segunda-feira, 20 de maio de 2024

[CONTO] História dentro da história III

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 - 12:34


Marisa não teve tempo de considerar nenhuma hipótese diante da pergunta de Alexandra, pois logo das sombras profundas dos recônditos não explorados da casa grande do antigo hotel-fazenda uma criatura bestial envolta em ondulações sombrias saltara da inexistência para existência correndo, feroz e ameaçadoramente em sua direção e na de Alexandra. Seus instintos mais primitivos saltaram às veias e nervos em seu corpo, e tudo que ela pôde fazer, era deixar cair sua máscara de coragem e sair correndo aos berros.

Marisa acreditou que Alexandra estava logo atrás dela enquanto corria escada acima. Só se deu conta que não quando tropeçou no escuro do último degrau enquanto a auréola dourada da lanterna percorria aleatoriamente as paredes enquanto seus braços se moviam ferozmente numa corrida desesperada. Quando deu com os seios no chão ao tropeçar, itens de sua mochila voaram para todos os lados. Catou os que pôde, e ao ouvir um ganido alto como um assovio vindo de trás dela, se levantou velozmente e saiu correndo para a escuridão que a aguardava com uma face nada amigável. Ao chegar no fim do caminho Marisa bateu com o peito num parapeito de madeira que dava vista para o andar de baixo e se não fosse o fato de ser baixinha e leve, teria caído de 4 ou 5 metros de altura no primeiro piso, onde certamente viraria comida de monstro. Recobrando o fôlego achou uma porta aberta e entrou. Ela se sentou arfando fortemente e tremendo de medo. Na sua cabeça ela quase podia ouvir as risadas de sua irmã morta em meio a provocações: "Você é um fracasso! Uma vergonha pra os Costa!" A medida em que essa voz perturbadora mental crescia na consciência de Marisa ela levava as mãos a cabeça e enfiava o rosto entre as pernas em um gemido que se não era medo era algo mais.

Um silêncio se interpôs no lugar. De repente é como se tudo não passasse de um lugar escuro e ela, uma menininha boba, com medo de sombras na parede. Marisa pôs os olhos na greta da porta para tentar ver o corredor. E tudo o que ela via eram pequenos pontos de luz vindos do teto esburacado e alguma penumbra. Tomando coragem ela pôs a cabeça para fora e também a lanterna. Então viu um vulto de uma pessoa caminhando. Seu coração gelou. Os passos puderam ser ouvidos a direita na direção do vulto. Eram passos leves, suaves, mas ela os ouviu, de certo! Não estava ficando louca.

Saindo de quatro, rastejando com a lanterna na mão e a mochila nas costas, chegou até ao lugar onde trombou com o parapeito. Pensou ter ouvido um chamado baixinho de Alexandra. O medo percorreu suas vísceras. Ela já conseguia imaginar Alexandra agonizando em sangue, tripas e morte. E a culpa era dela, que a abandonou. Novamente, a voz de Marjourie a perturbou de algum modo. "Você é uma covarde! Assassina terceirizada! Você não matou ela, mas a entregou ao monstro!". Marisa gemeu e disse "Não! Não sou!", sua cabeça agitava-se em negação nervosamente, tremendo. Então de repente um tropéu surge de um recanto escuro e ela vê o chão se erguer como uma bolha de madeira e estourar. Um pedaço de madeira pontiagudo voou na sua direção e se fincou em sua perna. Seus olhos viraram enquanto uma dor terrível se espalhava por todo o seu corpo. Ela gritou de dor e caiu de lado. Ainda teve tempo de ver um brilho forte ao ouvir o grito de Geist! de Alexandra. Tomando coragem, ela mesmo ferido e sentindo o sangue escorrer pela perna, abriu a mochila, pegou uma runa e imediatamente utilizou-a. - Anhã! - Disse ela. Imediatamente seu ferimento se fechou enquanto seu corpo projetava a madeira para fora sozinho. No entanto, era tarde demais, sua meia 3/4 branca estava suja de sangue e havia um rasgo em sua saia. E o cheiro de sangue atraiu o monstro. Marisa não teve escolha. Ela subiu no parapeito e saltou para a escuridão. Dois minutos antes ela temeu cair do segundo andar, dessa vez, ela mesma saltou.

