segunda-feira, 6 de abril de 2026

[ACSdL] CONTO - A cidade, Uma história dentro da história


Serra do Lago (ES), 24 de Julho de 2009 - 00:05

Imogen agora caminhava à frente, enquanto Lorraine e Renato seguiam logo atrás. Nenhum dos dois saberia explicar exatamente por quê — apenas aconteceu.

Ela os havia curado. À custa de si mesma.

Lorraine aceitava aquilo com uma palavra só: magia.

Renato não.

Para ele, a coisa não encaixava.

Antes, Imogen era apenas linda — inalcançável, sim, mas dentro de um mundo compreensível. Agora, não. Agora havia algo a mais. Algo que escapava completamente da lógica dele.

Não era medo exatamente.

Era outra coisa.

Ela não era apenas melhor que ele. Era de outra ordem.

E isso o fazia se sentir pequeno. Ridiculamente pequeno.

— Então quer dizer que você vem de uma família com feiticeiros de origem? — Lorraine parecia fascinada, quase infantil no entusiasmo.

— Não deveria se impressionar tanto... — respondeu Imogen, com calma. — Ramona provavelmente é mais habilidosa que eu. Eu só sei alguns feitiços de cura.

— Você tem que me ensinar, Imogen! Tem que me ensinar! — Lorraine falava quase sem sentir o próprio rosto, como se o arranhão já não existisse.

Renato permaneceu em silêncio.

Abriu a garrafa de absinto. Bebeu um gole. Fechou.

Imogen percebeu.

— Está tudo bem?

— Estou... — a voz dele saiu esvaziada. — Só estou tentando digerir.

— Releva. Ele só tá percebendo que é um inútil — Lorraine disparou.

— Ele não é inútil. — Imogen respondeu, com um leve sorriso. — Eu estaria morta se ele não tivesse segurado um ghoul.

Renato ergueu os olhos, surpreso.

— Ok... isso eu não acredito... — Lorraine estreitou os olhos. — Você não tá falando isso só pra deixar ele melhor, né?

— Não. — Imogen respondeu, simples. — Eu estava no chão. Ele tinha arrancado um pedaço da minha barriga. Eu teria morrido.

Ela virou de costas e continuou caminhando, liderando o grupo pela rodovia úmida.

Renato ficou em silêncio.

E esse silêncio incomodou Lorraine.

— E não tenta entender... — disse Imogen, sem olhar para trás. — Não é pra fazer sentido. As coisas só... são assim.

Depois de alguns passos, Renato perguntou:

— Como essas criaturas chegaram aqui?

— Existem dois tipos de ghouls... — respondeu ela. — Os criados por rituais ligados à tradição de Rytyuu, o filho de Lilith... e os criados por vampiros. Eu... não estudei o suficiente pra distinguir.

— Espera... vampiros? — Lorraine parou, incrédula.

— Lorraine... — Renato respondeu, com irritação contida. — A gente acabou de ver um ghoul. Você viu ela curar a gente. Isso ainda é difícil de acreditar?

Ela respirou fundo.

— Tá... você tem razão. — olhou para ele. — Desculpa. Eu tô sendo escrota contigo desde ontem.

— Tá de boa... — Renato respondeu, com um meio sorriso. — Você só tá com ciúmes.

Imogen sorriu de canto.

— Eu? Com ciúmes de você? — Lorraine riu, falso. — Parece que aquele ghoul arrancou seu cérebro numa dentada.

— É bem óbvio... — ele provocou.

— Ah, claro! — ela se irritou de verdade. — Quer ver como é fácil terminar o que ele começou?

— Gente... — Imogen interrompeu.

Ela apontava à frente.

O Bosque dos Alves.

A propriedade dos Vargas e Souza estava em chamas em meio a ele.

O fogo subia pelas estruturas como algo vivo, consumindo madeira, telhado, memória.

— Vamos ter que pegar a balsa... — disse Lorraine, mas a frase morreu ao ver o píer destruído, parcialmente submerso.

— Vai nadar com ela no lombo? — ironizou Renato.

Imogen observava.

— Ghouls são semirracionais... — disse ela. — Falam, andam, planejam. Mas comem carne crua. Não cozinham. Não fazem fogo.

