domingo, 7 de julho de 2024

EPR - Vínculo Arcano [REALITATE 1.5]

Vinculo Arcano (Nível 1,  1 ENG, 1 ponto), permite através do desenho de uma Runa, que o conjurador empreste seu PdA para outra pessoa. Só pode vincular 1 pessoa, não é possível usar mais de um vínculo arcano por dia, e não admite ampliações ou qualitativos. Teste de Taumatologia ou Artes (Caligrafia) seguido de um de INT+NPM. A runa é consumida no ato.

Pré-requisito: Taumatologia 1 e/ou Artes (Caligrafia) 1.


sábado, 1 de junho de 2024

[CONTO] O Cotidiano de Breen - III

Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 15 de Maio de 2006, 20:45.


Monica Breen adorava sair do Departamento por volta das 19h; ela, que para manter-se sempre as ocultas, optou por morar numa casa de madeira e vidro de alto padrão, na região da Mata dos Serralheiros, na divisa entre Serra do Lago e Santa Teresa, tinha uma rotina coreografada. Região bem afastada, para além da rodovia que dá para a capital no sentido da Clínica local, ela precisava sair com sua SUV e pegar uma estrada acidentada de terra para chegar ao referido trecho de mata atlântica. Nos dias comuns ela saía às 19h, chegava em casa perto das 19:40. Tomava um banho numa banheira de hidromassagem, colocava por controle remoto uma música clássica. Em que pese ser comunista, Breen como o bom "esquerdista caviar", preferia as manifestações eurocêntricas às periféricas da world music. Tinha particular afeição pelo trabalho 9, números 3, 5 e 8 de Tomaso Albinoni (a quem considerava um gênio). A arquitetura barroca de Serra do Lago fazia, inclusive, a música ganhar mais sentido. Ao sair do banho de roupão, servia-se um vinho rosé, lia um livro, normalmente Chaucer. Punha-se a dormir por volta das 21h.

Mas este era um dia diferente. Era perto da meia-noite, ela ainda estava no seu escritório minimalista, moderno, com largas janelas de vidro e poucos adereços, posicionada atrás do velho castelo de Gonçalo, onde ela podia ver o vasto bosque de eucaliptos ao fundo. Em sua sala, de paredes escuras iluminada em tons dourados por lâmpadas de paredes, ela acompanhava a movimentação na base em todos os níveis por várias câmeras e monitores. De 15 em 15 minutos, entrava em contato com Jean-Pierre Montreux, um homem negro, alto, forte, militarmente capacitado, e que por acaso era o líder dos sentinelas - sua guarda de elite - elegantemente trajando fardas brancas, e o haitiano dava o relatório do perímetro. Os guardiões - equipe secundária - que trajava fardas pretas - estavam nos arredores do colégio em carro a paisana. Três soldados, atentos, aguardavam pacientemente o desfecho do ataque dos karpovitas. Numa tela menor, Breen acompanhava o setor de contenção.

Era por volta de 20:45, quando no final das apresentações da Feira de Artes no Colégio, os guardiões deram sinalização de que uma horda karpovita havia nocauteado o vigia da guarita, aberto a cancela e arrombado o portão principal. Às 21h, os guardiões reportaram que havia um policial nas dependências da instituição de ensino, e às 21:05, reportaram a invasão do ginásio pelo telhado. Breen sorriu, seu plano estava funcionando. Às 21: 07, Breen ordenou a Montreux que destacasse três de seus homens para ir fazer uma visita a um radialista enxerido, David Monsalve, na rádio comunitária.

- Presidente! - Exclamou o comandante de infantaria  dos guardiões, Moisés Bereshit - Ouvimos um disparo no recinto.

- Bereshit, mantenha posição. Mande o tenente Ibarra se aproximar, preciso de um relatório do que está acontecendo. - Ordenou a mulher.

No fundo do comunicador, o som das ordens gritadas se ouviu.

Mais quarenta segundos se passaram e Ibarra pessoalmente reportou-se à presidente.

- Presidente Breen, a situação é caótica. Alunos e pais fugiram em pânico. Petrov está negociando com o policial em um português sofrível.

- Aguardem. Não temos interesse na morte de ninguém. Algum sinal da agente Sándor?

- Não senhora. Segundo o praça Miranda, ela saiu com Marisa Costa a dois minutos atrás.

Breen sentiu a raiva subir pela espinha, seu rosto ruborizou-se. 

- Como nosso principal alvo saiu e ninguém me avisou? - Gritou ela, no comunicador.

Um silêncio constrangedor se pôs entre eles antes de ser cortado pela voz gaguejante de Ibarra:

- Nós a perdemos de vista, e quando a vimos sair logo percebemos a presença dos karpovitas. Tudo foi muito rápido.

Breen socou a mesa e urrou de raiva enquanto clipes e canetas vibravam com impacto na mesa metálica. Sua raiva, porém, não foi plenamente desenvolvida. Antes mesmo de pensar em alguma contramedida, Ibarra interrompeu:

- Disparos! Há intensa troca de tiros no recinto! 

- Destalhes, Ibarra! Agora! - Ordenou ela.