O espaço de tempo entre o salto e o impacto foi curto. Mas diferente de um chão duro, ela caiu sobre algo macio. Parecia feno. Um pouco de luz entrava pelas brechas nas tábuas da parede, e ela percebeu que havia caído em um inesperado depósito de feno. Ela tratou de se levantar e sair dali, ainda mancando um pouco, e ao sair, se deu de cara com o que parecia um misto de cativeiro e escritório. Havia papéis por todos os lados, e havia uma jaula com uma criança amarrada e com a boca coberta em silvertape. Era uma menina de cabelos pretos e olhos azuis. Ela estava magra, e tinha sinais desidratação tão evidentes que, mesmo Marisa não sendo médica, percebeu. Seus olhos desesperados clamavam por ajuda. Ela havia sido abandonada ali a alguns dias provavelmente.

Marisa abriu a portinhola e, movendo a lanterna para a direita, percebeu que havia uma segunda jaula, mas coberta de excrementos e um cheiro forte urina. Não que a da menina que encontrou fosse diferente, mas pelo menos ela estava viva. Tirando a fita da boca da menina, ela gemeu, mas falou:

- Help! I want my daddy! - E começou a chorar.

Marisa, enquanto envolvia uma criança que falava inglês com sotaque britânico e que nunca viu no braço, pela primeira vez naquele dia, não ouviu a voz de Marjourie, apenas o silêncio.

(Continua...)


domingo, 19 de maio de 2024

[CONTO] Paralelo

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".  

 Serra do Lago, 1998.



                             Os tênis afofados de Daniele pousam na fria grama do cemitério de Serra do Lago, logo após a loura pular um grandioso muro seguido de sua amiga, Marjourie.

Diferentemente da De La Viña, a descendente dos Alves, escorrega pelo concreto do muro com receio de tombar direto e por isso, termina sentada na grama e recostada em uma lápide.

Daniele com seus recém dezoito anos, colocou as mãos na frente do rosto e sorriu, para depois ajudar à amiga: — Eu não sou moleca como você, sua estúpida. — Marjourie reclamava baixo.

— O muro nem é tão alto — afirmava Dani. —, só caiu porque ficou com medo de cair. Igual em um paradoxo.

— A gente podia ter usado magia. — Marjourie aconselhava reclamando, enquanto elas desviavam de várias lápides desordenadas.

                            — Se usarmos magia assim, talvez sejamos detectadas. Marjourie, quem levou o Alan, era um bruxo poderoso.

A morena de longos cabelos baixou a cabeça para esconder o choro, mas uma claridade peculiar fez tanto ela, como Daniele, agirem rápido e se abaixarem atrás de duas lápides.

                          — Aqueles são... — a loura hesitou ao cochichar depois de olhar por cima da lápide, que estava agachada.

Oito pessoas, com túnicas beges se agrupavam diante de um altar, onde um garoto se rebatia. — Nossos brasões, nas roupas deles. — Dani concluiu voltando a se abaixar.

O garoto berrou pelos quatro cantos do cemitério e ambas as amigas arregalaram os olhos além de proferir em ordem unida: — Alan.

— Tudo bem Marjourie eu retiro o que disse, hora de usar magia e acabar com... — antes de abrir um frasco com água benta, Daniele teve a mão segurada pela a da amiga, que estava trêmula.

                    — Não podemos fazer isso. — balbuciou Marjourie, lacrimejando enquanto Alan gritava de dor sem nenhuma cerimônia.

— É o seu namorado e...

— Não. — Marjourie insistiu em interromper e segurar à amiga. — No melhor dos casos, se sairmos com vida, dentro de algumas semanas uma grande calamidade vai se espalhar por Serra do Lago.

— Do que você está falando? — Daniele perguntava e hesitava.

Alan gritava por socorro enquanto o ritual seguia, por de trás daquelas lápides: — É muita coisa para explicar, eu sei que ele é o meu namorado e não queria que fosse ele. Só que é preciso.

Pela primeira vez, os olhos de Daniele transmitiam medo, diante da mulher que até mesmo já lhe emprestou roupas. — É o mal necessário.

Naquele dia, Daniele sentiu que algo morreu dentro de Marjourie.

[CONTO] História dentro da história II

 Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 - 12:35

Marisa e Alexandra entraram pela porta da frente, mas logo perceberam que o local já havia tido visitantes antes. Um grupo de barris de madeira foram posicionados na entrada, impedindo a passagem. Mas isso não era obstáculo para uma ginasta. Outra coisa os preocupou. Nos barris das pontas havia duas hastes de madeira roliças, lembravam cabos de vassoura, eles estavam posicionados dentro dos barris sem tampa e unindo ambos uma faixa policial tingida em preto e amarelo isolando a área como cena de crime.

- Acho que a gente não devia entrar. A gente vai estar cometendo um crime se entrar. - Falou Alexandra.

Marisa bufou forte e reclamou:

- Não vim até aqui pra nada! Se essa faixa está aqui é porque não querem que a gente entre por aqui. Existem outros buracos na parede. A gente dá a volta, acha um e entra.