Lorraine olhou para as chamas de novo.

— Então isso aqui...

— Não foi obra deles.

— E o que mais você sabe?

— Que obedecem a um mestre. Geralmente um demiurgista... ou um vampiro.

— Eu até perguntaria o que é demiurgia... — Renato disse, apertando a tora ainda suja de sangue roxo — ...mas temos companhia.

Quatro figuras surgiam.

Cinzentas.

Movendo-se de forma errada.

— Vamos fugir... —  Falou Imogen — Ghouls são resistentes... Não temos munição pra isso tudo e temos que chegar até a casa do Edward.... A propriedade foi bloqueada pela magia de um antepassado nosso... Estaremos seguros lá.

— O QUE TEMOS AQUIIII??? — uma das criaturas gritou.

— MAIS COMIDA! — outra respondeu.

— A MESTRA PRECISA DA NOSSA AJUDAAA...

— ENCURRALEM ELES!

Os três correram direto para o fogo.

— Por que estamos indo pro incêndio?! — gritou Renato.

— Porque eles são inflamáveis! — respondeu Imogen. — O metano da putrefação!

Lorraine olhou para trás.

Depois para frente.

E entendeu.

— Então... Por que eu acho que os ghouls estão contando com isso?

— Isso o que? — Perguntou Imogen correndo atrás de Renato.

— Com a gente correr pra propriedade em chamas? — Lorraine continuou.


Renato logo entendeu... A propriedade em chamas estava desabando e depositando entulhos flamejantes em todo o caminho de escape para a mata atrás...

— Que merda! O caminho tá bloqueado por entulho pegando fogo! — Ao redor apenas muros altíssimos.

— Estamos encurralados! - Imogen se deu conta.

Os ghouls se aproximaram andando, calmamente. Um deles lambia os lábios ainda sujos do sangue da última vítima.

— O que faremos? - Indagou Renato.

— ATIRAR NESSES FELASDAPUTA! - Gritou Lorraine apontando a espingarda e atirando em um deles. O cano subiu como se fosse pra lua devido ao recuo, mas a bala acertou o braço de um deles que se espalhou como carne moída... Mas a criatura mostrou pouco incômodo.

— CERQUEM O JANTAR! - Gritou o quarto com meio-braço apenas e os três demais correram para esquerda, direita e centro.

— PUTA MERDA! - Gritou Renato ele correu pra interceptar o que foi pra esquerda antes que ele chegasse a té Lorraine.

O ghoul saltou sobre o rapaz encravando suas unhas nos ombros dele e tentando uma mordida, mas os dentes dele encravaram-se no tronco de eucalipto. Renato fez força desprendendo ele de seus ombros, e após forçar a soltura dos dentes do tronco acertou-lhe uma paulada no rosto fazendo um dos caninos quebrar. Mas isso foi inútil, a criatura voltou a avançar contra ele.

Imogen sem saída se viu na necessidade de apelar a um arkanum naturalis.

GHOST! - Ela exclamou, e uma viga de madeira em chamas se desprendeu amarrada a um cabo de aço, e num efeito gongo, a viga se balançou pelo galho acertando dois juntos e os derrubando.

Virando-se disparou a pistola contra o que perseguia Renato, fazendo com que ele se desequilibrasse um pouco, conquistando espaço pra Renato correr.

— Veja! a viga criou um caminho com menos chamas! — Lorraine apontou e conferiu a munição. Só tinha mais um disparo. Renato olhou para eles e falou.

— Sigam, eu sustento aqui!

— Tá louco? - Gritou Imogen — Eles vão matar você.

— Eu sou mais rápido que vocês, meninas... Assim ganho um tempo.

— Até parece que um pançudo como você é rápido! — Lorraine protestou mas a preocupação nos olhos a traía.

— Vão logo! — Ele insistiu.

Imogen puxou Lorraine e passaram em meio ao vão de chamas, as madeiras antes em brasas se apagavam de forma contraintuitiva, simplesmente errada, como se a entropia funcionasse ao contrário.

— Que esquisito... — Observou Lorraine, não tem poquê não estar pegando fogo aqui...

