Serra do Lago (ES), 24 de Julho de 2009 - 00:05
Imogen agora caminhava à frente, enquanto Lorraine e Renato seguiam logo atrás. Nenhum dos dois saberia explicar exatamente por quê — apenas aconteceu.
Ela os havia curado. À custa de si mesma.
Lorraine aceitava aquilo com uma palavra só: magia.
Renato não.
Para ele, a coisa não encaixava.
Antes, Imogen era apenas linda — inalcançável, sim, mas dentro de um mundo compreensível. Agora, não. Agora havia algo a mais. Algo que escapava completamente da lógica dele.
Não era medo exatamente.
Era outra coisa.
Ela não era apenas melhor que ele. Era de outra ordem.
E isso o fazia se sentir pequeno. Ridiculamente pequeno.
— Então quer dizer que você vem de uma família com feiticeiros de origem? — Lorraine parecia fascinada, quase infantil no entusiasmo.
— Não deveria se impressionar tanto... — respondeu Imogen, com calma. — Ramona provavelmente é mais habilidosa que eu. Eu só sei alguns feitiços de cura.
— Você tem que me ensinar, Imogen! Tem que me ensinar! — Lorraine falava quase sem sentir o próprio rosto, como se o arranhão já não existisse.
Renato permaneceu em silêncio.
Abriu a garrafa de absinto. Bebeu um gole. Fechou.
Imogen percebeu.
— Está tudo bem?
— Estou... — a voz dele saiu esvaziada. — Só estou tentando digerir.
— Releva. Ele só tá percebendo que é um inútil — Lorraine disparou.
— Ele não é inútil. — Imogen respondeu, com um leve sorriso. — Eu estaria morta se ele não tivesse segurado um ghoul.
Renato ergueu os olhos, surpreso.
— Ok... isso eu não acredito... — Lorraine estreitou os olhos. — Você não tá falando isso só pra deixar ele melhor, né?
— Não. — Imogen respondeu, simples. — Eu estava no chão. Ele tinha arrancado um pedaço da minha barriga. Eu teria morrido.
Ela virou de costas e continuou caminhando, liderando o grupo pela rodovia úmida.
Renato ficou em silêncio.
E esse silêncio incomodou Lorraine.
— E não tenta entender... — disse Imogen, sem olhar para trás. — Não é pra fazer sentido. As coisas só... são assim.
Depois de alguns passos, Renato perguntou:
— Como essas criaturas chegaram aqui?
— Existem dois tipos de ghouls... — respondeu ela. — Os criados por rituais ligados à tradição de Rytyuu, o filho de Lilith... e os criados por vampiros. Eu... não estudei o suficiente pra distinguir.
— Espera... vampiros? — Lorraine parou, incrédula.
— Lorraine... — Renato respondeu, com irritação contida. — A gente acabou de ver um ghoul. Você viu ela curar a gente. Isso ainda é difícil de acreditar?
Ela respirou fundo.
— Tá... você tem razão. — olhou para ele. — Desculpa. Eu tô sendo escrota contigo desde ontem.
— Tá de boa... — Renato respondeu, com um meio sorriso. — Você só tá com ciúmes.
Imogen sorriu de canto.
— Eu? Com ciúmes de você? — Lorraine riu, falso. — Parece que aquele ghoul arrancou seu cérebro numa dentada.
— É bem óbvio... — ele provocou.
— Ah, claro! — ela se irritou de verdade. — Quer ver como é fácil terminar o que ele começou?
— Gente... — Imogen interrompeu.
Ela apontava à frente.
O Bosque dos Alves.
A propriedade dos Vargas e Souza estava em chamas em meio a ele.
O fogo subia pelas estruturas como algo vivo, consumindo madeira, telhado, memória.
— Vamos ter que pegar a balsa... — disse Lorraine, mas a frase morreu ao ver o píer destruído, parcialmente submerso.
— Vai nadar com ela no lombo? — ironizou Renato.
Imogen observava.
— Ghouls são semirracionais... — disse ela. — Falam, andam, planejam. Mas comem carne crua. Não cozinham. Não fazem fogo.
Lorraine olhou para as chamas de novo.
— Então isso aqui...
— Não foi obra deles.
