem legal. Me sinto bastante a vontade lá. As pessoas estão sempre na moda, muito bom gosto e é um lugar bastante bonito. - Disse ela. - Mas você veio do Rio. Não deve ser estranha a descrição - Completou.

- Ah, sim. O Rio é bom. Só que tudo é muito longe e o custo de vida é um bocado alto.

- Vitória não é diferente. Aliás, talvez goste por causa disso... Não tem muitos Peter Cleitons por aí. - Marisa deixou escapar um riso sincero.

-  No Rio isso tem a beça! - Alexandra devolveu a risada, porém Marisa interrompeu.

- Ouviu isso?

Alexandra parou e escutou. Ela ouviu um som rosnado distante, quase acharam que era um animal, então, a medida em que o som se intensificou, perceberam que era um carro. Nesta altura já haviam saído da cozinha e estavam em um tipo estranho de corredor. Um cheiro esquisito e desagradável tomava conta do ambiente. Marisa caminhou até uma parede que julgava que dava divisa com o lado de fora, e espiou por um buraco. Não conseguiu ver muito, mas viu o momento em que um carro preto levantou poeira e estacionou. A nuvem de poeira era tamanha que ela não conseguiu ver a pessoa.

- Tem alguém aqui. Silêncio! - Disse Marisa.

Alexandra confirmou com a cabeça, e ambas saíram apontando lanternas por aí. Elas ouviram outros passos na casa, mas ela era tão grande que os ecos causavam confusão, pareciam vir de muitos lugares ao mesmo tempo. Agora elas já tinham saído do corredor e chegaram ao hall de entrada. Elas conseguiam ver a porta e os barris.

- Veja! Alguém removeu a fita de isolamento e arredou os barris - Pontuou Alexandra aos sussurros.

- Definitivamente não estamos sozinhas - Concordou Marisa.

- Será o assassino? - Alexandra tremeu.

- Tomara que não.

Elas seguiram caminhando, um cheiro de podre  tomou conta do ar. Estava muito forte, alguma coisa havia morrido ali. As lanternas revelavam riscos e marcas no chão. Linhas perfeitamente circulares revelavam pentagramas e hexagramas. Elas não falaram nada, mas perceberam que haviam chegado no lugar da fotografia. Alexandra foi a primeira a perceber um risco de giz no chão no formato de um corpo, mas apesar da marca de sangue e um estranho líquido viscoso preto, não havia corpo.

Marisa quase vomitou, e Alexandra teve que sustentá-la pelos braços. A ginasta, tomou coragem apesar da cara de nojo e com uma parte da frente da lanterna tentou encostar no líquido preto, e para sua surpresa, ele nem chegou a molhar a lanterna. O líquido, que parecia viscoso, literalmente evaporou como se fosse éter, ou como se tivesse sido lambido pelo simples contato com a luz da lanterna.

- Ok, isso definitivamente é estranho. - Alexandra falou.

Marisa tentando segurar a náusea, concordou com a cabeça e a mão na frente da boca.

Um estalido alto, um som de madeira oca e podre ressoou no teto, quem quer que estivesse ali, estava no segundo andar. Mais som de passos e rangido de madeira velha, estavam indo para algum lugar à retaguarda delas. Marisa, dando as costas a gosma apontou a lanterna na direção, e encontrou uma escada para o segundo andar. Havia marcas de sangue seco nela, e um outro risco de giz. Dessa vez escutaram um sussurro... Ou seria um resmungo? Parecia vir de algum lugar a direita da escada, de algum lugar que elas ainda não tinham explorado.

- Para onde vamos? - Perguntou Alexandra - Escada ou Direita?

 Marisa pensou, mas não teve tempo de concluir. Uma imagem aterrorizadora, que parece ter saído de um pesadelo, emergiu das sombras a direita. Um homem com o rosto deformado, faltava-lhe uma parte da cabeça e o que sobrara do cérebro estava pendurado do lado de fora por um tipo de tecido corporal que não se rompeu, talvez por um filamento de pele... Era impossível dizer. As meninas congelaram. A criatura falou algo em uma língua ininteligível. Sua voz era gutural e grave, como o mugido de um boi, sobre seus olhos e corpo um tipo de fumaça negra oscilava como se fosse uma aura ou ondulação. E o que quer que fosse, correu na direção delas com dentes a mostra revelando uma língua e céu da boca pretos como carvão. Marisa correu desesperada gritando. Alexandra permaneceu atônita e a única coisa que fez foi apontar a lanterna pra criatura num movimento involuntário de se proteger erguendo as mãos na direção do rosto.

Nada aconteceu se não um ganido como se fosse de cão. Faíscas saíam do corpo da criatura onde a lanterna tocava e ela parecia sofrer. Sem ver para onde Marisa tinha ido, Alexandra correu para a escada. Subiu as pressas o mais rápido que pôde. Quase tropeçou uma ou duas vezes, e escutou os passos apressados do que quer que fosse aquilo atrás delas.

Ao terminar de subir para o segundo andar, procurou por Marisa.

-Marisa! Cadê você? Eu estou com medo. Estou sozinha. 

Alexandra já ia começar a chorar quando viu dois papéis pequenos no chão. Havia runas desenhadas nela, e a caligrafia era de Marisa. Alexandra segurou aquilo como se fosse a própria vida e seguiu caminhando. Subitamente o chão sob os seus pés se eleva como se fosse ondular, como uma onda num lençol que se pretende esticar. E na sequência desse movimento antinatural, ele se parte e se fragmenta em centenas de pedaços com a criatura necrótica emergindo através dele como se com um salto e uma cabeçada, tivesse destruído o chão.

Alexandra não pensou duas vezes, e gritou Geist! Sem nem pensar em alguma coisa específica. A única coisa que ela pensou, o mais próximo de um conceito racional, foi em sair dali. O mundo girou, ela sentiu uma tonteira e uma luz branca surgiu. E ela se deu conta de que havia voltado para a escuridão. Ela estava caída em um beco da casa. Sua lanterna estava caída do seu lado e os dois papéis haviam se pulverizado na sua mão num brilho branco. Mas nenhum sinal da criatura. Ela tinha, de alguma forma, se teleportado pra outro ponto da casa. Um cheiro horrendo vinha da sua direita. Muito mais intenso do que qualquer outro, ao pegar a lanterna e ver o que era. Ela gritou de horror novamente. 

Uma criança! Uma pobre criança! Morta. Seu peito estava aberto e coberto de vermes e criaturas necrófagas. Seu corpo nu estava coberto de marcas que apreciam arranhões e suas intimidades, expostas, em condições traumaticamente indizíveis.

Alexandra se afastou rastejando sentada, de costas para o breu à sua retaguarda, quando uma mão estranhamente cheirosa, mas forte, a puxa pras sombras tapando a sua boca. Uma voz feminina e grave sussurra: - Calada! Vai atrair o monstro!.

(Continua...)




Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...