2 de Agosto de 2009.
Catarina estava afundando mais uma vez no lago. Seu mergulho seguia ansioso. Ela tinha que pegar o prisma. Era a única forma de selar a feiticeira com máscara de criança.
Em algum ponto, porém, as águas cristalinas, repletas de calcário, tornam-se, de súbito, escuras. Negras como a noite. Como se alguém tivesse apertado um interruptor e apagado as luzes.
O ar falta.
Pânico.
O ar volta. Alívio. Apenas o susto.
Um medo que não vai embora.
"De novo não." — A voz na mente de Catarina trazia de volta a apreensão de como se ela, de alguma forma, já tivesse vivido aquilo antes, mas, por alguma razão, não conseguisse se lembrar.
Luz.
Uma luz branca. Pálida. Um brilho no meio da escuridão eterna.
Catarina nada até lá. É isso ou a eternidade no escuro. Até o ar acabar.
Ela sente, mais uma vez, como se golfinhasse no mesmo lago pela enésima vez, mas não consegue se lembrar...
Suas memórias são um borrão.
Uma ansiedade.
A luz ganha forma.
Um prisma, segurado por um par de mãos pequenas. O rosto não pode ser visto.
"Desculpa" — ela pensa. — "Preciso dessa luz".
Catarina toca o prisma.
Um salpicar gelado toma conta de seu corpo. Um calafrio.
Ela puxa.
A mão resiste.
Inércia do frio?
Ela insiste mais uma vez.
O prisma solta.
Ela respira fundo.
Uma sensação ruim.
Por um segundo, ela se sente como se fosse ser vítima de um jumpscare de filme de terror B. Uma coisa extremamente brega.
Ela se vira, preparando-se para subir.
Mas algo se enlaça em seus pés.
Ela tenta uma golfinhada, emergir. O que quer que seja é forte e se desloca. Prende seu tornozelo. Suas coxas.
Ela olha.
Nada.
É como se mãos invisíveis — ou feitas das trevas do lago — a prendessem.
Ela aponta o prisma luminoso.
Nada.
Catarina sente o coração disparar.
O ar começa a faltar.
Medo.
Ela se vira novamente para cima. Vai tentar a golfinhada mais forte de sua vida.
Mas o horror toma conta de si.
Um esqueleto pequeno, com luzes amarelas saltando pelas órbitas, está de cara com ela.
Ela grita.
O ar escapa.
As mãos ósseas do esqueleto removem seu snorkel e...
A água começa a entrar na máscara.
Pânico.
Ela puxa o ar.
Água.
Horror.
Pânico.
Luz.
Subitamente, chão branco.
Catarina sente seu corpo úmido, trêmulo de frio e de medo no chão.
Sua voz é um choro.
"De novo, não. Por quê?"
Uma voz em inglês, que lhe desperta o horror profundo, ressoa:
You're merely a fragment of a play of a play of a play, no more than a copy of a copy, of a copy.
Ela fecha os olhos, tentando acordar.
Abre os olhos.
Escuro.
"Não. O lago de novo não!"
— O choro de Catarina ressoa naturalmente como num espaço seco e oco. Um murmúrio. Seu próprio ganido lamentoso.
Ela se dá conta, então, de que não está no lago.
Está no seco.
Madeira podre ao redor. Cheiro necrótico. Varejeiras.
Ela, sentada, se arrasta para trás.
Até que sente uma mão fria.
— Você me encontrou...
O olhar de Catarina converte-se em horror.
Um jovem de tez amendoada, mas pálida, com uma estaca no peito, no escuro...
Ela se levanta atabalhoada. Cata-cavaco. Sai correndo no escuro.
Por fim, pisa em falso.
Escorrega num tobogã de lama.
Sua voz é grito.
É choro.
É horror.
Por fim, cai diante de uma luz pálida.
Ela não quer olhar.
Olha.
— Es...tou... aqui.
O deus adolescente.
O Escritor.
Seus cabelos estavam maiores, como se não visse um barbeiro há tempos, mas o rosto jovem não escondia a idade.
Ele segura as mãos dela, sujas de terra, entre as suas.
— Não vou te... abandonar...
Agora ela se lembra.
Como se as mãos quentes dele desbloqueassem uma memória primitiva.
— O velho Arconte... Ele... amava você.
Catarina sentia paz.
Pela primeira vez.
— Quando... Ele... se partiu...
— A voz do garoto era um glitch. Sua imagem se distorcia e falhava como um bug de renderização.
— Uma parte dele passou a habitar... em... mim...
— Então, você é ele mesmo? — Catarina indagou, ainda sem ter certeza de se realmente queria saber.
— Sim... de... uma forma... mais profunda do que só ser... a mesma pessoa... em momentos distintos... da vida.
— Como?
— Uma parte do logos dele... agora está em mim... as memórias dele... as minhas... mas uma parte dele... ainda está viva... fora de mim... agora eu sei...
— Como chego até ela? — A voz dela agora carregava sentimentos.
— Eu te... mostro.
As luzes se apagam.
O medo volta.
O corpo de Catarina oscila entre estrelas — ou algo que se parece muito com elas.
Ela vê o sol. A lua. Cinco planetas entre eles.
"Cosmologia"...
A palavra ressoa.
Então, uma pedra.
Maciça.
Encaixes cúbicos. Cinco encaixes.
Um desenho do sol. Um desenho da lua.
Uma flecha.
"1, 2, 3, 4, 5".
A voz ressoa.
A máquina de escrever.
Atrás da pedra maciça.
Dez cubos.
Pares de símbolos idênticos.
Uma mão pega dois deles.
Uma mulher idosa, jovem, deprimida, de óculos escuros.
A mulher de cabelo roxo...
Maisie...
Pega uma pedra.
A ilha no meio do lago...
Uma casa com símbolos.
O escritor jovem reaparece.
A voz mais frágil do que nunca.
A aparência mais corrompida.
— Vou acordar do meu sono REM... tempo... diferente...
— Eu não entendi! O que devo fazer?
— Não posso dizer... podem ler sua mente... terá de descobrir...
— Moleque irritante! — Catarina esbraveja de raiva, deixando Monty decepcionado! — Como assim? Ai, que ódio!
— Vai entender... você é inteligente... só confie que eu estou com você...
Tudo se apaga.
Tudo se ilumina.
Catarina se ergue da cama, suada...
Respiração pesada.
A luz do sol vence as nuvens pesadas no céu matinal.
Ela está na casa de Maisie.
Uma vista incrível para o lago.
Por incrível que pareça, ela não sente raiva do escritor jovem...
Só sente que não o entende...
Mas que precisa desesperadamente entender.

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