— E o que mais você sabe?
— Que obedecem a um mestre. Geralmente um demiurgista... ou um vampiro.
— Eu até perguntaria o que é demiurgia... — Renato disse, apertando a tora ainda suja de sangue roxo — ...mas temos companhia.
Quatro figuras surgiam.
Cinzentas.
Movendo-se de forma errada.
— Vamos fugir... — Falou Imogen — Ghouls são resistentes... Não temos munição pra isso tudo e temos que chegar até a casa do Edward.... A propriedade foi bloqueada pela magia de um antepassado nosso... Estaremos seguros lá.
— O QUE TEMOS AQUIIII??? — uma das criaturas gritou.
— MAIS COMIDA! — outra respondeu.
— A MESTRA PRECISA DA NOSSA AJUDAAA...
— ENCURRALEM ELES!
Os três correram direto para o fogo.
— Por que estamos indo pro incêndio?! — gritou Renato.
— Porque eles são inflamáveis! — respondeu Imogen. — O metano da putrefação!
Lorraine olhou para trás.
Depois para frente.
E entendeu.
— Então... Por que eu acho que os ghouls estão contando com isso?
— Isso o que? — Perguntou Imogen correndo atrás de Renato.
— Com a gente correr pra propriedade em chamas? — Lorraine continuou.
Renato logo entendeu... A propriedade em chamas estava desabando e depositando entulhos flamejantes em todo o caminho de escape para a mata atrás...
— Que merda! O caminho tá bloqueado por entulho pegando fogo! — Ao redor apenas muros altíssimos.
— Estamos encurralados! - Imogen se deu conta.
Os ghouls se aproximaram andando, calmamente. Um deles lambia os lábios ainda sujos do sangue da última vítima.
— O que faremos? - Indagou Renato.
— ATIRAR NESSES FELASDAPUTA! - Gritou Lorraine apontando a espingarda e atirando em um deles. O cano subiu como se fosse pra lua devido ao recuo, mas a bala acertou o braço de um deles que se espalhou como carne moída... Mas a criatura mostrou pouco incômodo.
— CERQUEM O JANTAR! - Gritou o quarto com meio-braço apenas e os três demais correram para esquerda, direita e centro.
— PUTA MERDA! - Gritou Renato ele correu pra interceptar o que foi pra esquerda antes que ele chegasse a té Lorraine.
O ghoul saltou sobre o rapaz encravando suas unhas nos ombros dele e tentando uma mordida, mas os dentes dele encravaram-se no tronco de eucalipto. Renato fez força desprendendo ele de seus ombros, e após forçar a soltura dos dentes do tronco acertou-lhe uma paulada no rosto fazendo um dos caninos quebrar. Mas isso foi inútil, a criatura voltou a avançar contra ele.
Imogen sem saída se viu na necessidade de apelar a um arkanum naturalis.
— GHOST! - Ela exclamou, e uma viga de madeira em chamas se desprendeu amarrada a um cabo de aço, e num efeito gongo, a viga se balançou pelo galho acertando dois juntos e os derrubando.
Virando-se disparou a pistola contra o que perseguia Renato, fazendo com que ele se desequilibrasse um pouco, conquistando espaço pra Renato correr.
— Veja! a viga criou um caminho com menos chamas! — Lorraine apontou e conferiu a munição. Só tinha mais um disparo. Renato olhou para eles e falou.
— Sigam, eu sustento aqui!
— Tá louco? - Gritou Imogen — Eles vão matar você.
— Eu sou mais rápido que vocês, meninas... Assim ganho um tempo.
— Até parece que um pançudo como você é rápido! — Lorraine protestou mas a preocupação nos olhos a traía.
— Vão logo! — Ele insistiu.
Imogen puxou Lorraine e passaram em meio ao vão de chamas, as madeiras antes em brasas se apagavam de forma contraintuitiva, simplesmente errada, como se a entropia funcionasse ao contrário.
— Que esquisito... — Observou Lorraine, não tem poquê não estar pegando fogo aqui...
— De fato... — Comentou Imogen ao ver a madeira chamuscada apagando-se numa trilha por fazer na frente de seu caminho a medida em que caminhavam. — É quase como se alguém quisesse que passássemos por esse caminho.