- Petrov se teleportou após transformar em pedra alguns alunos que ainda estavam de curiosos no recinto! Permissão para agir?

- Não! Preciso de um relatório completo! - Gritou Breen.

Seu plano estava indo por água abaixo. O que poderia ter dado errado? Ela era uma contista premiada na universidade. Isso não fazia dela nenhum Tolkien, obviamente, mas ela sabia como encadear palavras e conhecia as principais técnicas. Odiava Shakespeare, amava Chaucer e também Fitzgerald. Ela havia escrito na Hamington, não havia? Será que o fato da máquina estar com seus poderes enfraquecidos foram a causa desse desastre? Ela afastou esse pensamento. "Não, mesmo enfraquecida, a Hamington ainda é muito poderosa". Repassou mentalmente seu plano, que aliás, era simples: Usar as paranóias de Petrov para forçar o grupo de Sándor e os Karpovitas entrarem em conflito entre si. Assim ela poderia negociar em posição de vantagem com o grupo de Sándor: "Deixem o escritor e a Hamington sob custódia do Departamento, e nós enviamos a cavalaria para ajudá-los, uma vez com Petrov em custódia, ela poderia voltar sua atenção ao líder maior do karpovismo: Mikhail Ulianov". Breen não tinha interesse nenhum em um conflito com as oito famílias, ainda que elas estivesse enfraquecidas desde o colapso d'O Sopro em 2005.

- Há pessoas petrificadas no recinto, uma menina petrificada foi atingida por disparos, e o policial e uma estudante muito hábil estão lutando. Estão encurralando os karpovitas! Incrível! Nunca tinha visto nada assim! - A exclamação de Ibarra soava como o de uma criança assistindo uma luta de anime.

- Estão em vantagem numérica? - perguntou Breen.

- Nada disso! São 2 contra 6 dos karpovitas! A menina está encurralando parte da horda num canto, e apesar de muito ferido, o policial sozinho derrotou... Minha nossa! - O espanto  de Ibarra era genuíno. O som de uma explosão se ouviu no fundo.

- O que aconteceu!? - Perguntou Breen, o medo saltava na sua voz.

- Um karpovita foi lançar um projétil preternatural e o disparo do policial fez a coisa explodir na mão dele, o cara foi completamente desintegrado vivo! - Explicou Ibarra. - Uma morte horrível! - Completou.

- Entrem agora! Agora! - Gritou Breen temendo que a situação ficasse ainda pior do que já estava.

Ordens gritadas foram ouvidas no comunicador. E em segundos Miranda e Ibarra entraram estourando as janelas do ginásio. Bereshit estava do lado de fora para pegar os desgarrados.

O tiroteio durou mais um pouco até que dois karpovitas fugiram, ambos acabaram nocauteados e detidos pelo Departamento graças a tiros de baixo calibre de Bereshit. Apesar de ter dois deles em mãos, para Breen a operação havia sido um desastre completo. Mesmo que Montreux tivesse anunciado a custódia de Monsalve pelo comunicador, era difícil manter aquela zona oculta. Breen caminhou até um armário, abriu um fundo falso, e pegou um garrafa de vinho do Porto. Precisava molhar a garganta. Montreux entrou em contato no momento em que ela ia se servir: 

- Presidente, Monsalve está numa cela de interrogatório no centro de operações no subsolo do píer, conforme orientado por si. 

- Ótimo. estarei aí em 30 minutos, preciso controlar a situação no Colégio. Câmbio, desligo!

Breen serviu-se uma taça generosa. Virou a primeira sem nenhuma classe. Deu um murro na mesa. Serviu-se, e novamente, e do mesmo modo virou a segunda. Pareceu se acalmar por alguns minutos. Ficou pensativa e cabisbaixa. Os 30 minutos se passaram, algumas horas se passaram, assim. Seu comunicador, removido da orelha, apitava com os contatos sem resposta de Montreux. Ela parecia estar vivendo sua própria Guantánamo. 

Sua introspecção só foi quebrada, quando efetivamente começou a pensar numa contramedida, mas mesmo isso se mostrou insuficiente, pois como se nada pior pudesse acontecer, ela entrou em pânico ao ver numa tela ela a delegada Jordan no local do combate, e - pior ainda! - no outro monitor (o menor) o alarme na sala do escritor soar. Ela se levantou, esvaziou a taça de vinho, e foi até a mesa. Era meia-noite, e mesmo sem entender como ou porquê ela assistiu suando frio a Brooklet, Marisa e Sándor juntos dentro da cela de contenção. Havia um tipo de portal aberto atrás delas, e imediatamente, um outro surgiu dando para fora da cela de contenção. Desesperada, Breen apertou o botão vermelho! Nenhuma contramedida poderia ajudá-la naquele momento. Era hora do tudo ou nada, ela despejaria poder de fogo em qualquer um que invadisse a base e, mais ainda, em quem se aproximasse da Hamington.

Após o clique no botão, um alarme barulhento começou a soar, luzes vermelhas a piscar. Uma voz robótica começou a gritar nos alto-falantes: "Atenção! Isso não é um teste! Falha de contenção! Falha de contenção! Setor de Contenção em Lockdown!'. Breen havia sido passada para trás - Disso ela tinha certeza - Mas como?

