quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Conto 4

 Aline arregalou os olhos fitando o pai.

- Aconteceu, algo? - A pergunta dele transparecia preocuoação, era legítimo. 

Em meio ao medo ainda palpitante em cada batida desesperada do coração, enquanto a imagem aterradora das criaturas pluriformes dentre as quais a que a percebeu, ainda estava fresca na mente, ela não deixou de conjecturar a ironia de estar a minutos atrás a um passo de pressionar o pai. E agora, estava abalada demais pra ser capaz de fazer isso.

- E-eu... Eu... Só tomei um susto com a sua chegada.

Archier franziu o cenho. Ergue uma das sombrancelhas. 

- Filha... - A voz saiu um desabafo. Ele se sentou colocando a mão no ombro direito dela.

Aline o olhava mais preocupada em se acalmar do que qualquer outra coisa.

- Eu sei que essa fase é complicada. Tem muitas coisas acontecendo com você. E que a sua mãe nem sempre é das mais fáceis.

- Fáceis? - Aline interrompeu quase que num protesto. Parte da alteração de tom era indignação. Parte ainda era seus estado emocional de pouco antes.

Archier emudeceu-se esperando pra ver se Aline continuaria a dizer.

- A mamãe é fácil, pai. O problema todo é esse. Eu não tenho nem mesmo chance de ter um problema com ela. O sonho que te contei outro dia...

A expressão de tensão no rosto do pai se intensificou.

- Não era só um sonho pai... Aquilo era real. Real como onde a gente está agora. E a mamãe, ela sabe que é real, não finge que é um delírio meu... Mas ela não me diz nada... E age como se tudo estivesse normal...

Archier ficou cabisbaixo tirando a mão do ombro da filha.

- Gente normal, pai... - Aline continuou - não passa pelas coisas que eu passo.

- Eu sei. Mas filha... - Aline o interrompeu.

- O que há de errado comigo, papai? Por que eu tenho que ver as coisas que vejo? Por que eu sou essa aberração?

- Você não é uma aberração! Entende? Você não é uma aberração! O problema não é você! Nunca foi. Nem mesmo há um problema! - Ele dessa vez tomou a palavra, a voz saiu desesperada, um semi-grito.

- Então... Pai... Por que? O que é isso tudo? Não me diga que não é real, que é só a minha cabeça, porque você sabe que não é!

- É real! É real! - Archier confirmou.

Aline arregalou os olhos. Ouvir dos lábios do pai foi mais aterrorizante do que reconfortante. Ela se encostou quase em desistência no encosto da cadeira. Olhou pro rádio, sussurrando pra si "real, é real"... Por um segundo pensou ouvir a própria voz através do rádio. Sua atenção foi de novo roubada pela figura paterna.

- Eu fiz uma promessa a sua mãe. Não posso te contar. Mas por designio, você é muito inteligente. E está descobrindo muita coisa sozinha. Mas posso te dizer onde fica mais fácil descobrir a verdade.

Aline voltou a se aprumar, inclinando-se na direção do pai, interessada.

- No escritório da sua mãe. Estante H, prateleira 3, livro 12. Leia de noite quando ela for à reunião. Eu não estarei em casa, mas vou estar no telefone a qualquer momento. Você vai começar a descobrir coisas a partir de agora. E eu estarei ao seu lado pra segurar sua mão no processo. Em algum momento, você saberá tanto que sua mãe não te poderar mais esconder nada.

- Por que fez essa promessa? Por que é tão grave?

- Eu apenas fiz. E eu a amo tanto. Não posso violar meu voto. Mas posso te dar as ferramentas pra que você a confronte quando estiver pronta.

Aline não entendia. Talvez nem o próprio Archier entendesse. Mas ela já tinha mais naquela conversa do que nas interações com a mãe. Já era algo. E seu pai era o seu "ursão", seu protetor. Ela daria a ele um voto de confiança.

- Quer um café? - Ele sorriu, já se levantando e se encaminhando pra cafeteira.

Um pânico infantil se apossou de Aline.

- Er... Pai... Er... não!

No entanto, pra surpresa dela, ele parece ter agido apenas de forma estranha. Estranha de uma forma diferente da esperada. Archier olhou a cafeteira, a principio pareceu ter notado algo diferente do esperado, mas na sequência fez o café e a entregou num copo enquanto colocava outra capsula.

- O que foi, pai? - Aline perguntou.

- Não sei... Tive uma sensação de estranheza, alguma coisa com a cafeteira, mas eu não sei dizer exatamente o quê. Seja como for, fiz um arábica filtrado pra gente.

Aline tomou o copo fumegante, olhou pro rádio, ela quase ouviu um sibilo vindo dele. Ou teria de fato ouvido? Não importava. Mas Aline teve uma intuição do poder daquele objeto. Ele não era perfeito. Mas ele era de algum modo retrocausal. Ele reescrevia o passado, mas não apagava totalmente a realidade primária, daí a estanheza do pai. É claro, era uma hipótese, carecia de mais experienciação. Contudo, a evidência que ela observou era poderosa. O pai agiu como se a cafeteira sempre fosse o modelo mais caro e vermelho ao invés da antiga, preta. Mas ela? Aline se lembrava das verdade, ela mudou a cafeteira. Será que o rádio afetaria a mãe também? O fascínio pelo objeto foi tão grandioso quanto o o temor por ele. "A vinculada"... "A escolhida"... Palavras que ressoaram em sua mente. Um objeto com esse poder era uma responsabilidade grande demais, e embora quisesse entender mais como ele funcionava, e por que, mais amedrontada do que poderia fazer ela tinha.

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Conto 4

 Aline arregalou os olhos fitando o pai. - Aconteceu, algo? - A pergunta dele transparecia preocuoação, era legítimo.  Em meio ao medo ainda...