09 de Julho de 2008 - 18:45
Crescente-SP era uma cidadezinha perdida na ilha de Drauka, ao largo do litoral paulista, onde o nevoeiro parecia nascer da calçada e o silêncio tinha textura. Era o tipo de lugar onde o tempo desacelerava — ou se retorcia — de um modo que deixava agentes experientes desconfortáveis.
E, justamente ali, o Xenophenomena Bureau of Investigation abrira sua Estação Zero temporária, instalada no interior de um Ford Fiesta Sedan 2006, com os painéis modificados e sensores calibrados para detectar o Xenoevento 22/2008:
uma cidade repleta de pessoas cinzentas com olhos mortos — autômatos humanos — e rumores de uma feiticeira que podia copiar rostos.
Marx Ryan, head of operations , estava sentado no banco do motorista, inclinado para trás, os olhos semicerrados. O cansaço era um cobertor pesado, e o motor desligado deixava o interior do carro frio, úmido. O único som eram as notificações abafadas no rádio interno.
— Agente 07 reportando… perímetro nordeste limpo.
— Yeager: continuo sem entender a fisiologia dessas pessoas cinzentas, chefe. Nem vivo, nem morto.
— Maisie: Ai, eu quero esquecer um pouco esses putos cinzentos... Queria alguém que me fizesse gritar um pouco.
— Yamila: Hummmm... Eu posso fazer isso de uma forma estranhamente dolorosa e prazerosa... Se quiser...
— Concentração nos afazeres, pessoal... — Balbuciou Ryan.
Mas era So-Maya Park quem lhe enchia o peito de uma ansiedade inexplicável. A operação dela começava em pouco tempo, mas nao cheirava a operação coisa nenhuma... Ou estaria ele com ciúmes? Ele a conhecera a pouco mais de 12 hora e ele era... Tão especial...
Meiga. Tímida. Talentosa além da conta. E, sem saber, dona dos pensamentos sonolentos de Ryan naquele lusco-fusco entre vigília e sonho.
Seu último relatório havia sido curto, quase sussurrado, com aquele jeitinho leve dela:
— “Chefe… eu vou encontrar o delegado. O Danilo. Talvez ele saiba algo.”
Ele odiava aquele nome. Danilo.
Sabia que o sujeito era falso. Sabia que era cúmplice da feiticeira, Soo-Jin Park — a doppelganger psicopata de So-Maya.
E, ainda assim, So-Maya parecia ter seus olhos brilhantes ao falar dele. Ou… fingir confiança por profissionalismo. Os “ossos do ofício”, como ela dissera.
— Sobra nada mesmo... — Murmurou ele entre o sono e o despertar.
Ryan fechou os olhos por um instante.
Imaginou — por um fragmento de lucidez sonolenta — ele e ela, depois de tudo resolvido, em um jantar simples em algum restaurante de estrada. Ela rindo com aquela risadinha contida. Ele finalmente relaxando o rosto duro.
Mas a imagem escorreu como areia entre os dedos.
O rádio estalou. Depois, silêncio.
E então — três toques suaves na janela.
Ryan abriu os olhos, confuso. O vidro estava parcialmente embaçado. Uma silhueta familiar.
So-Maya. De farda.
Ele apertou os olhos.
— Chefe… — disse ela, com um sorriso doce. — Eu vim pegar um equipamento que eu esqueci.
A voz dela era suave demais.
O sorriso, gentil como sempre.
Os olhos… brilhavam como se houvesse eletricidade dentro.
Ryan, ainda meio dormindo, tentou analisar o que estava vendo, mas sua mente boiava num mar cinzento.
— Ah… sim… claro. — Ele destravou a porta. — Entra.
Ela entrou, deslizando para o banco do carona. Seus movimentos eram… estranhamente fluidos. Sensuais demais.
Não era o jeito dela.
So-Maya costumava ser cuidadosa, quase desastrada ao entrar no carro da equipe.
Mas aquela mulher fechou a porta devagar, inclinou a cabeça para o lado, e começou a avançar pelos assentos com uma lentidão calculada.