Continua...

sexta-feira, 31 de maio de 2024

[CONTO] A profecia

 Serra do Lago, 2007.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 



                                      O braço putrefato que Helena arrancara de Agnes, é mergulhado em um aquário pelo padre Francisco, enquanto Jonathan o observa: — Senhor, isso é correto? — perguntou o bandido. 

— Serra do Lago tem mudado bastante — explicou o padre. —, por anos o que travou essa podridão foram às oito famílias, Marjourie era a nata de todas elas, mas agora ela está morta. 

O homem de fé percebeu a hesitação de seu subordinado: — Nenhum bruxo deste século voltou dos mortos, quando acontecer ela unirá as oito famílias de uma vez por todas. 

— Achei que o senhor odiasse os fundadores. 

— Odeio — respondeu Francisco. — do jeito que estão. Agnes foi um ótimo testa de ferro, as coisas vão se acalmar por aqui, então iremos a fase dois sem pressa. 

                                 Enquanto isso, na escola dos fundadores, Helena observa a bizarra decoração digna de um dia das bruxas com seus brilhantes olhos azuis. 

— O dia da profecia? — a loura deixou sua leitura escapar em forma de palavras, ao parar em frente a uma faixa. 

                              — Nunca ouviu sobre? — Sete perguntou e Helena acenou negativamente com a cabeça. — As oito famílias em uma bela noite presenciaram o embate de um anjo e um demônio. 

— E vocês fizeram um pseudo-dia das bruxas em cima dessa lenda? 

Helena perguntou fazendo força para não rir: — Acredite se quiser, bem eu vou ao banheiro. Até depois. — disse o garoto entrando em uma porta. 

— Helena! — Marisa vinda na direção da irmã. — Recebi a ligação dos pais do pessoal, todos eles sumiram! 

— Calma, acabei de falar com o Sete. — explicou à loura, recebendo o abraço da morena como se fosse puramente saudade. 

                            — Mas os outros sumiram, procurei por toda a escola! 

Helena olhou para a feição preocupada de Marisa e olhou para a porta do banheiro masculino: — Faz o seguinte, espera o Sete, eu tenho uma pista de quem sabe onde eles estão. 

— Espera! — Marisa ordenou ao ver sua irmã correr. — Para onde vai?

Helena correu sem dar atenção para Marisa, ninguém percebeu, mas a loura chorava e seu rosto ficava com um tom avermelhado, enquanto aumentava sua velocidade rumo à parte marginal da escola. 

Por lá, havia um grupo de cinco adolescentes reunidos em frente a um latão de lixo, em completo silêncio. 

                            — Estão me esperando? — Helena perguntou chamando a atenção para si. — Isso foi estúpido, é claro que estão. Olha para vocês, quietos e tensos, nunca fizeram isso? 

— Do que essa maluca está falando...

As gargalhadas fantasmagóricas de Helena interromperam uma menina de completar a pergunta: — Eu ameacei o líder de vocês e raptaram meus amigos e depois, me esperaram em uma área isolada da escola, vocês acham que eu sou idiota?! 

— Para falar a verdade. — Helena balbuciou evocando sua espada da luz. — Eu vou gostar do que vou fazer e vou gostar muito. 

 O garoto loiro precisou segurar o gordinho pela camisa, para que ele não fugisse, enquanto Helena partia para o ataque. 

      — Tiago! — brigava ele. — Precisamos lutar aqui, faça o que combinamos! Agora! — o gordinho juntou as mãos e evocou uma magia poderosa, um campo de força protegeu todos os seus amigos. 

— Perfeito, Ana, comece o encantamento! — o loiro ordenou vendo Helena desferir inúmeras espadadas na redoma que o protegia. 

— Vai demorar de dois a três minutos, da pra confiar na barreira? 

— Vou dar o máximo! — Tiago afirmou e assim, a amiga começou a cantar com palavras impronunciáveis. 

— Seus merdas! — Helena gritava. — Tudo que os separa de mim é essa coisa! — ela cuspiu na barreira e voltou a golpear a redoma. 

                                 Quer dizer que você acha história chata? — quem se lembrava era Tiago, do dia em que conheceu Helena. — Eu acho que quem não sabe a história, está fadado a repeti-la. 

— Ela está atacando o campo de força em um único ponto. — outro comentou vendo a loura incansável para entrar. 

— Vou dar tempo para a Ana! — O líder loiro exclamou mexendo em seu colar de pedras vulcânicas e fazendo o movimento de puxão para baixo, com uma força considerável. 

— Ficou maluco?! — Tiago gritou olhando o céu. — Vai nos acertar! 

— E daí? Estamos protegidos. — Helena ouvia-o, enquanto observava três bolas de fogo despencarem do céu e o por isso, ela teve que se afastar da redoma que seu colega de escola criou, rapidamente. 

A magia de Tiago estremeceu com o impacto, porém assim que as esferas tocaram o chão, Helena estava bem mais afastada e arfante. 

— Você viu aqueles saltos? — outra amiga perguntava. — Foi acima da equipe de ginástica, ela é mesmo humana? 