Alexandra processou o argumento por um segundo e deu de ombros.

Ambas saíram e contornaram a casa, procurando por falhas na madeira externa. Não era raro achar buracos e pedaços faltando, mas não haviam achado até então, um grande o bastante para que elas coubessem. Contornaram um pouco mais e chegaram, quase nos fundos, numa passagem apertada, mas que em teoria, caberia as duas. Com algum esforço elas entraram, um pedaço da blusa azul que Marisa estava usando agarrou numa farpa e acabou rasgando. A mais jovem dos Costa xingou. Ambas entraram apreensivas. O lugar era escuro e sinistro um cheiro de mofo e podridão se espalhava pelo ar e apenas algumas zonas penumbrosas eram visíveis por algumas falhas no telhado de terracota.

- Pega a lanterna, se não a gente vai ficar perdida. - Pediu Alexandra.

Marisa colocou o óculos de sol no cabelo, e fez conforme solicitado. Com as lanternas em mãos, a caminhada se tornou muito mais fácil, elas estavam num lugar que parecia um tipo de dispensa abandonada. Havia ali sacos velhos que deviam ter armazenado alguma comida no passado. Havia ainda cogumelos em algumas prateleiras. O ziguezaguear das auréolas luminosas feitas pelas lanternas gerava alguma tontura, mas revelavam o ambiente. Facilmente localizaram a porta de saída da dispensa. Ao sair, se depararam com uma cozinha velha. Havia um fogão a lenha ali, mas qualquer outro sinal de mobília se perdera ou fora retirado muito antes. 

- Até agora, tédio. - Murmurou Marisa.

- Que bom. - Suspirou aliviada Alexandra.

Elas seguiram caminhando um pouco mais conversando suas tremendas trivialidades.

- O que você acha que a sua irmã e o policial Souza estão fazendo agora em Vitória? - Perguntou Alexandra.

- Certamente se divertindo mais do que nós nessa ruína escura e cheirando a mofo.

- Já foi a Vitória?

- Já. É um lugar bem legal. Me sinto bastante a vontade lá. As pessoas estão sempre na moda, muito bom gosto e é um lugar bastante bonito. - Disse ela. - Mas você veio do Rio. Não deve ser estranha a descrição - Completou.

- Ah, sim. O Rio é bom. Só que tudo é muito longe e o custo de vida é um bocado alto.

- Vitória não é diferente. Aliás, talvez goste por causa disso... Não tem muitos Peter Cleitons por aí. - Marisa deixou escapar um riso sincero.

-  No Rio isso tem a beça! - Alexandra devolveu a risada, porém Marisa interrompeu.

- Ouviu isso?

Alexandra parou e escutou. Ela ouviu um som rosnado distante, quase acharam que era um animal, então, a medida em que o som se intensificou, perceberam que era um carro. Nesta altura já haviam saído da cozinha e estavam em um tipo estranho de corredor. Um cheiro esquisito e desagradável tomava conta do ambiente. Marisa caminhou até uma parede que julgava que dava divisa com o lado de fora, e espiou por um buraco. Não conseguiu ver muito, mas viu o momento em que um carro preto levantou poeira e estacionou. A nuvem de poeira era tamanha que ela não conseguiu ver a pessoa.

- Tem alguém aqui. Silêncio! - Disse Marisa.

Alexandra confirmou com a cabeça, e ambas saíram apontando lanternas por aí. Elas ouviram outros passos na casa, mas ela era tão grande que os ecos causavam confusão, pareciam vir de muitos lugares ao mesmo tempo. Agora elas já tinham saído do corredor e chegaram ao hall de entrada. Elas conseguiam ver a porta e os barris.

- Veja! Alguém removeu a fita de isolamento e arredou os barris - Pontuou Alexandra aos sussurros.

- Definitivamente não estamos sozinhas - Concordou Marisa.

- Será o assassino? - Alexandra tremeu.

- Tomara que não.

Elas seguiram caminhando, um cheiro de podre  tomou conta do ar. Estava muito forte, alguma coisa havia morrido ali. As lanternas revelavam riscos e marcas no chão. Linhas perfeitamente circulares revelavam pentagramas e hexagramas. Elas não falaram nada, mas perceberam que haviam chegado no lugar da fotografia. Alexandra foi a primeira a perceber um risco de giz no chão no formato de um corpo, mas apesar da marca de sangue e um estranho líquido viscoso preto, não havia corpo.

