— Quem é que teve a brilhante ideia de acampar à margem da linha férrea abandonada com previsão de chuva, mesmo? — ironizava Lorraine.
— Foi o Renato. — Imogen apontava com indiferença, enquanto torcia os próprios cabelos loiros.
— Achei que seria divertido... — Renato, com a camisa molhada, ficava ainda mais engraçado, já que ostentava uma barriga notória. — Além do mais, Lorraine... você é quem curte essas paradas... Achei que a Imogen ia reclamar muito mais...
— Ah, seu gordo barriga de bosta... — Lorraine se irritava. — Acha que eu não sei por que você insistiu tanto nesse acampamento idiota, né? Espera só que eu falo em voz alta.
— Coé? Vai jogar baixo assim? — Renato reclamou, visivelmente amedrontado.
Imogen pareceu não perceber...
— Tá tudo bem, gente... Se não fosse esse programa maluco, provavelmente eu estaria em casa sem fazer nada mesmo.
— Tá vendo? — Renato apontou. — A Imogen não tá achando ruim.
Lorraine ajeitou a mecha verde molhada sobre seus inúmeros piercings.
— Dessa vez eu vou deixar passar.
— Você não é normalmente tão nervosa assim, Lorraine. Pelo menos não com a Ramona.
— É que pelo menos a Ramona eu conheço bem... sem querer ofender. Eu imaginei que você fosse o tipo dondoca. Porque você é... — Lorraine procurou as palavras.
— Loira, da família Montgomery-Brooklet? Recém-emigrada da Inglaterra? — Imogen ironizou, em seu português quase sem sotaque.
— É... tipo isso. — Lorraine respondeu.
— Se me permite o elogio — interpelou Renato —, vocês são mais legais que a Ramona, que chama tudo de fascismo ou machismo... ou os dois.
Imogen pareceu ficar curiosa.
— Essa Ramona... qual é a dela? Ela estuda no mesmo Colégio que eu, mas preferiu me apresentar à vocês da escola pública.
— Ela é da única das famílias que bem acessível em geral, diferente dos outros mauricinhos.
— Diferente daquele mongoloide do teu primo — Renato pontuou.
— Quem? — Imogen se fez de desentendida. — O Monty?
— É. — Ele respondeu, rindo.
Irritada, Lorraine bateu palmas.
— Isso, Renato. Você ganha muitos pontos com ela esculachando o primo dela.
— Foi mal... — ele se emendou, percebendo a idiotice que fez.
— Tá tudo bem. Eu mal o conheço. — falou Imogen. — Mas não faça isso de novo. Ele não tem culpa de ser assim.
Renato chegou a um ponto com dois eucaliptos mais frondosos e falou:
— É aqui. Lugar perfeito pra acampar.
— Que se foda. — A voz de Lorraine saiu como um bufo de frustração.
Imogen deu de ombros.
Renato começou a montar o acampamento. Abriu a barraca com facilidade e então decidiu iniciar a fogueira — e foi aí que deu problema.
— Madeira muito úmida... — ele cochichou mais para si do que para as meninas.
— Claro, porque um gênio ignorou a previsão do tempo! — Lorraine bufou. — Espera, acho que eu trouxe álcool.
— Quem traz álcool pra um acampamento? — Imogen indagou. — É o meu primeiro acampamento... afinal, sei nem do que estou falando. — Se emendou.
— Quem disse que é álcool etílico? — Lorraine sacou absinto da bolsa. — É álcool de curtir.
— Pinguça... — murmurou Renato.
— Até parece que você não bebe. — Ela ironizou.
Imogen riu.
— Mas tem álcool o bastante aí pra acender?
— 65% de álcool. — Ela sacudiu a garrafa.
— Bem, eu vou procurar lenha seca. — falou Renato. — Talvez tenha no posto velho. — Ele apontou para a ES-481.
Ambas ficaram em silêncio, olhando a luz alaranjada do colégio além da neblina, na colina cheia de eucaliptos, além do posto, da rodovia e do córrego.