Na entrada das ruínas da casa dos Vargas e Souza, Renato jogou absinto na sua clava improvisada e acendeu no fogo.
— Agora é só eu e vocês! — Ele gritou com raiva.
O primeiro ghoul avançou e tomou uma porretada bem dada na cabeça, que logo se inflamou em chamas.
— O RAPAZ É ESPEEERRTOOO - Um deles sibilou como ima serpente.
Os outros dois atacaram em conjunto, a clava flamejante improvisada acertou um deles que também se incandesceu, mas o outro conseguiu derrubá-lo e mordê-lo no peito, arrancando parte de seu peito. O grito de desespero e dor. O outro avançou para morder seu pescoço, não havia o que fazer, dessa vez era o fim. E quando o dente já tocava a a jugular de Renato uma seta negra gigantesca atravessou a cabeça do ghoul que desferiria o dano letal.
Uma garota de roupa de couro negra surgia vindo da estrada atrás dos ghouls!
— UMA FEITICEIRAAA - O com o braço destruído sibilou.
— SIMMM CARNE DELICIOSA! - O segundo que subsistiu concordou, e ambos se levantaram de cima do corpo de Renato ensanguentado, e começaram a correr na direção da moça.
— A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO É DELICIOSAAA - O primeiro gemeu.
Ao se ver livre dos seus algozes, Renato só gemia de dor quando uma mão vindo de trás dele entre as chamas, segurou a dele.
— Levanta, seu gordo machista do caralho! - a voz era áspera como a de uma fumante.
— Ra-ramona?? O que? Como? - A voz dele soava um msito de dor e surpresa.
— Cala a boca seu tetudo jogador de Lineage, custou até eu e a Nanna conseguirmos abrir caminho pra vocês. Sò anda! - Ela envolveu o braço dela ao redor dela.
— Eu consigo andar! - Ele murmurou.
— Bom mesmo! Você pesa umas 30 arrobas seu comedor de bacon do caralho!
— Nunca tive tão feliz em ser tão ofendido... - Ele riu. Ramona também.
Na entrada da propriedade em chamas Nanna murmurou...
— Isso, venham pra mim, seus burros! - ELa com um sorriso sádico deixou sua planaltina brlhar em azul luminoso como um raio em meio a chuva.
— A morte de um vivo é como viver a noite de um morto, o dia de uma alma no purgatório de Saklas, o deus cego, EXSECRATIO! - Nanna murmurou antes de gritar, e ao fim das palavras compromisso, uma nuvem negra envolveu os ghouls como uma névoa de escuridão enquanto uma esfera de energia escura explodia emergindo do chão sob os pés deles, pedaços de carne podre encandeceram ao cair no meio das chamas.
Nanna sorriu. "Nada como atrair um monte de idiotas pro mesmo lugar e explodir tudo numa maldição em área". Ela pensou.
Ramona levou Renato muito ferido em seu caminho em meio as chamas atravessando a propriedade destruída, até encontrar Imogen e Lorraine.
— Como fez esse caminho? Bem engenhoso. — Indagou Imogen ao ver ela chegando com Renato ensanguentado.
—Arkanum naturalis. — Ela respondeu.
— Seu gordão burro! Fiquei com medo de perder você! — Lorraine abraçou Renato mesmo ferido e sujo de sangue, o que gerou um gemido de dor nele.
— Vamos pra propriedade dos Penzias-Costa... — Falou Nanna que surgia dentre as chamas que se fechavam conforme ela passava, os Vargas e Souza estão lá com a Maia Penzias-Costa.
— Caralho! Como essa farma aura! — Assoviou em admiração, Lorraine.
Nanna apenas sorriu.
— Como acharam a gente? — Indagou Imogen olhando pra Ramona.
— Primeiro, eu moro aqui... A casa dos Penzias-Costa fica entre a Velha Garimpagem e o Bosque dos Alves. Segundo, recebi uma carta esquisitíssima escrita em azul... Basicamente descrevendo eu vendo a coluna de fogo emergindo do píer e da casa da Mari... Como a Nanna já tava aqui falando com a Maia, bastou ir lá, a Maia conseguiu tirar os Vargas e Souza das chamas... Foi por um triz.

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