Marisa quase vomitou, e Alexandra teve que sustentá-la pelos braços. A ginasta, tomou coragem apesar da cara de nojo e com uma parte da frente da lanterna tentou encostar no líquido preto, e para sua surpresa, ele nem chegou a molhar a lanterna. O líquido, que parecia viscoso, literalmente evaporou como se fosse éter, ou como se tivesse sido lambido pelo simples contato com a luz da lanterna.

- Ok, isso definitivamente é estranho. - Alexandra falou.

Marisa tentando segurar a náusea, concordou com a cabeça e a mão na frente da boca.

Um estalido alto, um som de madeira oca e podre ressoou no teto, quem quer que estivesse ali, estava no segundo andar. Mais som de passos e rangido de madeira velha, estavam indo para algum lugar à retaguarda delas. Marisa, dando as costas a gosma apontou a lanterna na direção, e encontrou uma escada para o segundo andar. Havia marcas de sangue seco nela, e um outro risco de giz. Dessa vez escutaram um sussurro... Ou seria um resmungo? Parecia vir de algum lugar a direita da escada, de algum lugar que elas ainda não tinham explorado.

- Para onde vamos? - Perguntou Alexandra - Escada ou Direita?

 Marisa pensou, mas não teve tempo de concluir. Uma imagem aterrorizadora, que parece ter saído de um pesadelo, emergiu das sombras a direita. Um homem com o rosto deformado, faltava-lhe uma parte da cabeça e o que sobrara do cérebro estava pendurado do lado de fora por um tipo de tecido corporal que não se rompeu, talvez por um filamento de pele... Era impossível dizer. As meninas congelaram. A criatura falou algo em uma língua ininteligível. Sua voz era gutural e grave, como o mugido de um boi, sobre seus olhos e corpo um tipo de fumaça negra oscilava como se fosse uma aura ou ondulação. E o que quer que fosse, correu na direção delas com dentes a mostra revelando uma língua e céu da boca pretos como carvão. Marisa correu desesperada gritando. Alexandra permaneceu atônita e a única coisa que fez foi apontar a lanterna pra criatura num movimento involuntário de se proteger erguendo as mãos na direção do rosto.

Nada aconteceu se não um ganido como se fosse de cão. Faíscas saíam do corpo da criatura onde a lanterna tocava e ela parecia sofrer. Sem ver para onde Marisa tinha ido, Alexandra correu para a escada. Subiu as pressas o mais rápido que pôde. Quase tropeçou uma ou duas vezes, e escutou os passos apressados do que quer que fosse aquilo atrás delas.

Ao terminar de subir para o segundo andar, procurou por Marisa.

-Marisa! Cadê você? Eu estou com medo. Estou sozinha. 

Alexandra já ia começar a chorar quando viu dois papéis pequenos no chão. Havia runas desenhadas nela, e a caligrafia era de Marisa. Alexandra segurou aquilo como se fosse a própria vida e seguiu caminhando. Subitamente o chão sob os seus pés se eleva como se fosse ondular, como uma onda num lençol que se pretende esticar. E na sequência desse movimento antinatural, ele se parte e se fragmenta em centenas de pedaços com a criatura necrótica emergindo através dele como se com um salto e uma cabeçada, tivesse destruído o chão.

Alexandra não pensou duas vezes, e gritou Geist! Sem nem pensar em alguma coisa específica. A única coisa que ela pensou, o mais próximo de um conceito racional, foi em sair dali. O mundo girou, ela sentiu uma tonteira e uma luz branca surgiu. E ela se deu conta de que havia voltado para a escuridão. Ela estava caída em um beco da casa. Sua lanterna estava caída do seu lado e os dois papéis haviam se pulverizado na sua mão num brilho branco. Mas nenhum sinal da criatura. Ela tinha, de alguma forma, se teleportado pra outro ponto da casa. Um cheiro horrendo vinha da sua direita. Muito mais intenso do que qualquer outro, ao pegar a lanterna e ver o que era. Ela gritou de horror novamente. 

Uma criança! Uma pobre criança! Morta. Seu peito estava aberto e coberto de vermes e criaturas necrófagas. Seu corpo nu estava coberto de marcas que apreciam arranhões e suas intimidades, expostas, em condições traumaticamente indizíveis.

Alexandra se afastou rastejando sentada, de costas para o breu à sua retaguarda, quando uma mão estranhamente cheirosa, mas forte, a puxa pras sombras tapando a sua boca. Uma voz feminina e grave sussurra: - Calada! Vai atrair o monstro!.

(Continua...)




[CONTO] História dentro da história I

Arthur Ribeiro 

Serra do Lago, 09 de Maio de 2006 (sexta-feira).