— Se importaria de vir comigo, Imogen? — perguntou Renato.
— Não. — ela respondeu, meio aérea, ainda achando a paisagem familiar e um tanto etérea.
— É sério? Não tem como ficar mais na cara? — A voz de Lorraine saiu carregada de ironia.
— Qual é a tua, Lorraine? Tá bem? — Renato indagou, insatisfeito.
Imogen se adiantou, caminhando na escuridão.
— Nada... vai lá... Só tenta não estragar tudo com sua musa dos peitão. — Lorraine falou com desdém, tirando proveito do afastamento da gringa.
— Coé?!
— Ah, o que ela tem demais, Renato? Vai me dizer que é só por causa dos peitos grandes?
Renato ficou em silêncio.
— Eu não acredito nisso... É só por isso. Eu não sei por que eu espero muito mais dos homens... — ela arfou com indignação.
— Eu vou indo... não posso deixar a Imogen na escuridão.
Ele se afastou rapidamente para acompanhá-la.
— Até parece que essa cheerleader vai olhar pra um pançudinho como você do jeito que você merece... — a voz de Lorraine soou para si mesma como um desabafo, com Renato e Imogen já longe.
Ambos caminhavam pela pastagem ao redor do trilho, em silêncio, com Renato tentando pensar em algo para puxar conversa. Imogen esfregava os braços pelo frio e pela umidade.
— Aceita um casaco? — ofereceu Renato.
— Não. Tô de boa. — Ela respondeu, desinteressada.
— Desculpa te trazer pra cá... A ideia era enturmar você. Devia ter ouvido a Lorraine.
— Tá de boa. E não é a primeira vez que tentam ficar a sós comigo porque estão interessados em mim.
Renato ficou vermelho.
— Eu... não... sa-sabia... que...
— Tranquilo. Não tô interessada, mas eu não tinha amigos em Malmesbury... então vir pra cá foi uma forma de tentar recomeçar... E vocês são legais.
— Uau... tomei um fora sem nem chegar a dar uma cantada... Acho que essa é a humilhação definitiva... — ele suspirou, aborrecido.
Imogen riu.
— Você é engraçado. Devia olhar mais pra Lorraine. Ela claramente gosta de você.
— A Lorraine? Aquela punk maluca? Coé... — Renato sorriu, achando que era brincadeira. Mas logo percebeu que Imogen falava sério. — Espera... você acha mesmo?
— Sim. O jeito que ela fica irritadiça e abrasiva quando eu tô perto... é inegável.
— Uau... eu nunca notei... ma-mas eu gosto de você, Imogen.
Imogen riu de novo.
— Você me conhece há 36 horas... não tem como gostar de mim. Você gostou dos meus peitos. E tá tudo bem. Sério.
— Caralho... eu não fazia ideia de que eu era tão transparente... sério.
— É... muito. Não é um “não” definitivo. É só que eu não me envolvo de cara com ninguém sem conhecer... a não ser que eu encha a cara de absinto. — Ela ironizou.
Ele riu.
— Então eu acho que vou achar as lenhas mais secas que puder achar... — ele riu — assim economiza bebida.
Imogen balançou a cabeça, achando graça.
— Eu... — Renato ia dizer algo quando Imogen interrompeu:
— Espera... ouviu isso?
Renato assentiu negativamente. Eles já estavam na entrada do posto. Ele estava fechado — ou melhor, abandonado de forma lenta, como tudo ali. O lugar parecia suspenso no tempo: placas apagadas, vidro embaçado por dentro, uma luz âmbar pulsando fraca em um dos postes. O cheiro era estranho — uma mistura de combustível velho, ferrugem e algo orgânico demais para ser ignorado.
— Não deve ser nada... — Renato falou, tentando soar confiante, mais para si do que para ela. — ...E parece ter umas toras de eucalipto ali perto daquele caminhão. Parecem secas.
