sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

[CONTO] História dentro da História 001

09 de Julho de 2008 - 18:45

Crescente-SP era uma cidadezinha perdida na ilha de Drauka, ao largo do litoral paulista, onde o nevoeiro parecia nascer da calçada e o silêncio tinha textura. Era o tipo de lugar onde o tempo desacelerava — ou se retorcia — de um modo que deixava agentes experientes desconfortáveis.

E, justamente ali, o Xenophenomena Bureau of Investigation abrira sua Estação Zero temporária, instalada no interior de um Ford Fiesta Sedan 2006, com os painéis modificados e sensores calibrados para detectar o Xenoevento 22/2008:

uma cidade repleta de pessoas cinzentas com olhos mortos — autômatos humanos — e rumores de uma feiticeira que podia copiar rostos.

Marx Ryan, head of operations , estava sentado no banco do motorista, inclinado para trás, os olhos semicerrados. O cansaço era um cobertor pesado, e o motor desligado deixava o interior do carro frio, úmido. O único som eram as notificações abafadas no rádio interno.

— Agente 07 reportando… perímetro nordeste limpo.

— Yeager: continuo sem entender a fisiologia dessas pessoas cinzentas, chefe. Nem vivo, nem morto.

— Maisie: Ai, eu quero esquecer um pouco esses putos cinzentos... Queria alguém que me fizesse gritar um pouco.

— Yamila: Hummmm... Eu posso fazer isso de uma forma estranhamente dolorosa e prazerosa... Se quiser...

— Concentração nos afazeres, pessoal... —  Balbuciou Ryan.

Mas era So-Maya Park quem lhe enchia o peito de uma ansiedade inexplicável. A operação dela começava em pouco tempo, mas nao cheirava a operação coisa nenhuma... Ou estaria ele com ciúmes? Ele a conhecera a pouco mais de 12 hora e ele era... Tão especial...

Meiga. Tímida. Talentosa além da conta. E, sem saber, dona dos pensamentos sonolentos de Ryan naquele lusco-fusco entre vigília e sonho.

Seu último relatório havia sido curto, quase sussurrado, com aquele jeitinho leve dela:

— “Chefe… eu vou encontrar o delegado. O Danilo. Talvez ele saiba algo.”

Ele odiava aquele nome. Danilo.

Sabia que o sujeito era falso. Sabia que era cúmplice da feiticeira, Soo-Jin Park — a doppelganger psicopata de So-Maya.

E, ainda assim, So-Maya parecia ter seus olhos brilhantes ao falar dele. Ou… fingir confiança por profissionalismo. Os “ossos do ofício”, como ela dissera.

— Sobra nada mesmo... —  Murmurou ele entre o sono e o despertar.

Ryan fechou os olhos por um instante.

Imaginou — por um fragmento de lucidez sonolenta — ele e ela, depois de tudo resolvido, em um jantar simples em algum restaurante de estrada. Ela rindo com aquela risadinha contida. Ele finalmente relaxando o rosto duro.

Mas a imagem escorreu como areia entre os dedos.

O rádio estalou. Depois, silêncio.

E então — três toques suaves na janela.

Ryan abriu os olhos, confuso. O vidro estava parcialmente embaçado. Uma silhueta familiar.

So-Maya. De farda.

Ele apertou os olhos.

— Chefe… — disse ela, com um sorriso doce. — Eu vim pegar um equipamento que eu esqueci.

A voz dela era suave demais.

O sorriso, gentil como sempre.

Os olhos… brilhavam como se houvesse eletricidade dentro.

Ryan, ainda meio dormindo, tentou analisar o que estava vendo, mas sua mente boiava num mar cinzento.

— Ah… sim… claro. — Ele destravou a porta. — Entra.

Ela entrou, deslizando para o banco do carona. Seus movimentos eram… estranhamente fluidos. Sensuais demais.

Não era o jeito dela.

So-Maya costumava ser cuidadosa, quase desastrada ao entrar no carro da equipe.

Mas aquela mulher fechou a porta devagar, inclinou a cabeça para o lado, e começou a avançar pelos assentos com uma lentidão calculada.