Após gastar a manhã no Colégio, Marisa preparou cada detalhe que pôde para ajudar Helena numa investigação na cidade, enquanto sua irmã cuidava de assuntos federais. Ao sair pela guarita do portão do colégio ela olhou novamente a mochila para assegurar que havia trazido consigo tudo que poderiam precisar. "Lanternas, pilhas, duas maçãs, um cantil de água, uma corda e quatro pedaços de papel com runas traçadas", dizia ela mentalmente conforme sua mão tateava cada um dos objetos selados na penumbra da mochila semiaberta. 

Por um segundo Marisa se sentiu ridícula. "O que você está fazendo, sua idiota? Você não está indo para uma aventura de camping no quintal, é uma cena de assassinato!". E talvez, em parte por essa sensação de vergonha alheia, Marisa quase teve certeza por um segundo de que a vegetação rala ao lado dos eucaliptos que cercam a escola tomou as feições do rosto de sua irmã falecida, como se fosse de um julgamento cruel e mordaz. Seria uma ilusão? Um ardil perverso de sua mente?

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz suave aveludada de Alexandra.

- Desculpa o atraso! O treino hoje foi puxado! 

Marisa voltou seus olhos surpresos pelo despertar de suas inculcações.

- Tudo bem, foram apenas quatro minutos de atraso - Disse ela após olhar o celular.

Um silêncio um tanto patético tomou conta do ambiente.

- Você vai assim? - Perguntou Marisa a Alexandra. - Com um collant de ginasta e calçando uma sapatilha de balé? Acho que você não está entendendo a gravidade do problema que iremos investigar...

Antes que Alexandra pudesse se justificar, era quase como se Marisa pudesse ouvir uma voz grave, grave como a de sua irmã no seu subconsciente, perguntando com sarcasmo: "E você sabe, sua tola?"

- Foi mal. É que para não atrasar muito não tive tempo de me trocar. Vou me vestir no carro.

O chofer chegou com o sedan preto de vidros fumês, ambas entraram e disseram ao gentil motorista que sorria com os olhos, que elas iriam ao píer das balsas pois tinham uma atividade de escola do outro lado do lago.

O homem não questionou, aprumou o carro e o direcionou ao local indicado. Enquanto ele passava pela Avenida Beira-Lago, o olhar de Alexandra se perdia no azul do lago, ela olhava e via a linha pontilhada de verde do Bosque dos Alves do outro lado. Um lugar que as lendas urbanas locais reputavam como cenário de coisas ruins. Desde que Helena abrira o jogo sobre a cidade e o colégio, Alexandra já não sabia mais se eram só lendas. A meio caminho de lá, havia uma ilha - a Ilha de Santo Antônio - uma reserva ambiental que era entreposto entre as balsas. Uma equipe de biólogos sempre entravam e saía da ilha usando o sistema de balsas. Enquanto se vestia de modo menos esportivo, a atlética jovem de 18 anos, "a repetente", como algumas ginastas do Clube Tupã a chamavam desde que ela parou de andar com elas, sentia um leve calafrio correr as espinha conforme percebia o quão insano era aquilo tudo.

- Chegamos! - Exclamou o chofer - A que horas volto para buscá-las?

- Às 18 horas. - Vamos comer por aqui mesmo.

O motorista assentiu que sim com a cabeça ao desovar as meninas no píer e rumou o carro para casa.

11:18

Na balsa havia três carros. As pessoas esperavam dentro. Havia ainda alguns homens e mulheres com o uniforme do Ibama, e elas, duas jovens muito corajosas ou muito burras. Conforme a embarcação singrava as águas do lago, ambas pareciam tão nervosas que não se incomodaram com o silêncio latente entre elas. 

11: 52

Enfim, o silêncio foi quebrado quando desceram do barco. Havia um longo caminho até o local do antigo hotel-fazenda, elas pegaram a estrada a esquerda da bifurcação. (A direita levava a base do DIX)

Seguiram e não tardou a começarem a falar.

- Marisa... sabe que o Sete gosta de você, né?

- Eca! - Diz ela ajeitando os óculos escuros nos olhos, que antes estavam sobre sua cabeça.

- Ah, ele é legal. - Diz Alexandra um pouco vermelha, embora não se pudesse dizer com clareza se era o sol de quase meio-dia ou algum rubor.

- Não faz meu tipo. Mas se você quiser ficar com ele, fique a vontade.

- Não! Não! Eu sou velha de mais pra ele.

Marisa simplesmente parou no meio da estrada de chão ressequida, olhou bem para a ginasta, e falou em tom acusativo:

- Velha é a Helena. Vocês tem três anos de diferença. Falando assim até parece que você tem 77 anos. E olha minha irmã! Ela está dando uns pegas no Renan. 

