segunda-feira, 13 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - O Sacrifício do novo Arconte: História dentro da História

Serra do Lago, ES - 3:00 da manhã


Monty e Mari finalmente atravessaram o bosque do Colégio, desceram a ribanceira arborizada até cruzar o canal dos eucaliptos, um córrego cuja água bate nas coxas, subiram novamente a ribanceira até o guardrail, e saltando por ele, chegaram ao posto de gasolina. Mari congelou ao ver o cadáver de um cinzento morto, ele parecia ter tido a cabeça explodida por algo. Havia um cadáver humano ainda, o do frentista, e marcas de sangue respingado por todos os lados.

Monty respirou fundo, suas esteriotipias atacando conforme ele recitava os valores das constantes fundamentais do universo. Mari gemia de medo, mas ainda assim seguiram, cruzaram a rodovia, uma fina parede de eucaliptos à margem da rodovia, e logo chegaram a um pasto úmido, longo pasto pelo qual caminharam marchando até a antiga linha férrea. Ali novamente viram uma cena aterradora, o que deixou Monty - que carregava a Hamington na mochila -  ainda mais nervoso, agora ele apertava a alça da mochila nervosamente, as mãos suadas, diante do cadáver de um policial que tivera a traquéia arrancada a dentadas.

— Monty... Esse acampamento... A viatura parada mais adiante... Estamos indo pra lugar perigoso... Veja a fumaça! — A voz de Mari tremia.

Monty sabia que era perigoso... Mas era o caminho pro único lugar seguro próximo fora a casa dele que ficava muito mais longe. Ele nada respondeu, apenas recurvou a cabeça pra baixo, sussurrando equações e seguiu.

— Monty! Tem que ter outro caminho! — Mari protestou.

— Não tem. - O novo arconte respondeu de bate-pronto. Terminal.

— Tudo bem, eu vou confiar em você... - Mari falando esfregando os braços... Em dado momento, porém, Mari simplesmente começou a correr. Ela se deu conta do que havia acontecido.

— Meu Deus! Papai! Mamãe! Meu Irmãozinho!

Ela passou a frente de Monty que continuou marchando a velocidade regular, constante como C na equação da relatividade geral. Mari ao deparar-se com sua casa em ruínas consumida pelas chamas, que ainda deixavam marcas laranjas e rubras de calor na noite, ela caiu de joelhos em lágrimas!

— NÃO! PAPAI! - O choro dela era doloroso.

Monty não sabia o que fazer. Ele ficou de pé. Olhar perdido. O máximo que fez, dentro de suas limitações, foi se aproximar e colocar a mão no ombro dela. Eles ficaram ali longos minutos, quase meia hora, enquanto Mari chorava copiosamente. A mão de Monty ainda no ombro dela, era uma forma tímida, atrapalhada quase não-empática, do savante mostrar sua empatia, mesmo com a barreira de seu autismo.

Um som interrompeu os soluços...

— OUÇO VOZESSS HUMANASSS

Vinha do sul.

— Mari... - Monty falou - Não temos tempo.

— Eu quero morrer... - Ela soluçava ainda.

— Eles fugiram... - Monty falou com voz pausada — O arconte garantiu a fuga.

Mari sem entender, se agarrou àquele fio de esperança com vacilo.

— Não está falando isso pra me agradar, né?

Monty continuou olhando para o horizonte sul. Os galhos já se remexiam.

— SINTO O CHEIRO, SÃO DOIIIS... VAMOS ENCURRALÁ-LOS!

Mari ouviu, ficou preocupada... Olhou pra Monty com seu olhar frio, sempre distante, sempre impessoal. 

— Não faz seu estilo, né? - Ela se ergueu preocupada - Vamos! - E logo pôs-se a andar secando as lágrimas.

Monty e ela apertaram o passo, de forma tal que passaram pela casa em ruínas com Mari fechando os olhos com medo de ver algum cadáver quando passava por onde ficavam os cômodos onde seus entes queridos mais costumavam ficar. A voz dos ghouls ainda se ouvia.

— PERDEMOS O RASTROOO... AS CINZAS E O CHEIRO DE QUEIMADOOO OCUPAM O AR TOO!

Eles seguiram mais alguns minutos até que chegaram a propriedades dos Penzias-Costa... Ramona derramava sal ao redor do lugar com um saco enorme que Imogen ajudava a segurar. Uma vela era acendida no meio, perto da porta, quando ambos se apresentaram à vista deles como sombras a contra-luz na chuva.

— Serão ghouls? - Indagou Lorraine apontando a arma.

— ABAIXA ESSA CARALHA! - Nanna deu um tapa para baixo no cano da arma, fazendo o dedo deslizar e disparar no chão. O som deixou Monty assustado e irritado, ele deu meia-volta e começou a andar em semi-círculos.

— NÃO ATIRA! - Gritou Mari! — Sou eu, Mari... E aqui está o Monty!

Nanna olhou pra Lorraine com desaprovação e saiu correndo ao encontro deles.

Mari tentava nesse entretempo convencer Monty a entrar.

— Vamos Monty! Só estão com medo, como a gente!

Quatro elevado a vinte cinco, sobre trinta e três elevado a menos quarenta e dois, mais ou menos, raiz de beta. - A voz e Monty soava trêmula.

— Monty! Vamos, aqui é perigoso! - Falou Mari mais uma vez, sem retorno de Monty. Nesse momento, Nanna chegou.

— Deixa comigo! Entra na casa. Agora!

Mari aceitou a ordem como se viesse de uma autoridade.

Nanna abraçou Monty e sussurrou em seu ouvido.