— Claro que é, vocês estão com med...

O líder se interrompeu ao ver Helena segurar a espada da luz em uma posição peculiar: — Tem como ela saber essa magia? — perguntou Tiago vendo-a sorrir. 

— Impossível, é um blefe e de onde ela tiraria forças? — o loiro indagava-se, tentando relaxar seu grupo. 

                                   — Lanterna de Wake! — Helena gritou e instantaneamente, disparou sua espada de luz como um projétil, na direção da redoma que Tiago conjurou. 

O campo de força estava enfraquecido devido ao impacto dos meteoros e se despedaçou jogando seus protegidos ao chão, como se eles tivessem sido levados por uma forte onda. 

— Que magia poderosa. — Ana parou de cantar, para reclamar. 

Helena buscava muito ar para respirar e curvava seu tronco para frente: — São preciso cinco de vocês, para me fazer suar. Geis...

                                              Uma esfera de luz trombou com as costas da loura e a jogou no chão, antes que ela pudesse concluir e depois a esfera se transformou em Jonathan.

— Seria problemático se ela falasse algo. — o bandido falava verificando que a bruxa estava desmaiada. — Fizeram um bom trabalho, eu nunca conseguiria vencer esse monstro. 

Quem tinha presenciado a luta e seu desfecho, era Renan um garoto com quem Helena saia, agora estava escondido. 

— Até mais crianças. — saudou Jonathan. — Foi um prazer. — ele se transformou em esfera junto da loura desacordada e saiu voando da escola, como se nada tivesse acontecido, enquanto os garotos comemoravam a vitória contra uma inimiga formidável. 

                                                                                Continua...


quinta-feira, 30 de maio de 2024

[CONTO] O Cotidiano de Breen - II

Arthur Ribeiro

Serra do Lago, 15 de Maio de 2006, 16:00.

O som da chuva batendo nas janelas era como um relógio em contagem regressiva. Era a típica tarde fria em que a pluviosidade se concentrava exclusivamente na região do Bosque dos Alves, enquanto o resto da cidade via céu limpo e nevoeiro. Monica Breen observava a tempestade se intensificar do conforto frio de sua sala de comando. A escolha de Serra do Lago, no Espírito Santo, havia sido estratégica. Após os escândalos de Guantánamo, ela sabia que precisava de um lugar discreto, pequeno, longe dos olhos da mídia americana. Ali, se algo falhasse, seria menos notado. Mas ultimamente, a preocupação tinha se transformado em um medo palpável. A situação com Arthur Brooklet e os karpovitas estava se aproximando de um limite perigoso.

A sala estava repleta de monitores, todos mostrando dados críticos. Em um deles, a transmissão ao vivo da cela esférica de Brooklet. Ele estava deitado, o olhar sereno, quase confiante. Uma dúvida perfurou a mente de Breen. "Seria tudo isso uma encenação?"

As palavras de Brooklet ecoavam na sua cabeça, como um espectro assombrando seus pensamentos: "Se você estivesse tão certa de sua vitória, não teria se dado ao trabalho de vir até aqui. Você não está me contando alguma coisa. E certamente isso te preocupa de algum modo."

Um arrepio subiu pela espinha de Breen. Determinada a confrontar seus medos, ela pegou o telefone e ligou para o Dr. Richard Montalban, um dos cientistas mais respeitados do departamento. "Encontre-me na sala de contenção da Hamington," disse, sua voz fria e resoluta.

Na Sala de Contenção da Hamington

A sala de contenção estava mergulhada em um silêncio quase reverente. O Dr. Montalban estava lá, ajustando os controles da máquina de escrever Hamington. O brilho pálido das telas criava sombras que dançavam nas paredes. "Doutora Breen," ele começou, hesitante, "não fizemos testes suficientes com a máquina. Ela só parece responder a um talento verdadeiro."

Breen respirou fundo, sentindo o peso do momento. "Ganhei o concurso de contos inspirados em Francis Scott Fitzgerald quando estava na faculdade," revelou, sua voz firme, mas carregada de memórias distantes.

Montalban olhou para ela, os olhos cheios de dúvida. "Muito bem," disse ele finalmente, "mas lembre-se, a máquina reage de maneira imprevisível. Se algo der errado, poderemos ter um problema ainda maior."

O último mover de peça:

Breen sentou-se diante da Hamington, a máquina de escrever que poderia ser sua salvação ou ruína. A intuição dizia que um avanço dos karpovitas contra a base seria uma armadilha. Chaya Sándor confiava em Ivan Petrov, mas o que ela não sabia era que ele era insano, paranoico, com uma mania de perseguição e traição. Esse era o ponto fraco que Breen precisava explorar.

Cada palavra que escrevia parecia ter um peso maior do que as anteriores. A luz azul fraca começou a emanar da Hamington, pulsando como um coração desesperado. As frases fluíam, tecendo uma narrativa que poderia mudar o curso dos eventos.

