quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Conto 6

Trailwood, BC - 17 de Setembro de 2014

Hayden conhecia bem o protocolo. Desde que tinha 7 anos ele era simultaneamente cruel e racional. Como explicar aos adultos o que ela viu? Ela viu atrás da cortina da realidade, algo se rastejou de lá. E durante anos tentaram apenas convencê-la de que ela apenas imaginou. O tempo foi passando, a dor da incompreensão começou a se tornar tão poderosa, que aos poucos Hayden de fato foi se convencendo que de fato havia sonhado aquele dia. A imagem nunca havia sumido, o que havia mudado era a narrativa.

Agora, morando a 30km de distância de Lake Ridge, ficava mais fácil fingir que nada daquilo tinha acontecido. Hayden trabalhava como médica residente na reserva Tsenkali, cuidava de crianças e idosos dos povos originários do Canadá. Naquela noite ela estava no lodge, tomando um chocolate quente, a chuva caía torrencialmente quando um raio poderoso atingiu um poste fritando o transformador e elevando uma muralha de faíscas para o alto. O lodge dela bem como todas a casas que compunham a vila central da reserva, se apagaram.

Hayden esperou a energia voltar. Não voltou. Depois esperou que alguém da tribo procurasse o gerador geral da vila. Ninguém se prontificou. O lugar continuou silencioso, como se todos dormissem, como se a escuridão em nada os incomodasse. Irritadiça, ela tomou uma lanterna. Uma capa de chuva. E decidiu cruzar a vila e uma parte do bosque até o antigo silo, onde ficava o gerador. A caminhada durou cerca de cinco minutos, passando por pedras, poças d'água, arbustos e árvores. Até que em meio a neblina o silo com suas paredes enferrujadas puderam ser vistas. Hayden caminhou até a porta do silo, e percebeu que havia ali um cadeado espesso. Praguejando contra a falta de sorte, ela olhou ao redor procurando algo para abrir a porta. Viu um pé de cabra caído perto de um trator velho. No entanto algo lhe despertou um frio na espinha. A imagem do pé-de-cabra distorceu-se suavemente nas bordas como se uma lente translúcida tivesse passado na frente dele, distorcendo e refratando a luz. No entanto, não havia lente. Ela sabia o que era aquilo. Imagens do passad invadiram sua mente. A rua, os postes em tripartição de cores... Era a névoa. Ela estava distorcendo de alguma forma não a luz mas a própria tessitura do ambiente ao redor. As mãos começaram a tremer e seus olhos incrédulos lacrimejarama ao olhar ao redor e ver que os objetos perdiam definição e contorno, a tripartição cromática deixava tudo com cara de foto velha desfocada. Mas não era foto. Era o mundo ao redor. Então em meio ao contra-luz distante da lua entre nuvens, ela viu uma sombra em baixa opacidade, enorme, sua forma variava como uma coluna de fumaça ao vento, e patas surgiam no ar antes que os membros que ligavam-nas ao corpo surgissem. E quando estas apareciam, a pata desaparecia. Era similar em algum sentido ao seu pior pesadelo. Mas pior, porque agora não podia fingir ser um sonho. A luz vermelha focalizou-a, seu peito se encheu tremulamente de ar, lágrimas caíram em horror e pânico. Ela sabia que tinha sido vista. Mas a criatura a ignorou e seguiu seu caminho até que o mundo voltou a parecer normal. Ao se recuperar de seu pânico, ela simplesmente caiu de joelhos, abraçando a própria barruga em um choro confuso e doloroso. Ela queria estar ficando louca. Agora sabia que não estava. Havia mesmo alguma coisa do outro lado.

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