— Sou eu Monty... Nanna, lembra? A gente adorava conversar sobre feitiços e os reinos do ser...

Dezessete sobre zero vírgula trinta e dois dividido por gama sobre dez a... - Monty vacilou a voz - dez a...

Nanna percebeu e insistiu.

— Você me apresentou o hipermandelbulbo, lembra? - Ela ergueu a mão virada de costas — A tatuagem que me deu.

— Nanna... - Monty a abraçou. — Não posso entrar... Eu tenho que... Lutar por eles.

Nanna não entendeu.

— Lutar? Por quem Monty?

— Pelos agentes... Tudo depende deles. - Ele falou, e percebeu que Nanna não entendia, mas não havia tempo pra explicar.

— Deixarei uma porta-voz ele disse.

— Monty... É perigoso... Que tipo de ameaça acha que poderá conter? Se assustando assim e entrando em crise com o disparo de uma arma?

— Marjourie. - Ela falou, e com ele, o assombro tomou conta da voz e do rosto de Nanna.

— Marj... Está viva?

Monty respondeu com um aceno na cabeça... A surpresa foi tamanha que Nanna se afastou pelo susto. Monty começou a se afastar.

— Monty... Onde vai? - A voz era de Mari mais distante perto de Ramona e de seus pais que estavam ao lado dela e saíram ao encontro dela.

— Proteja-os. - Monty falou e saiu correndo rumo a leste. Nanna sem entender sentiu que havia algo estranho em Monty... era como garoto que lhe deu a tatuagem àquele dia... De alguma forma, ela confiou.

Monty caminhou em direção à região da antiga propriedade dos De Rollo, longínqua, quase no forte, correu e depois caminhou por quase 40 minutos, até encontrar um chalé abandonada, parte de um antigo hotel fazenda que abriu nos anos 50 e encerrou as atividades nos anos 80. Pôs a Hamington sobre o balcão e pôs-se a digitar furiosamente. A luz azul iluminava o rosto dele conforme as teclas eram apertadas.

"Marjourie, como uma succubus, havia alcançado a primeira etapa de sua conversão em lich, precisava agora criar os depositários de logos. Monty sabia o que ela faria... Um dos logos que a mim vieram pertence a minha discípula maior! - A succubus exclamou como um trovão... Volte, o três de espadas, a carta dada a menor de vós!". As teclas clicavam e cintilavam liberando fagulhas de energia mágica no ar. Cada fagulha tocava o balcão e reverberava em todas as direções como ondulações metafísicas alterando o tecido da realidade.

"Monty, por fim escolheu, se o Arconte da Máquina de Escreveu sacrificou-se para que ele salvasse tudo, era porque o sacrifício era parte do cargo, era parte do trono de solidão. O conto que se desvela é um conto de terror" - Monty parou. Processou. Voltou a escrever.

"O terror tem dois mecanismos clássicos, o sacrifício do herói e a retribuição, que serve de gancho a continuação da história. Não podendo sacrificar mais os agentes, Monty compreendeu que era preciso lutar por eles, então escolheu ser o herói, sacrificando a si mesmo, e a retribuição é a mergulhadora, Catarina, trazendo-a como expressão do logos que lhe havia sido confiado pelo Arconte, para que fizesse o que bem lhe aprouvesse, e assim o vínculo de Monty e Catarina foi selado e mantido. Trazida do fundo do lago, uma fagulha de sua própria história... E com o poder da Hamington, Monty evocou então, o seu sacrifício trancafiando-se com a succubus no mundo devastado pelas LERs, antes que seu logos se aprisionasse em depositários, e mediante um raio foram juntos ao plano onde as LERs drenaram a ruach, os recursos e a própria humanidade".

Um raio devastou a cabana, um raio lambeu o céu arrastando consigo um demônio alado.

A succubus se viu num mundo drenado de ruach.

— Quem é você, pequeno mortal!? Como ousa?

Monty nervosamente recuou, olhando pra baixo, o corpo era o de Marcela, dois furos no pescoço, a pele cinza, olhos amarelos, chifres, azas, o olhar era o de Marjourie.

— Eu não sinto a realidade! —  Marjourie sibilou e esmurrou uma parede percebendo que estava preso num mundo totalmente drenado de ruach.

Monty tomou coragem, assentou-se com seu logos no trono da solidão pela primeira vez.

— Você não sairá daqui. Somente alguém de fora, usando a Hamington, poderá tirar.

— Hamington? —  Marjourie olhou preocupada. — A lendária máquina de Andrew B. Hamington que reproduziu os poderes da Pena de Amenófis?

A succubus se aproximou e menosprezou.

— Não é possível que um feiticeiro do seu tamanho seja capaz de fazê-la.

—  Não sou feiticeiro. Nunca usei magia —  Monty agora falava com autoridade, mesmo que seu autismo ainda fosse perceptível nas mãos se apertando contra a calça 

— Quem você pens que é, então, seu "de fora?" —  A voz dela era como um trovão. — Sabe que eu posso matá-lo, mesmo sem meus poderes arcanos... Tenho um força sobrehumana agora!

—  Eu sou o Arconte da Máquina de Escrever. —  Ao ouvir essas palavras Marjourie estremeceu e se deu conta de sua insignificância, — Mesmo sem a Hamington eu e ela somos um, e se eu morrer... — A voz do autista era cada vez menos autista.

—Ninguém nos tirará daqui... — A succubus completou e recuou um passo.

Monty se aproximou, Marjourie recuou outro passo.

— Por que? — Marjourie indagou.

— Pela Marcela... Ela não merece isso. — Não havia sombra mais do garoto autista em Monty. Agora ele estava, de fato, assentado no trono da solidão.

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