— De fato... — Comentou Imogen ao ver a madeira chamuscada apagando-se numa trilha por fazer na frente de seu caminho a medida em que caminhavam. — É quase como se alguém quisesse que passássemos por esse caminho.

Na entrada das ruínas da casa dos Vargas e Souza, Renato jogou absinto na sua clava improvisada e acendeu no fogo.

— Agora é só eu e vocês! — Ele gritou com raiva.

O primeiro ghoul avançou e tomou uma porretada bem dada na cabeça, que logo se inflamou em chamas.

— O RAPAZ É ESPEEERRTOOO - Um deles sibilou como ima serpente.

Os outros dois atacaram em conjunto, a clava flamejante improvisada acertou um deles que também se incandesceu, mas o outro conseguiu derrubá-lo e mordê-lo no peito, arrancando parte de seu peito. O grito de desespero e dor. O outro avançou para morder seu pescoço, não havia o que fazer, dessa vez era o fim. E quando o dente já tocava a a jugular de Renato uma seta negra gigantesca atravessou a cabeça do ghoul que desferiria o dano letal.

Uma garota de roupa de couro negra surgia vindo da estrada atrás dos ghouls!

— UMA FEITICEIRAAA - O com o braço destruído sibilou.

— SIMMM CARNE DELICIOSA! - O segundo que subsistiu concordou, e ambos se levantaram de cima do corpo de Renato ensanguentado, e começaram a correr na direção da moça.

— A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO É DELICIOSAAA - O primeiro gemeu.

Ao se ver livre dos seus algozes, Renato só gemia de dor quando uma mão vindo de trás dele entre as chamas, segurou a dele.

— Levanta, seu gordo machista do caralho!  - a voz era áspera como a de uma fumante.

— Ra-ramona?? O que? Como? - A voz dele soava um msito de dor e surpresa.

— Cala a boca seu tetudo jogador de Lineage, custou até eu e a Nanna conseguirmos abrir caminho pra vocês. Sò anda! - Ela envolveu o braço dela ao redor dela.

— Eu consigo andar! - Ele murmurou.

— Bom mesmo! Você pesa umas 30 arrobas seu comedor de bacon do caralho! 

— Nunca tive tão feliz em ser tão ofendido... - Ele riu. Ramona também.

Na entrada da propriedade em chamas Nanna murmurou...

— Isso, venham pra mim, seus burros! - ELa com um sorriso sádico deixou sua planaltina brlhar em azul luminoso como um raio em meio a chuva.

A morte de um vivo é como viver a noite de um morto, o dia de uma alma no purgatório de Saklas, o deus cego, EXSECRATIO! - Nanna murmurou antes de gritar, e ao fim das palavras compromisso, uma nuvem negra envolveu os ghouls como uma névoa de escuridão enquanto uma esfera de energia escura explodia emergindo do chão sob os pés deles, pedaços de carne podre encandeceram ao cair no meio das chamas.

Nanna sorriu. "Nada como atrair um monte de idiotas pro mesmo lugar e explodir tudo numa maldição em área". Ela pensou.

Ramona levou Renato muito ferido em seu caminho em meio as chamas atravessando a propriedade destruída, até encontrar Imogen e Lorraine.

— Como fez esse caminho? Bem engenhoso. — Indagou Imogen ao ver ela chegando com Renato ensanguentado.

Arkanum naturalis.  Ela respondeu.

— Seu gordão burro! Fiquei com medo de perder você! — Lorraine abraçou Renato mesmo ferido e sujo de sangue, o que gerou um gemido de dor nele.
— Vamos pra propriedade dos Penzias-Costa... — Falou Nanna que surgia dentre as chamas que se fechavam conforme ela passava, os Vargas e Souza estão lá com a Maia Penzias-Costa.

— Caralho! Como essa farma aura! — Assoviou em admiração, Lorraine.

Nanna apenas sorriu.

— Como acharam a gente? — Indagou Imogen olhando pra Ramona.