— Chefe… — ela murmurou, e sua mão subiu até o botão superior da farda. Com um gesto, o desabotoou, revelando o decote. — A noite está tão… Quente e solitária, não está?
Ele piscou, tentando processar.
— Agente Park, é julho... Deve estar uns 10ºC lá fora... Do que está falando?
Ela continuou:
— Você já pensou… em como seria se… — aproximou o rosto do dele — você e eu… esquecêssemos essa investigação estúpida por alguns minutos… e fizéssemos algo bem mais interessante?
Ryan engoliu seco. Não de desejo — mas de pavor desperto.
— So-Maya… — começou ele, tropeçando nas palavras pelo sono. — Você… uh… tem certeza de que…?
Ela não deixava de sorrir.
— “Chefe”… — sussurrou, lambendo os lábios lentamente — por que você está tão tenso? Eu posso… aliviar isso pra você.
Um arrepio gelado correu pela espinha dele.
Algo estava errado.
Muito errado.
Porque:
Primeiro — So-Maya não era assim.
Ela era uma profissional exemplar. Uma dama tímida, gentil. Jamais se insinuaria daquela forma, e muito menos durante uma operação.
Segundo — ela não estaria de farda.
Ela estava prestes a ir a um encontro com o delegado. Teria vestido algo casual. Algo bonito. Algo dela.
Terceiro — e o que selou sua certeza —
ela apoiou a mão direita no painel, mas o cotovelo no banco do carona, de um jeito não-natural.
Um ângulo estranho, naturalmente desconfortável.
Um erro anatômico.
Ou… uma tentativa de disfarçar a dor.
Justo onde Yamila havia golpeado Soo-Jin Park com a Lâmina de Pura Escuridão, laçerando seu antebraço naquele mesmo dia.
Ryan relaxou os músculos do rosto. Fingiu cair na provocação.
Ela aproximou o rosto do dele, os lábios a poucos centímetros.
Ele deixou.
Deixou até o último segundo.
E então, suave como o apertar de um sussurro, Ryan puxou a pistola da cintura e encostou o cano frio na barriga dela.
— Você me subestimou.
Ela congelou.
Ele continuou, voz baixa, firme, implacável:
— Primeiro… So-Maya é uma mulher exemplar. Uma dama acima de qualquer suspeita.
Ela jamais se portaria de forma tão vulgar.
A expressão da mulher mudou.
— Segundo… ela não estaria de farda agora.
O que significa que seu gado — Danilo, ou Guilherme, seja lá qual for o nome falso — não te contou que ela iria a um encontro com ele... Será que... Ah não... Você está sendo enganada? - Ryan sabia ser debochado quando queria. - Deve ser triste ser traída… mesmo sendo tão poderosa e tão incapaz de empatia.
Os olhos dela franziram, a pele vibrou — como se estivesse prestes a rachar.
— Terceiro… você evita tocar o banco com o antebraço.
Você está ferida.
Soo-Jin Park está ferida ali.
Não So-Maya.
Ele sorriu, só de canto.
— E por fim… BANG!
Ele apertou o gatilho.
A arma disparou.
Mas no momento exato do disparo, o corpo diante dele dobrou o espaço, torcendo-se como um reflexo em água quebrada, teleportando para o banco de trás.
A bala atravessou o vidro do carona, estilhaçando-o.
No banco traseiro, uma risada.
Soo-Jin Park, revelada, sentada como uma boneca demoníaca, inclinou a cabeça e gargalhou.
— Se prefere aquela cópia… fique com ela, Marx Ryan… — disse, em português perfeito, tentando dissimular ódio e confiança. — Ela é tão… doce. Eu? Eu prefiro você assim. Confuso. Tão fácil de quebrar.
E antes que Ryan pudesse respirar, ela desapareceu.
Dobrou o espaço como um papel amassado, deixando apenas um rastro de escuridão.
E, ao sumir, uma de suas unhas rasgou o ar — e o rosto de Ryan.
Um corte fino, ardente, que queimava como veneno.
Ryan apertou o ferimento e ficou imóvel.
No vidro quebrado, refletido em fragmentos, estava seu próprio olhar —
a meio caminho entre o sono
e o horror lúcido.

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