— Chefe… — ela murmurou, e sua mão subiu até o botão superior da farda. Com um gesto, o desabotoou, revelando o decote. — A noite está tão… Quente e solitária, não está?

Ele piscou, tentando processar.

— Agente Park, é julho... Deve estar uns 10ºC lá fora... Do que está falando?

Ela continuou:

— Você já pensou… em como seria se… — aproximou o rosto do dele — você e eu… esquecêssemos essa investigação estúpida por alguns minutos… e fizéssemos algo bem mais interessante?

Ryan engoliu seco. Não de desejo — mas de pavor desperto.

— So-Maya… — começou ele, tropeçando nas palavras pelo sono. — Você… uh… tem certeza de que…?

Ela não deixava de sorrir.

— “Chefe”… — sussurrou, lambendo os lábios lentamente — por que você está tão tenso? Eu posso… aliviar isso pra você.

Um arrepio gelado correu pela espinha dele.

Algo estava errado.

Muito errado.

Porque:

Primeiro — So-Maya não era assim.

Ela era uma profissional exemplar. Uma dama tímida, gentil. Jamais se insinuaria daquela forma, e muito menos durante uma operação.

Segundo — ela não estaria de farda.

Ela estava prestes a ir a um encontro com o delegado. Teria vestido algo casual. Algo bonito. Algo dela.

Terceiro — e o que selou sua certeza —

ela apoiou a mão direita no painel, mas o cotovelo no banco do carona, de um jeito não-natural.

Um ângulo estranho, naturalmente desconfortável.

Um erro anatômico.

Ou… uma tentativa de disfarçar a dor.

Justo onde Yamila havia golpeado Soo-Jin Park com a Lâmina de Pura Escuridão, laçerando seu antebraço naquele mesmo dia.

Ryan relaxou os músculos do rosto. Fingiu cair na provocação.

Ela aproximou o rosto do dele, os lábios a poucos centímetros.

Ele deixou.

Deixou até o último segundo.

E então, suave como o apertar de um sussurro, Ryan puxou a pistola da cintura e encostou o cano frio na barriga dela.

— Você me subestimou.

Ela congelou.

Ele continuou, voz baixa, firme, implacável:

— Primeiro… So-Maya é uma mulher exemplar. Uma dama acima de qualquer suspeita.

Ela jamais se portaria de forma tão vulgar.

A expressão da mulher mudou.

— Segundo… ela não estaria de farda agora.

O que significa que seu gado — Danilo, ou Guilherme, seja lá qual for o nome falso — não te contou que ela iria a um encontro com ele... Será que... Ah não... Você está sendo enganada? - Ryan sabia ser debochado quando queria. - Deve ser triste ser traída… mesmo sendo tão poderosa e tão incapaz de empatia.

Os olhos dela franziram, a pele vibrou — como se estivesse prestes a rachar.

— Terceiro… você evita tocar o banco com o antebraço.

Você está ferida.

Soo-Jin Park está ferida ali.

Não So-Maya.

Ele sorriu, só de canto.

— E por fim… BANG!

Ele apertou o gatilho.

A arma disparou.

Mas no momento exato do disparo, o corpo diante dele dobrou o espaço, torcendo-se como um reflexo em água quebrada, teleportando para o banco de trás.

A bala atravessou o vidro do carona, estilhaçando-o.

No banco traseiro, uma risada.

Soo-Jin Park, revelada, sentada como uma boneca demoníaca, inclinou a cabeça e gargalhou.

— Se prefere aquela cópia… fique com ela, Marx Ryan… — disse, em português perfeito, tentando dissimular ódio e confiança. — Ela é tão… doce. Eu? Eu prefiro você assim. Confuso. Tão fácil de quebrar.

E antes que Ryan pudesse respirar, ela desapareceu.

Dobrou o espaço como um papel amassado, deixando apenas um rastro de escuridão.

E, ao sumir, uma de suas unhas rasgou o ar — e o rosto de Ryan.

Um corte fino, ardente, que queimava como veneno.

Ryan apertou o ferimento e ficou imóvel.

No vidro quebrado, refletido em fragmentos, estava seu próprio olhar —

a meio caminho entre o sono

e o horror lúcido.

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