— Primeiro, eu moro aqui... A casa dos Penzias-Costa fica entre a Velha Garimpagem e o Bosque dos Alves. Segundo, recebi uma carta esquisitíssima escrita em azul... Basicamente descrevendo eu vendo a coluna de fogo emergindo do píer e da casa da Mari... Como a Nanna já tava aqui falando com a Maia, bastou ir lá, a Maia conseguiu tirar os Vargas e Souza das chamas... Foi por um triz.

[ACSdL] CONTO - Ghouls, a história dentro da história.

Serra do Lago (ES), 23 de Julho de 2009, 21:40

— Quem é que teve a brilhante ideia de acampar à margem da linha férrea abandonada com previsão de chuva, mesmo? — ironizava Lorraine.

— Foi o Renato. — Imogen apontava com indiferença, enquanto torcia os próprios cabelos loiros.

— Achei que seria divertido... — Renato, com a camisa molhada, ficava ainda mais engraçado, já que ostentava uma barriga notória. — Além do mais, Lorraine... você é quem curte essas paradas... Achei que a Imogen ia reclamar muito mais...

— Ah, seu gordo barriga de bosta... — Lorraine se irritava. — Acha que eu não sei por que você insistiu tanto nesse acampamento idiota, né? Espera só que eu falo em voz alta.

— Coé? Vai jogar baixo assim? — Renato reclamou, visivelmente amedrontado.

Imogen pareceu não perceber...

— Tá tudo bem, gente... Se não fosse esse programa maluco, provavelmente eu estaria em casa sem fazer nada mesmo.

— Tá vendo? — Renato apontou. — A Imogen não tá achando ruim.

Lorraine ajeitou a mecha verde molhada sobre seus inúmeros piercings.

— Dessa vez eu vou deixar passar.

— Você não é normalmente tão nervosa assim, Lorraine. Pelo menos não com a Ramona.

— É que pelo menos a Ramona eu conheço bem... sem querer ofender. Eu imaginei que você fosse o tipo dondoca. Porque você é... — Lorraine procurou as palavras.

— Loira, da família Montgomery-Brooklet? Recém-emigrada da Inglaterra? — Imogen ironizou, em seu português quase sem sotaque.

— É... tipo isso. — Lorraine respondeu.

— Se me permite o elogio — interpelou Renato —, vocês são mais legais que a Ramona, que chama tudo de fascismo ou machismo... ou os dois.

Imogen pareceu ficar curiosa.

— Essa Ramona... qual é a dela? Ela estuda no mesmo Colégio que eu, mas preferiu me apresentar à vocês da escola pública.

— Ela é da única das famílias que bem acessível em geral, diferente dos outros mauricinhos.

— Diferente daquele mongoloide do teu primo — Renato pontuou.

— Quem? — Imogen se fez de desentendida. — O Monty?

— É. — Ele respondeu, rindo.

Irritada, Lorraine bateu palmas.

— Isso, Renato. Você ganha muitos pontos com ela esculachando o primo dela.

— Foi mal... — ele se emendou, percebendo a idiotice que fez.

— Tá tudo bem. Eu mal o conheço. — falou Imogen. — Mas não faça isso de novo. Ele não tem culpa de ser assim.


Renato chegou a um ponto com dois eucaliptos mais frondosos e falou:

— É aqui. Lugar perfeito pra acampar.

— Que se foda. — A voz de Lorraine saiu como um bufo de frustração.

Imogen deu de ombros.

Renato começou a montar o acampamento. Abriu a barraca com facilidade e então decidiu iniciar a fogueira — e foi aí que deu problema.

— Madeira muito úmida... — ele cochichou mais para si do que para as meninas.

— Claro, porque um gênio ignorou a previsão do tempo! — Lorraine bufou. — Espera, acho que eu trouxe álcool.

— Quem traz álcool pra um acampamento? — Imogen indagou. — É o meu primeiro acampamento... afinal, sei nem do que estou falando. — Se emendou.

— Quem disse que é álcool etílico? — Lorraine sacou absinto da bolsa. — É álcool de curtir.

— Pinguça... — murmurou Renato.

— Até parece que você não bebe. — Ela ironizou.

Imogen riu.

— Mas tem álcool o bastante aí pra acender?

— 65% de álcool. — Ela sacudiu a garrafa.