A luz azul da Hamington pulsava, iluminando o rosto de Breen enquanto ela digitava as últimas palavras. Sentia a tensão em cada músculo, mas também uma determinação feroz. Levantou-se lentamente, a luz diminuindo até desaparecer. As palavras no papel eram agora uma nova realidade, uma nova esperança.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

[CONTO] Duzentos anos antes, três anos antes.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro". 

Serra do Lago, 2007.



                       Um cemitério com muita lama e uma fina camada de chuva surgiu. Ao redor estavam inúmeras pessoas carregando tochas e no centro, o que seria um padre, com as mãos e pés pregados em um caixão que estava de pé.

— Jesuíta Agnes! — um dos homens lia uma carta. — Como se defende dos crimes de pedofilia e assassinato de vinte crianças, por beber seu sangue?

— Eu vou expurgar os fundadores de Serra do Lago e me deleitarei em cada gota de sangue deles que caminhar sobre a terra, até o fim dos tempos! — gritou Agnes encarando seus julgadores, com muito ódio.

O carrasco fechou o caixão e depois empurrou ao buraco, para que sete palmos de terra fossem despejados, sobre ele. Só depois de ler isso, Giulia fechou o livro da biblioteca de Guilhermina e saiu correndo.

     — Gente! — a garota abriu a porta do quarto de Marisa, onde estavam à própria, Helena e Alexandra. — Eu descobri quem ele é?

— Ele quem? — perguntou Helena, ainda penteando o cabelo.

— O vampiro que você lutou contra, viveu aqui, uns duzentos anos atrás. — enquanto Giulia contava, Marisa olhava fixamente para as suas próprias mãos, como que se buscasse uma solução.

                                              Se vocês tivessem se manifestado um pouco antes, eu não...

— Tem alguém ai? — Alexandra perguntou entrando no campo de visão de Marisa e a fazendo interromper seus próprios pensamentos.

— Eu sei que falar de vampiros é legal, mas vamos perder a festa. Será que só por uma noite podemos relaxar? — agora a ginasta perguntava a todas as presentes naquele quarto.

Quase não tem água benta, acho que dá para mais uma.

— Agora é a outra irmã! — Alexandra reclamava de Helena perdida nos pensamentos. — Vamos nos atrasar, por favor.

                                 Enquanto isso, nos fundos da igreja de Serra do Lago, o padre e seus três comparsas faziam uma espécie de ritual sombrio com sacrifício de três animais e uma mulher.

— Que a verdadeira herdeira dos Costa nos fale, por este cadáver.

— Um padre? — a voz de Majourie ecoou pela boca ensanguentada da morta e os três quase hesitaram. — Profanando sua igreja?

— O que está profanado são as famílias fundadoras, a começar pela sua. Sua mãe adotou uma criança e revelou seus segredos.  

Afirmou o homem de fé, até que a entidade perguntou com certa raiva na voz: — Quem é você, bastardo?

— Um padre. Que quer ver as elites, puras, como devem ser.

                                         Música alta e luzes brilhantes refletiam nos rostos de Helena, Alexandra, Marisa, Giulia e inúmeros convidados da festa. Até que o corpo de uma adolescente tombou pelas escadas.

A menina estava morta e ao terminar de cair uma correria e gritaria começaram: — Esperem. — pediu Helena segurando sua irmã e amigas.

As quatro se viram sozinhas e acima da escada, um homem descalço flutuava enquanto as olhava, era Agnes, o vampiro  que desta vez esbanjava uma invejável vitalidade.

                              — Giulia e Alexandra. — Helena chamava ao mesmo tempo em que evocava sua espada da luz e esvaziava um cantil. — Liguem as lanternas de todos os carros custe o que custar.

— Ta preocupada...

— Marisa! — gritou a irmã. — Desliga as luzes da festa.

— Eu me lembro de você, desta vez essa magia não conseguirá te salvar das minhas presas. — afirmou o vampiro ao ver as garotas se dispersarem e instintivamente, ele jogou Helena contra uma porta de vidro, com telecinese.

Espero que saiba o que está fazendo. — pensou Marisa com um pedaço de papel na mão. — Geist. — proferiu e todas as luzes da festa se apagaram, mas o vampiro gargalhou.

             — Não adianta! — gritou Agnes. — Essa coisa espalhafatosa te ilumina, como um lampião. — ele flutuava lentamente na direção da loura, que ainda se levantava.

— Para quem ficou duzentos anos em uma caixa, você é bem arrogante. O mundo mudou bastante, sabia? — Helena perguntava sorrindo para o monstro em sua frente.

— Do que você está falando? — indagou o vampiro percebendo a confiança da lourinha e pela primeira vez hesitando.

Helena diabolicamente gargalhou para irritar seu adversário, antes de responder: — Existe uma época do ano em que o sol nasce antes da hora, um conhecimento que você desconhece. O horário de verão!

                             Com a magia Geist, de Giulia e Alexandra os faróis de sete carros foram ligados diretamente na direção de onde Agnes estava e enquanto Helena gargalhava igual uma bruxa, o vampiro recolhia-se da luz temendo o fim de sua existência.

— Você é mesmo um gênio! — Marisa elogiava a irmã, colocando os óculos escuros sobre os olhos para se proteger de toda a claridade.

