domingo, 19 de maio de 2024

[CONTO] Paralelo

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".  

 Serra do Lago, 1998.



                             Os tênis afofados de Daniele pousam na fria grama do cemitério de Serra do Lago, logo após a loura pular um grandioso muro seguido de sua amiga, Marjourie.

Diferentemente da De La Viña, a descendente dos Alves, escorrega pelo concreto do muro com receio de tombar direto e por isso, termina sentada na grama e recostada em uma lápide.

Daniele com seus recém dezoito anos, colocou as mãos na frente do rosto e sorriu, para depois ajudar à amiga: — Eu não sou moleca como você, sua estúpida. — Marjourie reclamava baixo.

— O muro nem é tão alto — afirmava Dani. —, só caiu porque ficou com medo de cair. Igual em um paradoxo.

— A gente podia ter usado magia. — Marjourie aconselhava reclamando, enquanto elas desviavam de várias lápides desordenadas.

                            — Se usarmos magia assim, talvez sejamos detectadas. Marjourie, quem levou o Alan, era um bruxo poderoso.

A morena de longos cabelos baixou a cabeça para esconder o choro, mas uma claridade peculiar fez tanto ela, como Daniele, agirem rápido e se abaixarem atrás de duas lápides.

                          — Aqueles são... — a loura hesitou ao cochichar depois de olhar por cima da lápide, que estava agachada.

Oito pessoas, com túnicas beges se agrupavam diante de um altar, onde um garoto se rebatia. — Nossos brasões, nas roupas deles. — Dani concluiu voltando a se abaixar.

O garoto berrou pelos quatro cantos do cemitério e ambas as amigas arregalaram os olhos além de proferir em ordem unida: — Alan.

— Tudo bem Marjourie eu retiro o que disse, hora de usar magia e acabar com... — antes de abrir um frasco com água benta, Daniele teve a mão segurada pela a da amiga, que estava trêmula.

                    — Não podemos fazer isso. — balbuciou Marjourie, lacrimejando enquanto Alan gritava de dor sem nenhuma cerimônia.

— É o seu namorado e...

— Não. — Marjourie insistiu em interromper e segurar à amiga. — No melhor dos casos, se sairmos com vida, dentro de algumas semanas uma grande calamidade vai se espalhar por Serra do Lago.

— Do que você está falando? — Daniele perguntava e hesitava.

Alan gritava por socorro enquanto o ritual seguia, por de trás daquelas lápides: — É muita coisa para explicar, eu sei que ele é o meu namorado e não queria que fosse ele. Só que é preciso.

Pela primeira vez, os olhos de Daniele transmitiam medo, diante da mulher que até mesmo já lhe emprestou roupas. — É o mal necessário.

Naquele dia, Daniele sentiu que algo morreu dentro de Marjourie.

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