— Bem, eu vou procurar lenha seca. — falou Renato. — Talvez tenha no posto velho. — Ele apontou para a ES-481.


Ambas ficaram em silêncio, olhando a luz alaranjada do colégio além da neblina, na colina cheia de eucaliptos, além do posto, da rodovia e do córrego.

— Se importaria de vir comigo, Imogen? — perguntou Renato.

— Não. — ela respondeu, meio aérea, ainda achando a paisagem familiar e um tanto etérea.

— É sério? Não tem como ficar mais na cara? — A voz de Lorraine saiu carregada de ironia.

— Qual é a tua, Lorraine? Tá bem? — Renato indagou, insatisfeito.

Imogen se adiantou, caminhando na escuridão.

— Nada... vai lá... Só tenta não estragar tudo com sua musa dos peitão. — Lorraine falou com desdém, tirando proveito do afastamento da gringa.

— Coé?!

— Ah, o que ela tem demais, Renato? Vai me dizer que é só por causa dos peitos grandes?

Renato ficou em silêncio.

— Eu não acredito nisso... É só por isso. Eu não sei por que eu espero muito mais dos homens... — ela arfou com indignação.

— Eu vou indo... não posso deixar a Imogen na escuridão.

Ele se afastou rapidamente para acompanhá-la.

— Até parece que essa cheerleader vai olhar pra um pançudinho como você do jeito que você merece... — a voz de Lorraine soou para si mesma como um desabafo, com Renato e Imogen já longe.


Ambos caminhavam pela pastagem ao redor do trilho, em silêncio, com Renato tentando pensar em algo para puxar conversa. Imogen esfregava os braços pelo frio e pela umidade.

— Aceita um casaco? — ofereceu Renato.

— Não. Tô de boa. — Ela respondeu, desinteressada.

— Desculpa te trazer pra cá... A ideia era enturmar você. Devia ter ouvido a Lorraine.

— Tá de boa. E não é a primeira vez que tentam ficar a sós comigo porque estão interessados em mim.

Renato ficou vermelho.

— Eu... não... sa-sabia... que...

— Tranquilo. Não tô interessada, mas eu não tinha amigos em Malmesbury... então vir pra cá foi uma forma de tentar recomeçar... E vocês são legais.

— Uau... tomei um fora sem nem chegar a dar uma cantada... Acho que essa é a humilhação definitiva... — ele suspirou, aborrecido.

Imogen riu.

— Você é engraçado. Devia olhar mais pra Lorraine. Ela claramente gosta de você.

— A Lorraine? Aquela punk maluca? Coé... — Renato sorriu, achando que era brincadeira. Mas logo percebeu que Imogen falava sério. — Espera... você acha mesmo?

— Sim. O jeito que ela fica irritadiça e abrasiva quando eu tô perto... é inegável.

— Uau... eu nunca notei... ma-mas eu gosto de você, Imogen.

Imogen riu de novo.

— Você me conhece há 36 horas... não tem como gostar de mim. Você gostou dos meus peitos. E tá tudo bem. Sério.

— Caralho... eu não fazia ideia de que eu era tão transparente... sério.

— É... muito. Não é um “não” definitivo. É só que eu não me envolvo de cara com ninguém sem conhecer... a não ser que eu encha a cara de absinto. — Ela ironizou.

Ele riu.

— Então eu acho que vou achar as lenhas mais secas que puder achar... — ele riu — assim economiza bebida.

Imogen balançou a cabeça, achando graça.

— Eu... — Renato ia dizer algo quando Imogen interrompeu:

— Espera... ouviu isso?

Renato assentiu negativamente. Eles já estavam na entrada do posto. Ele estava fechado — ou melhor, abandonado de forma lenta, como tudo ali. O lugar parecia suspenso no tempo: placas apagadas, vidro embaçado por dentro, uma luz âmbar pulsando fraca em um dos postes. O cheiro era estranho — uma mistura de combustível velho, ferrugem e algo orgânico demais para ser ignorado.

— Não deve ser nada... — Renato falou, tentando soar confiante, mais para si do que para ela. — ...E parece ter umas toras de eucalipto ali perto daquele caminhão. Parecem secas.