Helena corria na direção do vampiro, aquela era a brecha que ela estava esperando e empunhando sua espada de luz branca, armou um derradeiro golpe que precisaria ser certeiro.

                  Essa luz! — pensou o vampiro. — Não queima! — gritou conseguindo desviar do ataque da loura, mas ainda assim, seu braço esquerdo foi cortado pela metade e tombou a esquerda de Helena.

— Merda! — praguejou a bruxa quando se virava para trás e tinha a visão prejudicada pela luz das lanternas dos carros. — Geis...

Com a mão que ainda lhe restava, Agnes segurou a boca de Helena e a pressionou contra a parede com uma força considerável.

— Foi um belo truque — elogiava o vampiro. —, mas se não puder falar essa palavra, nada irá acontecer e aquelas outras já usaram esse mesmo poder! Acabou pequena!

— Irmã... — Marisa hesitava ao ver a espada de luz no chão e os caninos pronunciados de Agnes se aproximando do pescoço de Helena.

                              Não precisa terminar assim... — a voz da falecida irmã de Marisa, ecoava em sua mente, enquanto a vida da adotiva estava prestes a ser ceifada. — Com estes poderes, você poderia tê-lo salvado, assim como pode agora. Apenas liberte o seu poder.

Marisa ergueu as mãos na direção do vampiro e berrou como nunca antes na vida, no momento que lágrimas, decorriam por baixo dos seus óculos. A telecinese foi tão poderosa que Agnes largou Helena e começou a flutuar contra a sua vontade.

                       — Essa magia bruta... — assim que Marisa deu outro grito imoral, Agnes foi interrompido, já que seu corpo explodiu por conta da pressão que o poder da bruxa exerceu.

Helena arregalou os seus olhos azuis ao ver a irmã tombar exausta, depois do inimigo ter sido completamente aniquilado. Agnes, não passava de uma poça de sangue no assoalho daquela casa.
      

                                                        Continua...


segunda-feira, 27 de maio de 2024

[CONTO] Cotidiano de Breen - I

 Arthur Ribeiro

 Serra do Lago, 14 de Maio de 2006, 15:00.

Era uma sala branca  e sem quinas, praticamente redonda. Nela havia uma mesa de metal cromado com uma cadeira na frente e outra atrás. Ao lado dela, próximo ao limiar da parede esférica uma cama, e ao lado dela, mal oculta pela estrutura circular uma porta de deslizar. Não fosse por esses pequenos detalhes, aquele recinto se pareceria com um espaço branco adjacente infinito para todos os lados.

Arthur Brooklet estava já a quatro dias naquela prisão, fazia quatro dias que ele já não tinha mais a "Hamington" sob sua posse. Não que isso importasse, no plano de Brooklet, passar metade dos poderes da máquina para si era essencial, pois era o único meio de continuar extremamente relevante para conseguir escapar. Essa etapa do plano era a mais difícil, pois pela primeira vez desde que percebeu que poderia passar os karpovitas para trás, ele não tinha mais o controle quase absoluto das probabilidades, e para piorar, a presidente do DIX, uma mulher americana de nome Monica Breen, não deixou nem mesmo um lápis ou caneta a sua disposição. Fosse como fosse, restava a Brooklet confiar. Cedo ou tarde os karpovitas dariam as caras e, ao escrever na máquina, ele recebeu o influxo da realidade na sua mente, e graças a isso, ele sabia que prender Ivan Petrov, líder de uma célula karpovita na Europa Ocidental, era mais importante para o departamento do que mantê-lo sob custódia. Na mente de Brooklet era tudo uma questão de tempo. Mesmo que ele não pudesse mais escrever para manipular as probabilidades ao seu favor, ele havia plantado bem as sementes dos fatos e armado bem a cama da presidente do DIX. Cedo ou tarde a presidente Breen perceberia que não tinha escolha, se não barganhá-lo com a equipe do Oficial Souza.

O clique-claque de uma tranca digital é ouvido, e uma porta com uma circunferência complementar Às das paredes se desloca para fora dando entrada a uma mulher. Ele sabia que era a presidente do DIX, Monica Breen. Vê-la pessoalmente ali, deu-lhe ainda mais certeza de que seu plano estava funcionando bem.

- Senhor Brooklet, devo confessar que você é realmente muito ardiloso. Fizemos nos últimos dias alguns testes com a "Hamington", e neste momento a máquina de escrever está sob contenção. No entanto...

Breen cadenciou sua fala e puxou uma das cadeiras, sentando-se de frente para o escritor.

- ... notamos que a assinatura energética dela apresenta valores de xenorradioatividade muito menores do que as que deveria apresentar dado o grau de alterações que ela foi capaz de executar enquanto sob sua posse.

Brooklet sorriu sarcasticamente e falou:

- E o que eu tenho a ver com isso?

Breen respondeu o sorrisinho com outro enquanto sacava um tablet de seu sobretudo, e tornou a falar:

- Senhor Brooklet, não precisa se comportar como se tivesse tudo sob seu controle, porque mais cedo ou mais tarde, vai se dar conta de que por mais engenhoso que seu plano tenha sido, ele está cheio de buracos.