Imogen hesitou por um instante. O som que ouvira — se é que ouvira — ainda ecoava na cabeça dela, como uma memória que se recusa a se formar por completo. Mesmo assim, seguiu.
O cascalho estalava sob os pés. Cada passo parecia alto demais.
Ao chegarem perto da van, o ar ficou mais pesado. Não era só cheiro — era densidade. Como se o espaço ali estivesse saturado de algo invisível.
— Estão secas... maravilha! — exclamou Renato, forçando entusiasmo. — A única coisa ruim é esse cheiro de metano...
Imogen não respondeu. Seus olhos estavam fixos no chão.
— Aquilo é... sangue? — sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.
Renato olhou.
— Segura que eu vou dar uma olhada. — Renato ainda não havia desistido, na cabeça dele, ia demonstrar seu valor pela coragem, mesmo estando certo de que provavelmente não era nada. Desde as mortes de 2004, quando ainda era criança pré-puber, nada acontecia na cidade. Era pacata e tranquila. — Não deve ser... - Ele falou confiante. — ... Nada. — A voz na última palavra saiu tensa.
Era um impulso burro. Mas hormônios, não é?
Ele deu um passo.
Depois outro.
— Renato? — Imogen chamou.
Ele não respondeu.
Seus olhos estavam presos na escuridão sob a van.
Algo se moveu.
Não como um animal, mas como uma coisa entre um e outro.
Então veio o som.
Um grunhido úmido, profundo — como carne sendo puxada.
E antes que qualquer pensamento se completasse—
O impacto.
Um vulto cinza explodiu da sombra, rasgando o espaço entre um segundo e outro. Não houve transição — só presença.
— COMIIIDAAAAA!
A criatura caiu sobre Renato com um peso brutal. O ar foi arrancado dos pulmões dele. As unhas — longas, irregulares — cravaram na pele como ganchos.
O primeiro grito saiu automático.
O segundo já veio carregado de dor.
O som da carne sendo rasgada não era alto — era íntimo. Próximo demais.
Quente.
O sangue espirrou em arco, pegando a luz âmbar e transformando-a em algo grotescamente bonito por um segundo antes de cair.
Imogen congelou.
Seu corpo travou.
O mundo se estreitou ao ponto de caber apenas naquilo: Renato no chão, a coisa sobre ele, o som — o som — o som— Ela virou. Correu.
Dois passos.
Parou.
Algo quebrou dentro dela.
Não lógica. Não coragem.
Algo mais antigo.
Ela olhou para trás.
E viu.
Viu o momento exato em que os dentes da criatura afundaram no antebraço de Renato — profundos, serrilhados, puxando — não apenas carne, mas algo mais. Um pedaço dele.
Renato gritou de um jeito que não parecia humano.
Imogen voltou.
Não pensou.
Correu direto.
As toras caíram — três delas — rolando no cascalho.
Ela ergueu a última.
Golpeou.
O impacto seco reverberou pelo braço dela. Um som oco — como madeira contra algo duro demais para ser apenas osso. A criatura caiu para o lado.
Mas não parou.
Ela se mexia. Lenta. Um grunhido ou gemido, não era possível dizer.
Renato tentou levantar.
"NÃO ME IMPEDIRÃO" A voz saiu da criatura.
Cambaleou.
O braço esquerdo... estava errado. Aberto. Incompleto. A pele rasgada revelava algo que não deveria ver a luz.
Os olhos dele estavam arregalados, mas não focavam.
Imogen o empurrou.
— Corre!
A palavra saiu com urgência, mas distante — como se viesse de fora do corpo dela.
A criatura se ergueu de novo.
Rápida.
Rápida demais.
Avançou.
O impacto agora foi em Imogen.
Os dentes entraram na lateral da barriga com uma precisão brutal. Não foi um rasgo — foi uma penetração.
A dor não veio de imediato.
Veio como atraso.
Um segundo vazio.
E então—
Explosão.