Imogen hesitou por um instante. O som que ouvira — se é que ouvira — ainda ecoava na cabeça dela, como uma memória que se recusa a se formar por completo. Mesmo assim, seguiu.

O cascalho estalava sob os pés. Cada passo parecia alto demais.

Ao chegarem perto da van, o ar ficou mais pesado. Não era só cheiro — era densidade. Como se o espaço ali estivesse saturado de algo invisível.

— Estão secas... maravilha! — exclamou Renato, forçando entusiasmo. — A única coisa ruim é esse cheiro de metano...

Imogen não respondeu. Seus olhos estavam fixos no chão.

— Aquilo é... sangue? — sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.

Renato olhou.

— Segura que eu vou dar uma olhada. — Renato ainda não havia desistido, na cabeça dele, ia demonstrar seu valor pela coragem, mesmo estando certo de que provavelmente não era nada. Desde as mortes de 2004, quando ainda era criança pré-puber, nada acontecia na cidade. Era pacata e tranquila. — Não deve ser... - Ele falou confiante. — ... Nada. — A voz na última palavra saiu tensa.

Era um impulso burro. Mas hormônios, não é?

Ele deu um passo.

Depois outro.

— Renato? — Imogen chamou.

Ele não respondeu.

Seus olhos estavam presos na escuridão sob a van.

Algo se moveu.

Não como um animal, mas como uma coisa entre um e outro.

Então veio o som.

Um grunhido úmido, profundo — como carne sendo puxada.

E antes que qualquer pensamento se completasse—

O impacto.

Um vulto cinza explodiu da sombra, rasgando o espaço entre um segundo e outro. Não houve transição — só presença.

— COMIIIDAAAAA!

A criatura caiu sobre Renato com um peso brutal. O ar foi arrancado dos pulmões dele. As unhas — longas, irregulares — cravaram na pele como ganchos.

O primeiro grito saiu automático.

O segundo já veio carregado de dor.

O som da carne sendo rasgada não era alto — era íntimo. Próximo demais.

Quente.

O sangue espirrou em arco, pegando a luz âmbar e transformando-a em algo grotescamente bonito por um segundo antes de cair.

Imogen congelou.

Seu corpo travou.

O mundo se estreitou ao ponto de caber apenas naquilo: Renato no chão, a coisa sobre ele, o som — o som — o som— Ela virou. Correu.

Dois passos.

Parou.

Algo quebrou dentro dela.

Não lógica. Não coragem.

Algo mais antigo.

Ela olhou para trás.

E viu.

Viu o momento exato em que os dentes da criatura afundaram no antebraço de Renato — profundos, serrilhados, puxando — não apenas carne, mas algo mais. Um pedaço dele.

Renato gritou de um jeito que não parecia humano.

Imogen voltou.

Não pensou.

Correu direto.

As toras caíram — três delas — rolando no cascalho.

Ela ergueu a última.

Golpeou.

O impacto seco reverberou pelo braço dela. Um som oco — como madeira contra algo duro demais para ser apenas osso. A criatura caiu para o lado.

Mas não parou.

Ela se mexia. Lenta. Um grunhido ou gemido, não era possível dizer.

Renato tentou levantar.

"NÃO ME IMPEDIRÃO" A voz saiu da criatura.

Cambaleou.

O braço esquerdo... estava errado. Aberto. Incompleto. A pele rasgada revelava algo que não deveria ver a luz.

Os olhos dele estavam arregalados, mas não focavam.

Imogen o empurrou.

— Corre!

A palavra saiu com urgência, mas distante — como se viesse de fora do corpo dela.

A criatura se ergueu de novo.

Rápida.

Rápida demais.

Avançou.

O impacto agora foi em Imogen.

Os dentes entraram na lateral da barriga com uma precisão brutal. Não foi um rasgo — foi uma penetração.

A dor não veio de imediato.

Veio como atraso.

Um segundo vazio.

E então—

Explosão.

Um calor absurdo se espalhou pelo corpo dela. O ar desapareceu. O mundo girou.

— OBRIGADA, MESTRAAA... — a criatura gemia, a voz vibrando de um jeito impossível.