Brooklet continuou confiante enquanto ouvia as palavras da bela mulher do noroeste pacífico dos Estados Unidos.

- Bem senhor Brroklet, eu não nasci ontem e não cai nesse cargo de paraquedas. Nós já percebemos que a máquina é uma via de mão dupla. Você informa ao tecido da realidade o que você deseja, mas ela te devolve mentalmente as informações que você precisa conhecer pra escrever. É como se você baixasse todas as memórias de Deus sobre aquele pequeno local do espaço-tempo diretamente na sua cabeça na hora de escrever.

- É assim mesmo, senhorita Breen. Estou impressionado. - Falou ele enquanto colocava as mãos algemadas sobre a mesa reflexiva.

- Pois então. Se o senhor tivesse entregado a "Hamington" em seu estado original, nós simplesmente o entregaríamos a Inteligência do Brasil como mentor de assaltos a bancos, e eles garantiriam que você nunca mais retornaria a ver sua filha. E os karpovitas iriam atrás de outro escritor antes de tentar recuperar a máquina. Porém, tenho certeza que você transferiu parte dos poderes dela para outra coisa, outro objeto, em algum lugar que só você sabe onde está... Isso se não os transferiu para si mesmo. 

O rosto de Brooklet agora ficava sério.

Breen ergueu ainda mais seu sorriso e continuou falando. Ela claramente amava escutar a própria voz, especialmente nos momentos em que ela acreditava estar em posição de vantagem.

- É óbvio! Os karpovitas precisam da máquina, mas a máquina tem apenas metade de seus poderes, então para que ela cumpra os objetivos que Ivan Petrov deseja, ele precisará do escritor. E como você agora é um xenofenômeno, o DIX não pode simplesmente dar um sumiço em você. Você ganhou condições de barganha. E eu posso falar com uma certeza quase divina de que você está apenas esperando os karpovitas se organizarem para atacar a base para conseguir com isso condições de negociar a sua liberação.

Brooklet continuou olhando sério e silencioso para Breen.

- É um bom plano. Sério, mesmo. - Breen se levantou da cadeira naquele momento e começou a andar pela sela esferóide enquanto palestrava confiante:

- Mas não bom o bastante. Você abriu mão dos poderes plenos da "Hamington" cedo demais e não prestou atenção o bastante em todos os atores de sua estória. Ontem mesmo seu plano muito provavelmente foi por água abaixo e você nem se deu conta disso.

- Bobagem - Retrucou o escritor.

- Será? - Ironizou a executiva daquele departamento estranho - Sabe falar russo, senhor Brooklet?

- Um pouco, graças a máquina. - respondeu.

- Ótimo. Você vai adorar ouvir que a agente Sándor simplesmente botou seu plano abaixo ao mandar Ivan Petrov ir para casa.

- Você está blefando. - Agora as palavras do escritor mostravam medo.

Breen sorriu maliciosamente e clicou num botão na tela do tablet. A voz jovial de Chaya e a inconfundível voz de Petrov começaram a soar na sala.  Brooklet foi se encurvando na mesa conforme ele percebia que a jovem havia batido todo o plano do DIX para os karpovitas e agora eles asseguravam que não iriam atacar a base.

- É tão bom ver seu sorrisinho debochado sumir dessa sua cara de bebedor de chá das cinco. - Disse ela absolutamente radiante. - Nunca gostei de britânicos. Shakespeare foi um trauma pra mim no colegial.

Brooklet olhava aparentemente perdido para o próprio reflexo na mesa.

- Você se focou de mais no cabo Souza. Ele é um homem disciplinado, acostumado a vida numa hierarquia onde respeito aos superiores é um lema e um modo de vida. Mas se esqueceu da agente Sándor, ela é um turbilhão, um bater de asas de uma borboleta no Brasil que causa um furacão na Irlanda. Foi quase, Brooklet. Foi quase. Mas não será dessa vez que você vai rever sua filha.

Brooklet levantou seus olhos furiosos para Breen ao ouvir a frase por ela proferida. Na sua mente, apenas os olhos azuis de Claire, idênticos aos seus, e as maçãs no rosto pronunciadas como a de sua falecida esposa apareciam. Se ele não estivesse algemado, ele a mataria naquele momento.

- O que foi? Não vai falar nada? Nenhuma tirada confiante? - Provocou a presidente.

- Se você estivesse tão certa de sua vitória não teria se dado ao trabalho de vir até aqui. Você não está me contando alguma coisa. E certamente isso te preocupa de algum modo.

Agora era Breen que fechava os lábios debochados.

- Não poderia esperar menos de você, senhor Brooklet. Mas isso não muda o fato de que, a não ser que Petrov cometa um erro capital, o senhor vai ficar aqui por um bom tempo. Aliás... Aproveite a estadia e seu novo nome. - E ao dizer isso, Breen virou a tela do tablet para o escritor revelando uma foto dele um número: R2-X1147.

- E quanto a Claire? Ela está bem? - Perguntou Brooklet.

- Fique tranquilo quanto a sua filha. Ela ainda está sob a tutela do Souza. Ela vai ter uma ótima vida ao lado deles. Policiais promovidos em suas patentes são bem remunerados no Brasil, e ao que tudo indica ele vai se casar com a subtenente Ahien, então, ela terá uma ótima vida e educação neste país.