Alexandra arregalou os olhos surpresa com a resposta. Marisa estava mudada. Antes sua percepção era de uma menina que implorava uma vaga no Clube Tupã. Uma mendiga de aprovação social. Agora ela estava diferente, parecia outra pessoa. Direta, sarcástica, acusativa. Falava o que pensava.

- O que foi? Vai ficar me encarando assim com essa cara de assustada? - Marisa indagou. Vamos voltar a caminhar. O local é distante.

Alexandra agora vestia uma short largo (folgado) que cobria as pernas desnudas pelo collant verde e cinza - cores da escola - e por sobre o collant no tronco, vestia uma blusa verde da equipe de ginástica do colégio com o zíper aberto no peito revelando os dois "C's" cruzados, logo reformulado da instituição.

- Eu queria que o Sete me olhasse como ele olha pra você... Só isso - Desabafou ginasta.

- Faça ele olhar. De minha parte meu interesse é zero... Por que a gente não se foca na missão, ok?

Marisa falava isso com certa rispidez, mas a verdade é que falar sobre trivialidades de adolescente estava tirando a tensão do ambiente. Ela realmente não gostava de Sete... Quer dizer, não como ficante ou namorado. Achava-o até bonito, mas Marisa não via outros atrativos para além disso. "Se ao menos ele tivesse a personalidade séria do Rian ainda seria alguma coisa", pensava ela. Mas o fato era que o jeitão irônico e com "humor de tiozão" dele com hordas de "daddy jokes" a cada cinco minutos não lhe descia, ainda que o achasse um bom amigo.

12:31

- Chegamos. - Disse Alexandra cortando os pensamentos de Marisa.

Marisa emudeceu diante do lugar.

Diferente de um gentil bosque de eucaliptos e abetos, o que havia na sua frente era um ralo início de selva, um raro trecho de mata atlântica com cipós, árvores de folhas largas, samambaias, e ela podia jurar que viu uma ou outra bananeira. E no meio dessa clareira de entrada, uma construção de madeira, feita em ripas. Era grande. Devia ter pelo menos uns 16 quartos no prédio principal. Marisa lembrou-se que sua mãe, no passado distante de seus tempos de adolescente, ficou hospedada no local. Ela dizia que havia casas avulsas próximo a açudes e pastos onde as pessoas podiam ficar em locais que eram mais propriamente residências que quartos.

Mas isso foi a muito tempo. Alexandra olhava temorosa, agora percebendo que aquela não era uma grande ideia. A fachada tinha uma varanda com telha, caída de um lado. A umidade corroeu quase tudo que fosse na madeira escura. Cipós e ervas daninhas, bem como juncos, cresciam entre o musgo nos buracos e fendas da madeira apodrecida e havia muitos trechos do lugar completamente corroídos pelo tempo e pelos cupins. Se não fosse pela mata ao redor, alguém poderia dizer que se tratava de uma construção de faroeste abandonada. 

Alexandra engoliu a saliva na boca, Marisa respirou fundo. E silenciosas entraram pela porta de um prédio no mínimo que cheirava a "coisa errada e mau assombro".

sexta-feira, 17 de maio de 2024

[CONTO] Vendeta, doce Vendeta

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".



Serra do Lago, 2007.

                            Helena desperta com o amistoso sorriso de Guilhermina, bem à sua frente: — Bom dia. — saudou a anciã, enquanto a menina conferia as horas.

— A aula, eu vou...

— Não se preocupe, afinal, não é como se realmente precisasse ir. Acho que precisa descansar hoje, está usando várias magias poderosas sem ter um corpo preparado.

— Mas mãe — contrariou-a, a pequena. —, e o vampiro?

— Aquele policial disse que vai cuidar de tudo, por que não dorme mais? A sua irmã já vai chegar da aula. — aconselhou Guilhermina.

                            Enquanto isso, do lado de fora do Colégio dos Pioneiros, um furgão estaciona rente a um dos muros que justamente tinha um ponto cego entre as câmeras.

— Jonathan, vamos mesmo roubar uma escola? —um dos homens perguntou para seu líder.

— Fica de boa, Carlos. — Jonathan o aconselhava. — Você, o André e eu. Teremos um estoque inteiro dessas coisas, só precisamos esperar.

Neste momento, Marisa, Rian, Sete, Mariana e Alexandra estão super concentrados em uma prova de história sobre suas respectivas cadeiras.

                               De uma hora para a outra, o alarme de incêndio começa a tocar e a professora grita: — Vamos evacuar! — disse abrindo a porta rapidamente.

