Catarina acordou numa sala branca.
Sua respiração falhou — pânico.
— Esse pesadelo de novo...
Ela se levantou. A roupa de borracha estava úmida, colando no corpo. No chão, um snorkel.
— Não pode ser!
Seu cérebro se recusava a crer. Ela estava, de novo, em um dos momentos mais traumáticos de sua vida.
E, aparentemente, sozinha.
Não havia o escritor. O homem místico a quem beijara de impulso.
Desesperadoramente sozinha.
Ninguém para devolvê-la ao mundo.
Suas memórias estavam fragmentadas. Lembrava-se de sair de Serra do Lago e então... vazio.
Ali estava ela de novo.
— SOCORRO!
A voz saiu abafada, como se ainda estivesse no fundo do lago.
O desespero aumentou.
Então, uma luz azul — fraca, etérea — apareceu atrás dela, capturada pelo canto dos olhos.
Ela se virou.
Um roupão de linho vinho. Uma mesa de madeira. Uma máquina de escrever. Instrumentos científicos. Uma lousa repleta de equações que ela sequer entendia.
Mas algo estava errado.
Atrás da mesa não havia um homem de meia-idade.
E sim um jovem.
De dezoito anos, no máximo.
Dessa vez, por mais emocionada que estivesse, não o beijaria.
Vai que...
— Eu... — a voz falhou. — Eu imaginei que seria o Escritor.
Sua voz saiu normal. Como se a presença do garoto resolvesse, por si só, a acústica do lugar.
— Eu sou. — ele respondeu.
— Não é. — retrucou Catarina. — Ele era... mais...
— Mais velho? — interpelou o Arconte. — Somos a mesma pessoa. Tempos diferentes da mesma vida. Outras possibilidades.
Catarina percebeu: a imagem dele apresentava inconstâncias, como um glitch de computador.
— Não tenho muito tempo. Todo meu logos, nativo e herdado, foi distribuído. — ele disse. — Onde estou, o tempo passa diferente. Não permanecerei em sonho por tempo relevante.
— Então é um sonho? — ela perguntou.
— Sim. É o oniron. — respondeu. — Uma dimensão de sonhos onde todas as versões de nós mesmos se encontram.
Catarina ficou em silêncio. Aquilo era grande demais.
— O mundo para onde você tinha escapado colapsou. — ele explicou, a imagem tremendo mais. — Eu te salvei.
— Salvou os outros? — ela indagou.
— Não pude. Minha situação atual não permite.
Ela ficou chocada.
Doug. Jo. Até a irritante Serena.
Mortos?
A imagem do garoto vacilou ainda mais.
— Por que eu? — perguntou.
— Confio em você.
— O que tenho que fazer para voltar para casa?
— Salvar o meu mundo. Seja minha porta-voz. Te devolverei ao seu. — a voz e a imagem falhavam. — Você terá sonhos como esses... mostrarei coisas... Estou saindo de sonho REM... Receba.
A mente de Catarina foi inundada.
Uma parede.
Quatro encaixes.
Um sol.
Uma lua.
Números.
A vista da máquina de escrever — mais brilhante, mais reluzente do que a que estava à sua frente.
— O que foi isso...? — ela gemeu, levando a mão à cabeça.
— A chave de volta pra casa... minha. Sua. Um... final... feliz...
A imagem sumiu.
Tudo sumiu.
Água.
Frio.
Pânico.
Ela abriu os olhos.
Um homem forte, de tez negra, com roupa preta rasgada e suja de sangue, a erguia pelos braços.
Os seus próprios braços estavam presos.
Ela sentia.
— É pra nossa segurança. — ele disse.

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