Breen se sentou novamente e olhou nos olhos de Arthur.

- R2-X1147... Nunca houve ou existiu nenhum cenário em que você pudesse sair livre, leve e solto para viver a pacata vida de papai escritor que mora nos subúrbios de Newcastle upon Tyne com sua filhinha. Jamais. Ninguém olha  "A Verdade" nos olhos como nós dois olhamos e volta a viver num mundo normal.

- Que verdade? - Perguntou o escritor.

- A de que este planetinha azul, que existe nesse universo regido por leis físicas absolutamente previsíveis não passa de uma pequena bolha, como uma delicada bolha de sabão, boiando na superfície de um mar escuro e tempestuoso, onde tudo que se esconde nas infinitas trevas aquosas desse mar, existe apenas com a finalidade de estourar essa frágil bolha. E você sabe qual a única barreira que impede isso, R2-X1147?

- Não. - Ele odiava ser chamado por esse número.

- É este Departamento. No momento em que você saísse por aquela porta, coisas muito piores que Ivan Petrov iriam atrás de você. E tenho certeza de que você não quer sua adorável Claire na reta disso tudo.

Brooklet silenciou-se. Enquanto Breen empurrava a cadeira e saía da sala. "Passar bem" foi sua despedida.

[CONTO] Reunião familiar.

Esta é uma história de Celso Alencar inspirado no Cenário "Crônicas de Serra do Lago/O Sopro".  

Serra do Lago, 2007.

                                                Os olhos de Guilhermina brilham ao ver Marisa levitar uma rocha de uns trezentos quilos, com Helena sentada, há uns dois metros do chão. Usando apenas seus poderes.

— Isso é incrível! — a loura elogiava. — Falando de magia bruta, é a mais forte que eu já vi! — concluía para a irmã.

Não acredito que seus poderes se manifestaram tão tarde, olhando assim até parece a Marjoure, não. Acho que a sua essência é completamente diferente dela. — Guilhermina pensava olhando a filha.

— Ta pesada! — Marisa reclamava. — Sai de cima!

Helena saltou de cima da rocha e quando a irmã foi tentar colocar o pedregulho no chão, apenas o deixou de forma truculenta. A grama afundou um pouco, já Marisa, buscava ar para respirar.

                                      — Pode-se dizer que nossos poderes são tanto uma extensão física, como emocional. A melhor coisa que você tem a fazer é estudar, na verdade, isso serve para as duas. — avaliou a mãe.

— Espera um pouco. — Marisa pedia. — Hoje nós temos uma festa.

— Temos? — Helena indagou-se quase como se não se importasse.

— A equipe de ginástica vai comemorar a classificação para o estadual, até a Alexandra vai. Que tal a minha irmã me acompanhar?

 Guilhermina ouvindo a pergunta de Marisa sorriu e disse: — Podem ir e aproveitem a sexta, mas voltem antes da meia noite.

                          Francisco, o atual padre de Serra do Lago, incomoda-se ao ouvir o choro de um bebê no meio da noite. O homem de fé levanta-se e vai até o barulho, onde de relance, vê a nefasta criatura prestes a se alimentar.

— Agnes, é você? — o vampiro hesita depois de ouvir seu nome de batismo. — Eu estava esperando a sua volta. — comentou o padre.

— Como sabe quem eu sou? — perguntou Agnes.

— Você tem a sua cruz e eu a minha, mas essa criança é uma inocente, não precisa matá-la. — Francisco aconselhava.

 — Ela é uma descendente das famílias fundadoras, cada fibra do seu ser carrega o fardo da culpa. — Agnes rebatia deixando transparecer todo o seu ódio.

              — Ficar trancado em uma caixa, por duzentos anos só poderia te transformar nisso, mas que tal nós nos ajudarmos? — perguntou o padre, fazendo o vampiro hesitar.

— O que você poderia ter que eu queira? — Agnes rebateu com outra pergunta, quase como se confrontasse o homem de fé.

— Eu batizei todas as pessoas de Serra do Lago, então até as famílias fundadoras tem fichas aqui. Pode pegar a informação que quiser em troca de um pequeno favor. — o padre sorriu maliciosamente.

            — A filha adotiva de uma oligarca da região, me chamou muita atenção e eu gostaria de estudá-la, não me importa que esteja viva.

— E como eu vou saber quem é essa? — perguntou o vampiro, ainda com o bebê em suas mãos.

— Porque é a primeira família a quem lhe darei informações, mas saiba que ao destruí-las irá libertar uma calamidade sobre este lugar.

— Padre — chamou o vampiro. —, eu não me importo, me dê o nome da pessoa que quer que eu te traga.

O padre sorriu e disse: — Helena Costa, filha adotiva de Guilhermina e irmã de Marisa. Eu acho que nós vamos nos dar muito bem. 

Meu estilo narrativo

Ao longo dos anos, percebi que meu estilo de narrar RPG não se encaixava perfeitamente nas categorias mais comuns. Eu não sou exatamente um ...