Marisa ao passear os olhos sobre o movimentado corredor agarrou seus amigos pela mochila, inclusive Giulia e os pediu: — Esperem aí.

— A escola ta pegando fogo! — exclamou Sete, querendo se desvencilhar da garota.

— E cadê o fogo? — balbuciou Marisa. — Vamos até o diretor!

Com a ausência de sua irmã, instintivamente, Marisa os guiava em um ato de liderança, mas todos pararam ao ver o escritório do diretor arrombado por três homens misteriosos.

                                    A secretária estava morta, com o tórax afundado na parede e, sem perceber as crianças escondidas em sua volta, Jonathan disse: — O segredo das oito famílias e suas magias, tudo nessa pasta. Nossa missão foi um sucesso, vamos volta...

O homem se interrompeu, porque Marisa pegou o documento que ele segurava e saiu pela porta junto de seus amigos.

— André! — gritou o bandido, para o comparsa e o outro soprou fogo, mas nenhuma criança foi atingida.

— Por aqui! — guiou-os, Alexandra. — Vamos para o ginásio!

OS adolescentes desceram quatro jogos de escapas, até alcançarem as arquibancadas, esbaforidos, sem exceção.

                                      — Eles querem o segredo das famílias, a minha, também está inclusa... — Marisa balbuciou com as mãos, nos joelhos arcados.

Três esferas de luz do tamanho de bolas de basquete saltaram sobre eles, e ao quicarem nas arquibancadas se transformaram nos três bandidos que estavam no escritório.

— Crianças — balbuciava Jonathan, arrogantemente. — Eu, André e o Carlos somos seres poderosos nos entreguem essa pasta e deixamos vocês irem sem nenhum arranhão, é uma promessa.

— Geist! — Giulia gritou estendendo as mãos na direção dos criminosos e Carlos percebeu seus comparsas serem arremessados arquibancada a baixo.

                      — Pessoal! O que houve? — perguntou tão preocupado que quando percebeu Alexandra fazendo saltos ornamentais na sua direção, ativou seu poder de forma ineficiente.

— Geist! — gritou à loira, acertando um chute giratório no rosto de Carlos, era como uma coluna de concreto o acertasse e por isso, ele tombou pelas arquibancadas.

Alexandra percebeu sua perna dolorida e parte da arquibancada destruída, por onde Carlos havia escorregado.

— Não podemos continuar com isso, vamos embora! — Jonathan tocou nos ombros de seus dois comparsas e eles, voltaram a virar esferas luminosas, que saltariam para fora da escola, antes de serem percebidos. Já os adolescentes comemoravam a vitória e recuperação da pasta com os documentos.

— Espera só eu contar para a minha irmã! — gritou uma Marisa eufórica. — Somos invencíveis!

                                                                                          Continua...

quarta-feira, 15 de maio de 2024

[CONTO] O policial e a bruxa

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".



 Serra do Lago, 2007.

       Uma viatura estaciona diante dos olhos curiosos de Helena, enquanto o homem da lei abria a porta para pisar na lama: — Alguém da minha estatura, procurando um ladrão de galinhas.

— Senhor, senhor, na noite passada até nosso gado foi atacado.

— Calma — pedia Rodrigo. —, me levem até os animais.

Os moradores obedeceram ao policial e depois de andarem por uns bons dois minutos, chegaram até uma vaca que fora mordida no pescoço e estava em estado raquítico.

— Eu já ouvi histórias como essa. Aposto que é o Chupa Cabra.

Os ouvidos de Rodrigo escutavam o comentário de uma mulher, até que antes que ele pudesse colocar as mãos no bovino, uma criança ao longe gritou horrorizada.

                           Helena chegou à frente, ao lado da filha do fazendeiro que estava com as duas mãos na boca enquanto olhava para as costas de uma criatura vestida com trapos.

— Deita no chão, agora! — Rodrigo ordenou apontando a pistola para as costas do homem.

                     O calvo não obedeceu, mas se voltou para Rodrigo, gruindo feito um animal e deixando-o perceber seus caninos avantajados e a boca, imunda com o sangue da cabra.

Antes que o policial pudesse pensar em fazer algo relevante, viu seu alvo se transformar em duas dezenas de morcegos que saíram voando na sua direção: — Se abaixa! — gritou se jogando por cima de Helena e da filha do fazendeiro, para escapar do ataque.

O trio conseguiu desviar, mas viram o vampiro se materializar bem perto deles, com os pés descalços sobre a lama, enquanto gruía ameaçadoramente e saltava sobre eles.

Helena em um ato de coragem ergueu-se invocando sua espada de luz e obrigando a criatura a se desfazer em vários morcegos para escapar do golpe, por um triz: — Merda. — balbuciou a lourinha.