Um calor absurdo se espalhou pelo corpo dela. O ar desapareceu. O mundo girou.
— OBRIGADA, MESTRAAA... — a criatura gemia, a voz vibrando de um jeito impossível.
Ela puxou.
Imogen sentiu.
Sentiu o próprio corpo cedendo.
Sentiu algo sendo arrancado de dentro.
Mas a criatura não terminou.
Um tranco.
Renato.
Ele a agarrou por trás, braços tremendo, sangue escorrendo, mas firme o suficiente para travar a coisa.
— CORRE, IMOGEN! EU SEGURO!
A voz dele estava quebrada.
Mas estava lá.
Imogen caiu de joelhos.
O som estava abafado.
O mundo parecia distante.
Mas ela viu.
Viu Renato segurando.
Viu a criatura lutando.
Viu o próprio sangue.
Algo dentro dela decidiu.
Ela levantou.
Pegou a tora.
Bateu.
Com tudo.
Sem técnica.
Sem hesitação.
A madeira encontrou a cabeça da criatura.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até parar de contar.
A coisa caiu.
Dessa vez, não se moveu.
Renato soltou.
Respirou.
Ou tentou.
Imogen deu um passo.
Dois.
E o corpo desligou.
Ela caiu.
Renato a segurou por reflexo.
Mas o corpo dele também estava acabando.
A pressão caiu. A visão escureceu.
Eles desabaram juntos no chão frio do posto.
Silêncio.
Por um instante.
Então, um movimento.
Lento.
A criatura ainda se mexia, o sangue — agora roxo — escorria pelas têmporas dela.
Ela se levantou de novo.
Quebrada.
Mas viva.
— DELICIOSO... — a voz saiu arrastada, cheia de fome. — A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO...
Renato não conseguia se mover.
Imogen também não.
Era o fim.
A criatura avançou.
Um passo. Outro.
Então—
O disparo.
Seco.
A cabeça da criatura simplesmente deixou de existir. Não foi uma ruptura limpa — foi uma explosão. Um jorro de matéria, sangue roxo e fragmentos que evaporaram na luz âmbar.
O corpo caiu como um saco vazio.
Passos úmidos atritando areia no posto se ouviram.
Os olhos de Renato e Imogen, quase apagando, focaram na escuridão além. Lorraine. Respirando pesado.
Um arranhão atravessando o rosto. Segurando uma espingarda ainda fumegante.
— Vamos, levantem, seus mongolóides! — ela gritou. — Essas aberrações me cercaram! Fugi até achar um policial — o idiota tentou conversar com o cinzento e teve a garganta arrancada! Peguei uma das armas no carro e fugi!
A voz dela tremia. Mas não falhava.
— Que porra era aquela!? - Renato falou. Mas Imogen olhava fixa para a carcaça que a criatura estava devorando antes de tentar contra eles. Era um frentista do posto.
— Sei lá! Um zumbi! Tipo nos filmes? - Falou Lorraine entregando uma pistola na mão de Imogen.
— Era do policial. — Ela falou olhando pra Imogen ainda assuatada.
— Zumbis? Droga? Vou virar um Zumbi? - Renato estava assustado.
Imogen então cortou o silêncio.
— Não são Zumbis. São Ghouls... Não imaginei que encontraria desses aqui nos trópicos.
— Por que você falou como se soubesse o que é? — Indagou Renato.
Imogen olhou para eles, olhos agora determinados, uma luz rósea é emitida pela sua mão sobre seu ferimento, que se fechava iluminado pela mão. Os tendões e o tecido adiposo se refazendo.
— Porque eu sei. — Falou Imogen — Relaxem, não vão virar ghouls.
— Eu sabia! Sabia que era verdade! — Lorraine exultou como se desconfiasse de algo antigo — As histórias de bruxa! Eu sabia!
— Bruxa! Ghoul!? — Renato reclamou de dor e da informação — Minha cabeça está rodando.
— Vou curar vocês. — Falou Imogen.

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