Ela puxou.

Imogen sentiu.

Sentiu o próprio corpo cedendo.

Sentiu algo sendo arrancado de dentro.

Mas a criatura não terminou.

Um tranco.

Renato.

Ele a agarrou por trás, braços tremendo, sangue escorrendo, mas firme o suficiente para travar a coisa.

— CORRE, IMOGEN! EU SEGURO!

A voz dele estava quebrada.

Mas estava lá.

Imogen caiu de joelhos.

O som estava abafado.

O mundo parecia distante.

Mas ela viu.

Viu Renato segurando.

Viu a criatura lutando.

Viu o próprio sangue.

Algo dentro dela decidiu.

Ela levantou.

Pegou a tora.

Bateu.

Com tudo.

Sem técnica.

Sem hesitação.

A madeira encontrou a cabeça da criatura.

Uma vez.

Duas.

Três.

Até parar de contar.

A coisa caiu.

Dessa vez, não se moveu.

Renato soltou.

Respirou.

Ou tentou.

Imogen deu um passo.

Dois.

E o corpo desligou.

Ela caiu.

Renato a segurou por reflexo.

Mas o corpo dele também estava acabando.

A pressão caiu. A visão escureceu.

Eles desabaram juntos no chão frio do posto.

Silêncio.

Por um instante.

Então, um movimento.

Lento.

A criatura ainda se mexia, o sangue — agora roxo — escorria pelas têmporas dela.

Ela se levantou de novo.

Quebrada.

Mas viva.

— DELICIOSO... — a voz saiu arrastada, cheia de fome. — A CARNE DE UM ARQUÉTIPO DE MAGO...

Renato não conseguia se mover.

Imogen também não.

Era o fim.

A criatura avançou.

Um passo. Outro.

Então—

O disparo.

Seco.

A cabeça da criatura simplesmente deixou de existir. Não foi uma ruptura limpa — foi uma explosão. Um jorro de matéria, sangue roxo e fragmentos que evaporaram na luz âmbar.

O corpo caiu como um saco vazio.

Passos úmidos atritando areia no posto se ouviram.

Os olhos de Renato e Imogen, quase apagando, focaram na escuridão além. Lorraine. Respirando pesado.

Um arranhão atravessando o rosto. Segurando uma espingarda ainda fumegante.

— Vamos, levantem, seus mongolóides! — ela gritou. — Essas aberrações me cercaram! Fugi até achar um policial — o idiota tentou conversar com o cinzento e teve a garganta arrancada! Peguei uma das armas no carro e fugi!

A voz dela tremia. Mas não falhava.

— Que porra era aquela!? - Renato falou. Mas Imogen olhava fixa para a carcaça que a criatura estava devorando antes de tentar contra eles. Era um frentista do posto.
— Sei lá! Um zumbi! Tipo nos filmes? - Falou Lorraine entregando uma pistola na mão de Imogen.
— Era do policial. — Ela falou olhando pra Imogen ainda assuatada.
— Zumbis? Droga? Vou virar um Zumbi? - Renato estava assustado.

Imogen então cortou o silêncio.

— Não são Zumbis. São Ghouls... Não imaginei que encontraria desses aqui nos trópicos.
— Por que você falou como se soubesse o que é? — Indagou Renato.

Imogen olhou para eles, olhos agora determinados, uma luz rósea é emitida pela sua mão sobre seu ferimento, que se fechava iluminado pela mão. Os tendões e o tecido adiposo se refazendo.

— Porque eu sei. — Falou Imogen — Relaxem, não vão virar ghouls.
— Eu sabia! Sabia que era verdade! — Lorraine exultou como se desconfiasse de algo antigo — As histórias de bruxa! Eu sabia!
— Bruxa! Ghoul!? —  Renato reclamou de dor e da informação —  Minha cabeça está rodando.
— Vou curar vocês. —  Falou Imogen.

[ACSdL] CONTO - A cidade, Uma história dentro da história

Serra do Lago (ES), 24 de Julho de 2009 - 00:05 Imogen agora caminhava à frente, enquanto Lorraine e Renato seguiam logo atrás. Nenhum dos d...