                                         Os morcegos voaram em direção a lua cheia e a espada da bruxa se desfez completamente, antes que ela desmaiasse por uma completa falta de energia.

Já Rodrigo quando percebeu que a magia da filha de Guilhermina se desfez, soltou a cabeça da filha do fazendeiro: — Filha! — gritou a mulher, vindo correndo.

— Senhor o que aconteceu? — perguntou o homem do campo, para Rodrigo, enquanto o ajudava a se levantar.

— Aqui não é seguro. — respondeu o policial. — Todos para a viatura.

            Enquanto isso, ao longe, os vários morcegos se materializavam em cima de uma árvore que tem uma visão periférica da cidade: — Serra do Lago? — perguntou-se com as luzes refletidas em seus olhos.

— Aquilo são tochas? — o vampiro parecia um tanto confuso.

— Não importa — balbuciou. —, preciso me alimentar se eu quiser alguma chance contra os fundadores.

                                                                                      Continua...

segunda-feira, 13 de maio de 2024

[CONTO] A irmã errada


Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".

Serra do Lago, 2007.

                              — Não estou entendendo — falava um homem olhando para uma adolescente loura, que estava amarrada dos pés, até os ombros. —, se a Guilhermina só tem uma filha viva, quem é você?

— A filha dela. — Helena respondia, com certo tom de sarcasmo, enquanto seus olhos azuis passeavam pelo interior da ambulância que os bandidos roubaram despercebidamente.

— Essa cachorra está tirando comigo! — ele reclamava, para os seus dois comparsas que estavam na frente, enquanto o veículo rumava para fora de Serra do Lago.

Preciso descobrir o que eles querem com a Marisa. — Helena pensava observando tudo a sua volta.

                          — Se ela está falando que é filha, vamos só pedir o resgate e ficar ricos, se não desovamos ela em algum lugar.  

— Ouviu? — perguntou o sequestrador que estava na parte de trás, com a herdeira de Guilhermina. — Você vai nos deixar rica!

— Geist. — em um alemão perfeito, a loura balbuciou ativando uma magia que simplesmente afrouxou suas amarras de tal forma que ela fosse liberta e se levantasse.

                               O bandido estava incrédulo, mas arregalou os olhos ao vê-la abrir um cantil de água e simplesmente, criar uma espada de luz incandescente, que até mesmo emitia calor.

Helena aproveitou a hesitação do homem e o decapitou com um único golpe, foi então que o motorista e o carona viram-na pelo retrovisor central: — Que porra é essa?! — gritou girando o volante.

A ambulância derrapou, porém a garotinha conseguiu com certa dificuldade dar estocadas com a sua arma de luz nas nucas dos seqüestradores, enquanto transpassava os acentos do carona e motorista.

— Merda! — Helena exclamou agarrando-se a uma maca, que saiu porta a fora, enquanto o veículo despencava por um desfiladeiro.

                                     A menina rolou pela grama, o gosto de terra molhada se misturava com o salgado de seu próprio sangue em sua boca, depois de morder a língua e enfim. Helena desmaiou.

Estas eram as últimas lembranças, antes de despertar em uma cama humilde, dentro de um quarto de paredes imundas e com um cão lambendo seu rosto.

Amistosamente, ela afastou o cachorro de si, ergueu-se e mesmo descalça passou por uma cortina que estava no lugar da porta.

— Mamãe, ela acordou! — uma menina, menor que a própria Helena, puxava a longa saia de uma mulher gorda.

                            — Querida, está com fome? — Helena assentiu com a cabeça depois de ouvir e ela apenas devorava o que aquela pobre mulher lhe oferecia, com a maior felicidade do mundo.

— Meu marido te achou desmaiada na floresta — contava a dona da casa. —, falando nele. — um homem de um vasto bigode, adentrou o recinto, com uma espingarda em mãos.

— Aquele Chupa cabra matou outra vaca, se continuar assim, vamos perder tudo. — reclamou ele, sequer notando Helena.

— Senhor. — Helena o chamou. — Obrigada por me ajudar, eu conheço uma pessoa que pode fazer algo por você e ela, vai me levar para casa, também.

                   — Me ajudar? Quem seria? — a menina estranhou o sarcasmo, afinal aquele era definitivamente um homem rústico.

— Um policial, só preciso de...

As gargalhadas do homem interromperam a sugestão de Helena, até que ele disse: — Agradeço sua boa vontade, mas os guardinhas de Serra do Lago nunca fazem ronda por aqui e já vai anoitecer.

— Confia em mim — pediu a menina. —, este virá.

                                                                                 Continua...

Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...